Amantes da Verdade
Aqueles que receberam a pessoa de Cristo — Deus feito carne — e seguiram o caminho da verdade que Ele revelou tornaram-se desajustados e excluídos neste mundo. Desde a crucificação, passaram a ser considerados “inimigos do povo”. Esses amantes da Verdade foram chamados cristãos.
Os primeiros cristãos foram rejeitados pelo mundo estabelecido do qual provinham e foram perseguidos até a tortura e a morte, cumprindo a profecia de Cristo Deus:
“Se o mundo vos odeia, sabei que, antes de vós, odiou a mim. Se fôsseis do mundo, o mundo amaria o que é seu; mas porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso o mundo vos odeia.”
Para escapar da perseguição, refugiaram-se nas catacumbas — lugares onde os mortos eram sepultados — e ali oravam às escondidas, separados do mundo. Viviam na constante expectativa do martírio e, por isso, estavam sempre vigilantes, preparando-se para o outro mundo. A riqueza terrena, o conforto e a honra não tinham significado para eles, pois o sofrimento e a perseguição os despojavam de tudo isso. Não possuíam nada como propriedade pessoal, mas tinham todas as coisas em comum. Em resumo, eram de um só coração e de uma só alma, e não eram deste mundo.
As ruínas da cidade queimada de Roma ainda fumegavam quando o imperador Nero concebeu a ideia de saciar a ira do povo com o sangue dos cristãos. Depois de matar a própria mãe e incendiar metade de Roma, precisava encontrar um bode expiatório.
Nero, cujo nome está associado a tudo o que é cruel e insano, foi o primeiro a ordenar uma perseguição contra esses abnegados amantes da verdade. O clamor por todos os lados era pelo extermínio dos cristãos; todo o mundo pagão se levantou em armas contra eles. Assim, Nero preparou o cenário na “arena” para dois mil anos de perseguição sangrenta.
O derramamento de sangue teve início com a execução de dois dos discípulos de Cristo, chamados Pedro e Paulo. Os registros da época de sua execução preservaram para nós os fatos de seu martírio.
Depois que Paulo foi decapitado pela verdade que não podia negar, chegou a vez de Pedro morrer. Ele seria crucificado. Ao aproximar-se da cruz no local da execução, pediu que fosse crucificado de cabeça para baixo — porque, segundo suas próprias palavras, “não sou digno de ser crucificado como meu Senhor”. Então, invertendo a cruz, cravaram-lhe os pés para cima. E ali, à vista do mundo e diante dos olhos das gerações futuras, ele foi pregado pela Verdade.
O martírio era considerado o ato supremo de renúncia ao mundo e a forma mais elevada de espiritualidade. Formas extremamente cruéis de tortura eram usadas tanto contra homens quanto contra mulheres; eram decapitados, queimados, afogados, esquartejados, dilacerados e crucificados por sua fé no Deus único. Eram postos à prova por anti-teístas e pagãos que tentavam forçar esses crentes a renunciar à sua fé, mas em vão. Há incontáveis casos extremos na história do martírio que provaram sua vitória imperecível, que ia além deste mundo.
O chamado para uma morte violenta era uma realidade constante para aqueles que acreditavam em Deus e em Seu Cristo. Era de importância vital para o crente que o corpo, capaz de conter Deus dentro de si, fosse fortalecido para suportar os tormentos de um destino de mártir. Somente Cristo Deus, que se fez carne, e Seu Espírito habitando profundamente neles, podiam capacitá-los a vencer na invasão de suas almas e corpos pela dor esmagadora da tortura e pelo medo paralisante da morte. São esses mártires, ao longo dos séculos, que se tornaram o exemplo supremo da luta ascética: a morte para o mundo.
Após mais de três séculos de tortura, e com o sangue de literalmente milhares de amantes da verdade, o grito agonizante do martírio foi silenciado. A dor e o sofrimento desses amantes da verdade abriram a porta para a liberdade. No quarto século, a fé desses excluídos tornou-se a “religião oficial” do que então era conhecido como o mundo civilizado. As leis imorais do Império Romano foram substituídas pelos valores morais, pela paz e pela compaixão da verdade cristã.
Com a legalização do cristianismo, surgiu um problema vital. Sem o sofrimento da perseguição, os crentes começaram a se conformar a este mundo. Em sua liberdade e riqueza, começaram a esquecer a necessidade da pobreza e do sofrimento. Penetrou no pensamento cristão a ideia de que apenas pertencer à “religião organizada” da verdade os salvaria. A “igreja” passou a ser vista como uma instituição política mundana, e não como um meio para alcançar a perfeição no céu.
