Assim, purifiquemo-nos de toda mancha da carne e do espírito[37], a fim de santificar o Nome de Deus extinguindo a concupiscência indecentemente varrida pelas paixões. E afoguemos sob a razão o ardor levado à fúria pela desordem dos prazeres, a fim de acolher o Reino de Deus Pai, que vem pela mansidão, e de acrescentar às primeiras palavras as palavras seguintes da oração, dizendo:
“Seja feita a Tua vontade assim na terra como no céu.[38]”
Aquele que, unicamente pela potência da razão desembaraçada da concupiscência e do ardor, oferece misticamente a Deus o culto de adoração, cumpre a vontade divina sobre a terra, do mesmo modo como as ordens dos anjos nos céus. Ele adora e vive constantemente com os anjos, como diz o grande Apóstolo: “Nossa cidadania está nos céus[39]”, onde não existe concupiscência para relaxar pelos prazeres as tensões do intelecto, nem ardor raivoso para rosnar de inveja contra o semelhante. Nos céus não há outra coisa além da pura razão, que conduz naturalmente os seres racionais à razão primeira. É somente nela que Deus Se regozija, e é somente ela que Ele nos pede, a nós Seus servidores. É o que Ele quis dizer quando fez o grande David falar: “O que existe para mim no céu, e que poderei eu querer de outro sobre a terra?[40]” Ora, nada há nos céus que seja oferecido a Deus pelos anjos senão a adoração da razão, esta adoração que Ele nos pede ensinando-nos a dizer quando rezamos: “Seja feita a Tua vontade assim na terra como no céu”.
Que nossa razão se coloque, assim, à procura de Deus, que a potência da concupiscência se esforce por desejá-Lo, e que o ardor se esforce por guardá-Lo, ou, para falar mais precisamente, que todo o intelecto se volte para Deus, tensionado pelo ardor como uma corda, e queimando de desejo pelo apelo extremo da concupiscência. Pois, imitando desta maneira os anjos do céu, adoraremos a Deus continuamente mostraremos possuir sobre a terra a mesma cidadania que eles, e como eles não teremos o intelecto voltado para nada além daquilo que nos aproxima de Deus. Pois, assumindo esta cidadania conforme nossos votos receberemos como um pão épiousios e vivificante para nutrir nossas almas e conservar em bom estado os bens que nos foram dados, o Verbo que disse: “Eu sou o pão que desceu dos céus e que dá vida ao mundo[41]”. Assim, Ele Se torna tudo para nós na medida em que somos alimentados de virtude e sabedoria, e, de maneira inversa, como Ele o sabe, Ele toma um corpo em cada um dos que foram salvos, mesmo que ainda estejam neste século, segundo o poder do texto da oração, que diz:
“O pão épiousios nos dá hoje.[42]”
Eu penso, com efeito, que “hoje” significa “este século”. Assim, para interpretarmos com a maior clareza possível esta passagem da oração, diríamos: nosso pão, que Tu preparaste no começo para a imortalidade da natureza[43], nos dê hoje, a nós que estamos na vida presente destinados à imortalidade, para que a morte do pecado seja vencida pelo alimento do Pão da Vida e do conhecimento, que a transgressão do mandamento divino impediu ao primeiro homem de tomar parte[44]. Pois se ele tivesse se saciado com este alimento divino, ele não teria sido presa da morte pelo pecado.
De resto, aquele que ora para receber este pão épiousios jamais o acolhe inteiramente tal como ele é, mas cada qual o acolhe na medida de sua capacidade em recebê-lo. Pois o Pão da Vida, em Seu amor pelo homem, é dado a todos os que o pedem, mas não da mesma maneira a todos. Aos que fizeram grandes obras é dado mais; aos que fizeram obras menores é dado menos. Ele é dado, portanto, a cada um conforme o possa acolher a dignidade de seu intelecto. Ora, o Salvador revelou-me o sentido dessas palavras quando prescreveu explicitamente aos Seus discípulos que não se preocupassem com o alimento sensível, quando disse: “Não se aflijam em suas almas sobre o que irão comer ou o que irão beber, nem em seus corpos com o que irão vestir. Todas estas coisas, as nações do mundo as buscam. Mas procurem antes o Reino de Deus e sua justiça, e todas essas coisas lhes serão dadas em acréscimo[45]”. Assim, como poderia Ele ensinar a rezar por coisas que antes ele ordenava não buscar? É claro que ele não prescreveu pedir, na oração, aquilo que, pelo mandamento, Ele exortou a não procurar. Pois não se pode pedir na oração senão aquilo que se deve buscar pelo mandamento. Aquilo que não nos foi ordenado pelo mandamento tampouco nos é permitido solicitar pela prece. Se o Salvador ordenou que buscássemos apenas o Reino de Deus e Sua justiça, é razoável que seja também este Reino que Ele incentivou aos que desejam os dons divinos a pedir na oração, a fim de que, depois de haver confirmado a graça daquilo que é naturalmente solicitado pela oração, ele pudesse ligar, à vontade d’Aquele que concede a graça, a resolução dos que demandam, tornando esta resolução idêntica à vontade de Deus pela união que as liga.
Se nos foi ordenado pedir também pela oração o pão de cada dia por meio do qual nossa vida presente é conservada naturalmente, não ultrapassemos os limites da oração atribuindo-nos cupidamente longos períodos de anos. Não nos esqueçamos de que somos mortais e que nossa vida passa como uma sombra. Peçamos pela prece, sem nenhuma preocupação, o pão para um dia, e mostremos que, segundo a filosofia de Cristo, passamos a vida a nos preparar para a morte, protegendo a alma dos cuidados com as coisas do corpo, a fim de que ela não seja acorrentada ao corruptível desviando para a matéria a finalidade do desejo natural e não aprenda a cupidez, que priva da abundância dos bens divinos.
Fujamos portanto, na medida de nossas possibilidades, do amor à matéria, e livremos os olhos de nosso intelecto, como de uma poeira, daquilo que liga a ela. Contentemo-nos com as simples coisas que nos permitem subsistir, evitando aquelas que dão prazer à nossa vida presente. E peçamos a Deus, ademais, como nos foi ensinado, poder manter a alma livre de qualquer servidão, nunca submetida a nenhuma coisa visível por causa do corpo. Mostremos que comemos para viver, e não sejamos acusados de que vivemos para comer. Pois a primeira é nitidamente própria de uma natureza dotada de razão, enquanto a outra é própria de uma natureza desprovida de razão.
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[37] Cf. II Coríntios VII, 1.
[38] Mateus VI, 10.
[39] Filipenses III, 20.
[40] Salmo LXXIII, 25
[41] João VI, 33.
[42] Mateus VI, 11.
[43] Cf. Gênesis II, 9.
[44] Cf. Gênesis III, 19.
[45] Mateus VI, 25. 31-33.
São Máximo, o Confessor
tradução de Tito Kehl







