Guardemos rigorosamente a oração, mostrando por nossos próprios atos que estamos firmemente ligados apenas e tão somente à vida no Espírito, e que é visivelmente para possuirmos esta vida no Espírito que usamos nossa vida presente. É ainda por causa desta vida no Espírito que nos contentamos de usar assim nossa vida presente, na medida em que não nos é recusado confortá-la apenas pelo pão e de manter intacto seu bom estado natural, na medida em que nos é permitido, não a fim de viver, mas a fim de viver para Deus[46], fazendo do corpo submetido à razão pelas virtudes um anjo da alma, e fazendo da alma levada pela firmeza do bem um mensageiro de Deus, enfim, limitando este pão a um dia apenas, sem ousar estender a demanda a um segundo dia, por causa d’Aquele que nos deu a oração. Assim agindo conforme a potência da prece, possamos, com efeito, avançar com toda pureza para as palavras seguintes, e dizer:
“Perdoa as nossas dívidas assim como perdoamos
os nossos devedores.[47]”
Aquele que, conforme a primeira extensão da contemplação das palavras precedentes, busca na oração, neste século cujo símbolo dissemos ser o “hoje”, o pão incorruptível da sabedoria de que fomos privados inicialmente pela transgressão, este, sabendo que o único prazer consiste em alcançar as coisas divinas, cujo acesso é dado naturalmente por Deus e cuja guarda cabe à resolução voluntária de quem as recebe, e sabendo também que a única dor é a falta destas coisas divinas cuja perda é inspirada pelo diabo (mas cumprida por quem abandona o divino pelo relaxamento da vontade sem proteger com seu amor aquilo que deveria ser honrado por uma disposição desta vontade), este, cuja resolução não se inclina para nada de visível e que, por causa disso, não está submetido às coisas penosas que acontecem a seu corpo, este verdadeiramente perdoa aqueles que pecam contra ele. Pois absolutamente ninguém pode lançar mão sobre o bem a que ele se dedica com todo seu desejo, este bem que acreditamos ser por natureza inalcançável. E ele próprio se torna para Deus um exemplo de virtude, se podemos dizê-lo, convidando o Inimitável a imitá-lo quando diz: “Perdoa-nos as nossas dívidas assim como nós perdoamos nossos devedores”. Ele pede a Deus que faça por ele o mesmo que ele faz por seu próximo. Como ele perdoa as dívidas àqueles que pecaram contra ele, ele pede que suas próprias dívidas lhe sejam perdoadas por Deus. Vale dizer que, como Deus em Sua impassibilidade perdoa aos que perdoam, também ele, permanecendo impassível naquilo que lhe acontece, perdoa aos que o ofenderam, não permitindo a nenhuma lembrança daquilo de penoso que lhe aconteceu se imprima em seu intelecto, a fim de não ser acusado de romper a natureza por sua vontade, afastando-se de outro homem, ele que também é homem. De fato, uma vez que a vontade está assim unida à razão da natureza, a reconciliação de Deus com a natureza se faz naturalmente. De outra maneira não é possível natureza revoltada contra si mesma pela razão acolha a inexprimível compaixão divina. É sem dúvida por isso que Deus quer que nos reconciliemos primeiro uns com os outros, não para aprender conosco a se reconciliar com os pecadores e a consentir na quitação de suas numerosas e terríveis faltas, mas a fim de nos purificar das paixões e mostrar que a disposição dos que são perdoados corresponde à relação da graça. Ora, ele quis dizer claramente que, se a vontade estiver unida à razão da natureza, a escolha dos que cumprirem com sucesso esta união não estará em dissensão com Deus, uma vez que ele não deseja nada de irrazoável na razão da natureza, que é também a lei natural e divina, quando o movimento da vontade se faz segundo esta razão. E se não há nada de irrazoável na razão da natureza, é verossímil que a vontade movida por esta razão terá sua atividade continuamente votada a Deus, qual uma disposição efetiva suscitada pela graça d’Aquele que é bom por natureza, para engendrar a virtude.