Mais uma vez, os amantes da Verdade entraram em uma fase de perseguição — mas desta vez uma perseguição autoimposta, que parecia loucura aos olhos do mundo. Homens e mulheres que buscavam na Verdade algo além de uma simples instituição mundana fugiram para os desertos e regiões selvagens. Assim como as paredes das catacumbas, as vastas extensões dos desertos egípcio, sírio e palestino os isolavam da influência do mundo.
Por meio do jejum, da castidade, da vigilância, do trabalho e da ascese, os antigos habitantes do deserto recriaram voluntariamente as perseguições das catacumbas. Tornaram-se mártires por toda a vida, buscando ser desajustados neste mundo. Assim começou a primeira rebelião contra os princípios deste mundo; e os primeiros rebeldes foram chamados monges.
Vendo a vaidade deste mundo moribundo e desejando escapar da tirania da moda, viviam em cavernas, sobre montanhas, em cabanas, em fendas de rochas, em total pobreza, sem qualquer preocupação com os prazeres da própria carne ou com a aparência exterior. Viviam apenas para morrer para este mundo, e para o mundo estavam como que mortos.
Evitavam as cidades como se fossem uma doença e comiam apenas uma vez por dia, ou até uma vez por semana, preferindo uma vida de fome a uma vida vazia de prazer autossatisfatório. Dormiam apenas algumas horas por noite, e não em camas, mas sentados em cadeiras. Desprezavam o sono, pois ele os afastava da união consciente com Deus. Lutavam contra a própria natureza corrompida, contra suas paixões e falhas, buscando apenas a perfeição.
No início, esses desajustados viviam sozinhos, desejando uma vida de recolhimento e silêncio. Mas outros, vendo seu justo abandono de um mundo autodestrutivo, também passaram a desejar esse modo de vida aparentemente insano. Grandes comunidades começaram a surgir, e o deserto tornou-se uma cidade cheia de centenas e milhares de homens e mulheres cujo único objetivo era viver e morrer pela verdade.
Assim, esses ascetas passaram a ser vistos como mártires por toda a vida, pois o mártir sofre por um tempo e depois morre, mas o monge sofre voluntariamente durante toda a vida, sendo crucificado diariamente para o mundo.
Esse modo de vida, chamado monasticismo, espalhou-se rapidamente por todo o mundo, preservando o mesmo espírito genuíno do cristianismo subterrâneo. Cidades e sociedades inteiras tiveram sua origem na pobreza simples desses monges. Primeiro, um monge se estabelecia sozinho no deserto ou em regiões desabitadas. Depois, pessoas se fixavam perto dele, e com o tempo surgiam vilas. Dessa forma, o monasticismo espalhou-se por Israel, Egito, Grécia, Bizâncio, Itália, Etiópia, Irlanda, Gália (França), Romênia, Sérvia, Rússia, América e por todo o mundo. Embora esse ideal tenha se difundido até os confins da terra, ele ainda permanece como o segredo mais bem guardado do mundo.
A coleção de biografias a seguir são relatos verdadeiros de santos ao longo dos séculos que deram suas vidas por amor à verdade. Aqui oferecemos apenas um pequeno vislumbre do vasto mundo dos santos que estabeleceram um exemplo de outro mundo da última verdadeira rebelião.

MONGE ANTÔNIO DO EGITO
Antônio era egípcio de nascimento, viveu no século IV e, tendo pais ricos, foi criado em meio à riqueza e ao luxo. Não desejando uma educação mundana, permaneceu simples e iletrado. Quando tinha dezoito anos, ambos os seus pais morreram e lhe deixaram toda a sua riqueza.
Certo dia, estando na igreja, foi lida durante o culto a seguinte passagem das Escrituras: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que possuis, dá aos pobres, e terás um tesouro no céu.” Ao ouvir isso, vendeu todos os seus bens e deu o dinheiro aos pobres, não guardando nada para si. Em seguida, fugiu para o deserto egípcio, próximo ao rio Nilo.
Vivendo sozinho, Antônio costumava visitar eremitas do deserto que levavam uma vida semelhante à sua, e toda virtude que via neles ele se esforçava por adquirir, até que, aprendendo sabiamente com os outros, superou a todos.