É neste estado que encontra, ao rezar, aquele que pede o pão do conhecimento. E depois dele, o que pede o pão de cada dia, apesar da natureza, achar-se-á no mesmo estado: tendo perdoado as dívidas aos que lhe deviam, por saber-se mortal por natureza, e aguardando na incerteza a cada dia aquilo que lhe permitirá viver naturalmente, ele ultrapassa a natureza com sua vontade e, por si mesmo, morre para o mundo, conforme as palavras: “Por sua causa somos levados à morte todos os dias, somos considerados como cordeiros destinados à imolação[48]”. É por isso que ele se reparte em libação para todos[49], a fim de não levar consigo nenhuma marca da miséria do século presente quando de sua passagem para a vida que não envelhece, e receber do Juiz do universo a recompensa se suas obras anteriores aqui em baixo. Uma disposição pura voltada para aqueles que os afligiram é necessária tanto a um como ao outro para o benefício de ambos, por causa de tudo o que foi dito, mas sobretudo por causa do poder das palavras que restam e que dizem o seguinte:
“Não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal[50]”
Pois a Escritura nos mostra com estas palavras que aquele que não perdoou perfeitamente aos que o ofenderam e que não ofereceu a Deus seu coração puro de toda tristeza, iluminado pela luz da reconciliação com o próximo, perderá a graça dos bens pelos quais orou e, por um justo julgamento, será abandonado à tentação do maligno, a fim de aprender a se purificar de suas faltas deixando de condenar os outros. A tentação significa aqui a lei do pecado, que o primeiro homem não carregava quando foi criado. O mal significa o diabo, que misturou esta lei à natureza humana e que persuadiu o homem a transportar o desejo de sua alma daquilo que lhe era permitido para o que era proibido e de se voltar para a transgressão do mandamento divino, que lhe fez perder a incorruptibilidade que a graça lhe havia concedido.
Também podemos denominar “tentação” a tendência voluntária da alma para as paixões da carne. E podemos chamar de “mal” o cumprimento ativo da tendência passional. E o Juiz não libera de nenhum dos dois – nem da tentação, nem do mal – quem não perdoou as dívidas aos seus devedores, ainda que este lhe peça na oração, mas, ao contrário, ele permite que este homem seja manchado pela lei do pecado, e abandona ao domínio do mal aquele cuja vontade é dura e cortante, pois ele preferiu as paixões da infâmia semeadas pelo diabo à natureza criada por Deus. Deus não o impede de tender voluntariamente para as paixões da carne e não o livra do cumprimento ativo de sua tendência passional pois, ao considerar menos a natureza do que as paixões inconsistentes, ele, em seu ardor pelas paixões, ignora a razão da natureza. Sob a autoridade desta razão Ele o fará conhecer qual é a lei da natureza e qual a das paixões, cuja tirania é suscitada em nós por uma escolha da vontade, mas não pela natureza. Ser-lhe-á necessário ainda preservar a lei da natureza pelas atividades naturais, afastar da vontade o ardor pelas paixões, salvaguardar pela razão a natureza que por si só é pura e irrepreensível, fazer com que por sua vez a vontade se torne irrepreensível, sem ódio e sem dissensão, e que acompanhe a natureza não se aplicando a nada que não seja suscitado pela razão da natureza, com isto rejeitando todo ódio e toda dissensão em relação a quem lhe é semelhante por natureza, a fim de que, ao dizer esta oração ele seja atendido e receba de Deus uma dupla graça ao invés de uma simples, a saber o perdão das faltas passadas e a proteção e redenção das faltas futuras: Deus não permitirá que ele caia em tentação e não deixará o maligno subjugá-lo, pelo simples fato de haver perdoado diligentemente as dívidas ao seu próximo.
Portanto, também nós, para retrocedermos um pouco retomando sucintamente o significado do que foi dito, se quisermos nos livrar do mal e não cair em tentação, acreditemos em Deus e perdoemos as dívidas a quem nos deve. Com efeito, foi dito: “Se vocês não perdoarem aos homens seus pecados, tampouco o Pai celeste lhes perdoará os seus[51]”. Assim, não apenas receberemos o perdão das faltas que cometemos, como também venceremos a lei do pecado, se não formos levados a experimentá-la. E pisotearemos a serpente maligna, que engendrou esta lei e da qual pedimos ser libertados. Pois Cristo, que venceu o mundo[52], nos leva ao combate. Ele nos dá como armas as leis dos mandamentos e, fazendo-nos rejeitar as paixões por intermédio destas leis, ele religa pelo amor a natureza a ela mesma, ele conduz nosso desejo insaciavelmente para Si Próprio que é o pão da vida, de sabedoria, de conhecimento e de justiça, e, pelo cumprimento da vontade paterna, Ele faz de nós adoradores semelhantes aos anjos, a partir do momento em que refletiremos, imitando-O em nossa conduta de vida, a beatitude celeste. Enfim, daí Ele nos elevará para o Pai das luzes[53], na suprema ascensão do divino, e nos fará comungar da natureza divina[54] concedendo-nos parte na graça do Espírito, pela qual seremos consagrados filho de Deus revestindo inteiramente, sem limite nem mancha, Aquele que por Si só opera esta graça e que é por natureza o Filho do Pai, de quem, por quem e em quem temos e teremos o ser, o movimento e a vida[55].