Enquanto vivia no silêncio do deserto, muitas tentações atacavam Antônio. Quando lhe vinham à mente lembranças de sua antiga riqueza, ele lutava para se libertar desses pensamentos e guerreava contra a própria queda, buscando a perfeição que tanto desejava.
Muitas vezes passava noites inteiras sem dormir, e alimentava-se apenas de pão seco, sal e água, e isso somente uma vez a cada poucos dias. Vendo que a fraqueza do corpo aumentava a intensidade da alma, seu zelo cresceu enormemente. Desejando isolar-se do mundo e das pessoas, Antônio mudou-se para túmulos onde os mortos eram enterrados, e poucos o visitavam.
Por ter alcançado um grau tão elevado de perfeição, já não era tentado pelas paixões da carne nem pelo mundo. Mas então veio outra tentação. Os anjos caídos — os demônios — apareciam-lhe e o atacavam, tentando expulsá-lo de seu isolamento e, assim, privá-lo da conversação diária com Deus na oração. Muitas vezes os demônios o agrediam fisicamente com tamanha violência que, depois, ele ficava como um cadáver vivo, incapaz de se mover em sua agonia. Acontecia de um amigo vir trazer-lhe pão e, encontrando-o nesse estado, levá-lo de volta à aldeia. Quando recobrava os sentidos, Antônio exigia ser levado novamente aos túmulos para continuar seus combates.
Após vários anos de lutas, Antônio decidiu deixar os túmulos e mudar-se para um lugar ainda mais isolado para sua busca da perfeição. Na região montanhosa onde se estabeleceu, pessoas que desejavam seguir seus passos descobriram onde ele estava e foram até ele. Quando ele não abria a porta, desejando apenas estar sozinho — sozinho com Deus —, eles a arrombaram; e ele saiu como alguém que havia dominado a si mesmo. Muitos, ao vê-lo ou ouvir suas instruções, desejaram deixar o mundo e tornar-se monges. E o deserto tornou-se uma cidade.
Eremitas reuniram-se em torno de Antônio formando uma comunidade. Por sua inspiração, o deserto encheu-se de pessoas que cantavam, estudavam, jejuavam, rezavam e ajudavam os pobres. Constantemente atentos à própria consciência e à consciência humana em geral, esses monges eram capazes de enxergar as profundezas do coração humano.
Antônio instruía a multidão de monges sobre a fragilidade deste mundo em comparação com a grandeza do mundo vindouro. Ensinava-lhes a essência da vida espiritual e o objetivo da vida aqui na terra com uma instrução simples, porém poderosa: “Vive como se não fosses deste mundo, e terás paz.” Revelava-lhes os muitos artifícios do diabo, e ninguém duvidava de seus ensinamentos, pois sua vida era uma prova viva de suas palavras. Ensinava-lhes também a não negligenciar completamente o corpo, pois, dando-lhe o que necessita e nada além disso, o corpo não pesará sobre a alma, mas ficará sob seu domínio.
Nessa época, cristãos estavam sendo massacrados no Egito. Desejando ardentemente ser morto pela fé, Antônio procurou a perseguição. Foi à cidade de Alexandria e ensinou abertamente de um lugar público, mas sua total destemor o preservou da morte. O próprio juiz temia sua presença no tribunal onde os cristãos eram condenados à morte. Quando o período de perseguição terminou, Antônio retornou ao seu isolamento nas montanhas.
Por causa de seu amor abnegado por Deus, Antônio recebeu o dom místico da previsão do futuro. Certa vez, dois irmãos viajavam para encontrar Antônio, mas no caminho ficaram sem água no meio do deserto. Um dos irmãos morreu, e o outro deitou-se à espera da morte. Então Antônio enviou dois monges com água ao irmão que ainda estava vivo, pois Deus lhe havia revelado a situação. Eles deram água ao irmão sobrevivente e enterraram o outro. Quando perguntaram por que ele não enviara os monges a tempo de salvar ambos, Antônio respondeu que assim era a vontade de Deus, pois lhe fora revelado somente depois que um já havia morrido.
Certa vez, Antônio recebeu um vislumbre do outro mundo e do que acontece com as almas quando deixam o corpo. Viu que, quando o corpo morre e a alma é libertada, ela é acompanhada tanto por anjos bons quanto por anjos maus (seres incorpóreos que não são humanos). Viu como tanto os bons quanto os maus desejavam a alma e como, por causa da vida que a pessoa levou neste mundo e das decisões que tomou enquanto ainda vivia, ela era levada pelos anjos maus. Depois dessa visão, Antônio não conseguiu dormir, mas passou o tempo gemendo e chorando em oração.
Embora nunca tivesse sido educado, Antônio era extremamente sábio. Certa vez, alguns filósofos foram até ele com a intenção de ridicularizá-lo por ser iletrado e não conhecer as letras. Antônio perguntou-lhes: “O que vem primeiro: a mente ou as letras? E o que é causa de quê: a mente das letras ou as letras da mente?” Quando eles responderam que a mente vinha primeiro e havia inventado as letras, Antônio disse: “Agora vedes que, na pessoa cuja mente é avançada, não há necessidade de letras.”
Em outra ocasião, alguns que se consideravam “sábios” entre os filósofos pagãos vieram a Antônio pedindo uma explicação da fé cristã, com a intenção de encontrar contradições para ridicularizá-lo e à sua fé. Compadecendo-se de sua ignorância, Antônio suspirou e então respondeu à pergunta deles:
O que é melhor: confessar uma cruz ou os vossos deuses do vício? O sinal de coragem e desprezo pela morte, ou filosofias de imundície? Ainda, o que é preferível: dizer que o Logos, a Palavra de Deus, não se transformou, mas permanecendo o mesmo assumiu um corpo humano para a salvação e o benefício da humanidade — para que, participando do nascimento humano, capacitasse a humanidade a participar da natureza divina e espiritual; ou tornar o divino semelhante aos seres irracionais e, com base nisso, adorar animais de quatro patas, répteis e imagens de homens? Pois estes são os objetos de adoração de vós, que sois “sábios”! Como ousais zombar de nós por dizermos que Cristo apareceu como homem, quando vós, separando a alma do céu, dizeis que ela vagou e caiu das abóbadas do céu para dentro do corpo? Sois enganados ao crer que a alma é incriada, ao dizer que a alma é imagem da mente. Ao pensardes tais coisas sobre a mente, percebei que também blasfemais contra o próprio Pai da mente.
E quanto à cruz, o que diríeis ser preferível: suportar a cruz e não se acovardar diante de nenhuma forma de morte, ou relatar mitos de deuses que devoram filhos e assassinam pais? Pois estas são as coisas que considerais sábias! E como é que, enquanto zombais da cruz, não vos maravilhais com a ressurreição? E ainda vos espantais que Cristo já não seja apenas homem, mas Deus?
Tais foram as palavras de Antônio, diante das quais os confusos “sábios” ficaram sem fala. Depois de abraçá-lo, partiram, transformados pela verdade de Cristo revelada em suas palavras. Quando chegou à velhice, Antônio percebeu que se aproximava da morte. Chamando os que estavam perto, disse: “Estou seguindo o caminho dos pais, pois vejo que estou sendo chamado pelo Senhor. Não estarei mais convosco.” Depois de dizer isso, eles o abraçaram; e assim ele morreu, com o rosto irradiando luz. Tal foi a vida do monge Antônio, o pai do monaquismo, o extremo amante da verdade.

EUDÓKIA
Eudókia nasceu na Samaria da Palestina, no século I. Em sua juventude era muito bela e, por causa de sua formosura, viveu uma vida de profunda imoralidade. Preocupava-se apenas com os prazeres desta vida e amava a impureza de uma vida sexual dissoluta.
Com o passar do tempo, muitos começaram a lhe oferecer grandes somas de dinheiro para satisfazerem suas obsessões luxuriosas, e ela se tornou a prostituta mais procurada daquela região.
Certa vez, um monge virtuoso chamado Germanos passava por sua cidade a caminho de uma terra distante. Ele passou a noite na casa de um amigo que morava exatamente ao lado da casa de Eudókia. O monge entoou suas orações no horário determinado e, ao terminar, retirou de sua sacola um rolo com os ensinamentos dos Santos Padres, os grandes mestres espirituais cristãos, e leu de seus escritos sobre o fim do mundo. Começou a ler em voz alta o rolo, para que seu amigo, que também desejava edificar sua alma, pudesse ouvir.
Naquela noite, a prostituta Eudókia ouviu o monge através de uma janela aberta e escutou as palavras sobre o fim do mundo. Elas a atingiram no mais profundo do seu ser, e lágrimas começaram a correr por seu rosto ao pensar em seu modo de vida doentio.