Que a finalidade da prece seja para nós o olhar voltado para este mistério da deificação, a fim de que saibamos em lugar de quê a kénose do Filho único na carne nos tornou aquilo que somos e de onde, e onde, pelo poder de Sua mão que ama o homem, Ele fez subir aqueles que haviam tocado o fundo do universo, sobre o qual fôramos precipitados pelo peso do pecado, para que assim possamos amar daqui em diante Aquele que, com tanta sabedoria, nos preparou tal salvação. Com aquilo que fazemos, mostremos que a oração está cumprida e manifestemos, proclamando-o, que Deus é verdadeiramente Pai pela graça. E mostremos claramente que não temos o maligno como pai de nossas vidas, o qual, por meio das paixões da infâmia, tenta sempre dominar tiranicamente a natureza, e não tomemos contra nossa vontade a morte em lugar da vida, uma vez que cada um dos adversários divide naturalmente com os que vão contra eles. Um concede a vida eterna aos que O amam; outro, sugerindo que cedamos voluntariamente às tentações, suscita a morte naqueles que dele se aproximam.
Pois, conforme as Escrituras, existem dois modos de tentação. Um leva ao prazer, outro à dor; um é deliberado, outro involuntário. Um engendra o pecado e nos foi ordenado pelo ensinamento do Senhor rezar para evitá-lo, ao dizer: “Não nos deixes cair em tentação[56]”, e: “Vigiem e rezem, a fim de não cair em tentação[57]”. O outro protege do pecado, invertendo por acréscimos involuntários de penas nossa tendência a desejá-lo. Se o suportarmos com paciência, e sobretudo se não nos ligarmos a ele pelas cadeias da malícia, ouviremos o apóstolo Tiago dizer precisamente: “Considerem como uma alegria total, irmãos, cair diante de todas as sortes de tentações, pois a prova de sua fé suscitará a paciência, e a paciência suscitará a experiência. Quer a experiência traga consigo uma obra perfeita[58]”. O maligno, em suas enganações, dedica-se aos dois tipos de tentação ao mesmo tempo, à voluntária e à involuntária. Semeando e excitando a alma por meio dos prazeres do corpo, ele trama a primeira para afastar nosso desejo do amor divino. E, querendo alterar a natureza por meio da dor, ele solicita falaciosamente a segunda, a fim de abrigar a alma abatida, enfraquecida pelas penas, a emitir pensamentos que irão separá-la do Criador.
Mas nós, uma vez que descobrimos os desígnios do maligno, afastemo-nos da tentação voluntária, a fim de não separarmos nosso desejo do amor divino, e suportemos nobremente, com paciência, a tentação involuntária que nos acontece com a permissão de Deus a fim de tornar manifesto que preferimos à natureza o Criador da natureza. E possamos todos, que invocamos o Nome de nosso Senhor Jesus Cristo[59], sermos separados dos prazeres presentes do maligno e libertados das dores por vir, pela participação na hipóstase real dos bens futuros[60], que veremos no próprio Cristo nosso Senhor, que, com o Pai e o Espírito Santo é glorificado por toda a criação. Amém.
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[46] Cf. Gálatas II, 19.
[47] Mateus VI, 12.
[48] Salmo XLIV, 23, citado em Romanos VIII, 36.
[49] Cf. Filipenses II, 17.
[50] Mateus VI, 13.
[51] Mateus VI, 15.
[52] Cf. João XVI, 33.
[53] Cf. Tiago I, 17.
[54] Cf. II Pedro I, 4.
[55] Cf. Atos XVII, 28.
[56] Mateus VI, 13.
[57] Mateus XXVI, 11.
[58] Tiago I, 2-3; Romanos V, 4.
[59] Cf. Atos II, 21.
[60] Cf. Hebreus XI, 1.
São Máximo, o Confessor
tradução de Tito Kehl