Cheia de pavor, Eudókia permaneceu acordada até o amanhecer, quando mandou chamar o monge Germanos. Quando ele chegou, Eudókia lhe pediu: “Por favor, diga-me o significado daquelas palavras que o senhor leu em voz alta ontem à noite. Eu lhe peço: diga-me a verdade.” Então Germanos lhe disse: “Se deseja ouvir minhas palavras, você será salva e glorificada por toda a eternidade. Herdará a vida imortal após a morte. Se quiser ser salva, deve fazer duas coisas. Primeiro, deve ser batizada, o que purifica todas as impurezas. Segundo, deve dar toda a sua riqueza aos pobres e necessitados.”
Ao ouvir as palavras do monge, Eudókia sentiu medo ao pensar em como sobreviveria sendo pobre e tendo de confiar somente em Deus. A isso ele respondeu: “Se você quer provar minhas palavras, retire suas roupas caras e, durante uma semana, use apenas roupas pobres e feias; tranque-se em sua casa e reze a Deus com jejum e lágrimas. Deus lhe revelará o que você deve fazer.”
Aconteceu como Germanos disse e, ao fim da semana, Eudókia recebeu o batismo e deu toda a sua riqueza e bens. Em seguida, foi para um mosteiro feminino e recebeu a tonsura como monja, iniciando uma longa vida de luta em obediência, paciência, vigilância, oração e jejum. Já não tinha nenhuma preocupação com a carne e a mortificava no frio, privando-se de sono e alimento, castigando a si mesma e ao seu corpo por sua vida passada de prazer sensual e impureza.
Após viver apenas alguns anos no mosteiro, Eudókia alcançou tal altura de pureza que se tornou um modelo para todos os monges e monjas que habitavam o deserto. Quando a abadessa e superiora do mosteiro morreu, todas as monjas escolheram unanimemente Eudókia para ocupar seu lugar como líder espiritual das irmãs.
Nesse tempo houve uma grande perseguição aos cristãos, e todos os fiéis que não sacrificavam aos ídolos e aos deuses eram torturados e mortos. Como era conhecido que Eudókia era cristã, ela foi feita prisioneira pelos soldados. Quando foi levada diante do governador, ele lhe perguntou sobre sua fé. Ela respondeu: “Sou cristã e serva do único Deus bom e compassivo. É Nele que creio de todo o coração, e nada pode me separar de Seu amor. Portanto, não perca seu tempo fazendo mais perguntas. Faça o que decidiu, para que eu seja libertada deste mundo presente.”
Quando o governador viu a determinação da santa, ordenou que ela fosse despida até a cintura e, então, dilacerada e espancada. Quando pararam, suas entranhas estavam expostas, mas ela ainda estava viva, suportando a violência com nobreza. Então o governador disse: “Lamente por sua beleza, ó mulher, e ofereça sacrifício aos deuses.” Eudókia respondeu com firmeza apenas: “Creia no Deus verdadeiro.”
A fúria do governador se desencadeou, e ele ordenou que ela fosse despida completamente e açoitada severamente. Ao ver sua disposição em enfrentar a morte e seu amor por Deus, a ira do governador transformou-se em tristeza pelo que havia feito, e ele a deixou ir, meio morta.
Com o passar do tempo, esse governador morreu, e outro homem assumiu o cargo. Ele era um homem severo e brutal, que também perseguia os cristãos. Ao ouvir falar da coragem de Eudókia, enviou soldados para cortar-lhe a cabeça. Assim, por sua morte, ela entrou na verdadeira vida, sendo uma amante da verdade invencível.

MONGE MOISÉS, O ETÍOPE
No século IV viveu um homem chamado Moisés. Moisés era de sangue africano, um etíope para ser mais preciso, grande em estatura e gigante em sabedoria.
Na juventude, Moisés foi um dos gângsteres mais temidos do norte da África. Ele era o líder de um bando de fora da lei e era conhecido por cortar a garganta das pessoas. O grupo de Moisés devastava as colinas e saqueava casas, tomando os bens e vendendo-os para sustentar o estilo de vida desregrado da gangue. Quando Moisés não estava roubando casas, bebia enormes quantidades de vinho e passava as noites com mulheres devassas. O relato a seguir descreve sua infâmia como líder de bando.
Ele tinha um inimigo e nutria rancor contra ele porque certa noite, quando queria roubar, o homem saiu com cães. Desejando matar o homem que vivia do outro lado do rio Nilo, Moisés colocou sua faca entre os dentes, pôs as roupas sobre a cabeça, saltou no rio e nadou para a outra margem. Enquanto atravessava o rio a nado, o homem conseguiu se esconder enterrando-se na areia. E, quando Moisés não encontrou seu inimigo, matou quatro de seus bons carneiros, amarrou-os juntos com uma corda e nadou de volta. E, chegando a um local de abate, esfolou-os, comeu as melhores partes da carne e vendeu as peles para comprar vinho. Em seguida, embriagou-se completamente antes de retornar ao seu bando.
Aconteceu que Moisés, o líder de bando, o “pior dos piores” do norte da África, abandonou seus caminhos perversos e decidiu viver o resto de sua vida reconciliando-se com Deus. Ele abandonou sua gangue e fugiu para o deserto do Egito, onde encontrou o santo Ancião, o monge Isidoro. Moisés implorou ao Ancião que lhe permitisse viver como monge na comunidade conhecida como “Scetis”.
No deserto, Moisés iniciou a batalha espiritual do coração que conduz a Cristo. Possuindo grande força física, levou uma vida rigorosa — jejuando por dias seguidos, mantendo vigílias durante toda a noite e forçando sua mente a pensamentos puros. Por ter passado sua vida anterior em indulgência sexual, foi atacado pela paixão da luxúria. Para combater os ataques da luxúria, Moisés aumentou seus trabalhos ascéticos a um nível quase desumano. Durante sete anos ele não dormiu, orando a noite inteira e descansando apenas uma hora durante o dia.
Moisés, que outrora fora um assassino cruel, começou a aprender o significado da compaixão. Seu amor pelas pessoas cresceu tanto que colocava os outros antes de si mesmo. Ele caminhava à noite pelo deserto até todas as moradas dos monges, recolhia seus odres de água e os levava à fonte próxima para enchê-los. Algumas das celas dos monges ficavam a até cinco milhas da fonte; mesmo as mais próximas ainda estavam a duas milhas de distância. Tudo isso Moisés fazia em segredo, para que suas obras não fossem conhecidas pelos homens, mas somente por Deus.
Apesar das grandes dores e trabalhos de Moisés, o demônio da luxúria não o deixava em paz. Então ele recorreu ao Ancião Isidoro em busca de conselho. O Ancião Isidoro respondeu: “Descansa, Moisés, e não te inquietes contra os demônios, nem procures atacá-los, pois há moderação em tudo, até mesmo nos trabalhos ascéticos.” Sendo zeloso de espírito, Moisés falou: “Mas eu creio em Deus, em quem pus minha esperança, que, estando armado, não devo cessar de travar guerra contra eles até que se afastem de mim.” Então o Ancião o abençoou: “Em nome de Jesus Cristo, a partir deste momento os demônios cessarão de te atormentar. Aproxima-te e participa da Santa Comunhão, e estarás livre de toda impureza, tanto da carne quanto do espírito. Isso aconteceu para que não te glories em ti mesmo por ter vencido o demônio da luxúria, mas antes dês graças a Deus, que te libertou.”
À medida que Moisés progredia na vida espiritual, muitos jovens que desejavam dedicar suas vidas a Deus reuniram-se ao seu redor. Muitos de seus antigos companheiros de gangue e outros fora da lei renunciaram a seus caminhos e seguiram Moisés, dizendo: “Se aquele que era o pior de todos temeu a Deus, não deveríamos nós também?”
Certa vez, um grupo de quatro ladrões atacou a morada de Moisés, esperando encontrar algo de valor. Mas, com sua grande força, ele os amarrou com cordas e os carregou até a igreja. Outrora Moisés fora um ladrão que roubava ovelhas. Agora ele se tornara um pastor, chamando de volta as ovelhas perdidas.
Moisés, o Etíope, foi considerado digno do sacerdócio e abundou em dons concedidos por Deus. Nenhum temor podia ser encontrado em sua alma corajosa, pois o amor lança fora o medo. Moisés foi verdadeiramente um grande Ancião do renomado deserto de Scetis e possuía verdadeira sabedoria espiritual. Pouco antes de sua partida da terra, advertiu seus discípulos: “Em breve um bando de assassinos virá e tirará minha vida, para que se cumpra a verdade de que aquele que vive pela espada morrerá pela espada.” Então um grupo veio e matou o Ancião Moisés e quase todos os seus discípulos. Um discípulo escondeu-se entre as árvores e viu as almas de Moisés e de seus discípulos serem libertas de seus corpos e alcançarem a vida eterna.
St. Herman of Alaska Brotherhood
Tradução do Diácono André Souza






