A Cruz
Após uma vida de sofrimento em favor da revelação da verdade, Cristo sofreu até a morte para o cumprimento último da verdade.
Por causa dos milagres que Cristo realizou e do poder de Suas palavras, os “justos”, cheios de inveja, procuraram matá-lo. Inventaram uma acusação e incitaram o povo contra Ele de tal forma que sua intenção perversa tornou-se evidente. Cristo foi então traído por um de Seus próprios discípulos com um beijo e entregue às “autoridades”.
Sob César, o imperador de “toda a civilização”, estava o governador de Israel chamado Pôncio Pilatos. Pilatos entrou no pretório, mandou chamar Jesus e lhe perguntou: “A tua própria nação e os sumos sacerdotes te entregaram a mim. Que fizeste?” Jesus respondeu:
“O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus servos lutariam para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui.”
Pilatos perguntou-lhe: “Então tu és rei?” Jesus respondeu:
“Tu dizes que sou rei. Para isso nasci e para isso vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz.”
Pilatos então lhe disse: “O que é a verdade?” E, em seguida, Pilatos mandou açoitá-lo. Os soldados o despiram, colocaram-lhe um manto púrpura, fizeram uma coroa de espinhos, puseram-na sobre a sua cabeça, cuspiram nele e diziam: “Salve, Rei dos judeus!”, e batiam nele com as mãos.
Então Jesus saiu, trazendo a coroa de espinhos e o manto púrpura. Pilatos disse-lhes: “Eis o homem!” Quando os sumos sacerdotes e o povo o viram, gritaram: “Crucifica-o! Crucifica-o!” Pilatos lhes disse: “Tomai-o vós e crucificai-o, pois não encontro nele culpa alguma.” Os judeus lhe responderam: “Nós temos uma lei, e segundo essa lei ele deve morrer, porque se fez Filho de Deus.”
Quando Pilatos ouviu isso, ficou ainda mais amedrontado. Entrou novamente no pretório e perguntou a Jesus: “De onde és tu?” Mas Jesus não lhe deu resposta. Pilatos então lhe disse: “Não me falas? Não sabes que tenho autoridade para te soltar e autoridade para te crucificar?” Jesus respondeu:
“Não terias autoridade alguma sobre mim, se não te fosse dada do alto.”
Desde então Pilatos procurava soltá-lo, mas os judeus gritavam: “Se soltas este homem, não és amigo de César. Todo aquele que se faz rei se opõe a César.” Ao ouvir isso, Pilatos trouxe Jesus para fora, sentou-se no tribunal e disse aos judeus: “Eis o vosso Rei!” Eles gritaram: “Fora com ele! Fora com ele! Crucifica-o!” Pilatos perguntou: “Hei de crucificar o vosso Rei?” Os sumos sacerdotes responderam: “Não temos rei senão César.” Então ele o entregou para ser crucificado.
Eles tomaram Jesus; e Ele, carregando a cruz, saiu para o lugar chamado Lugar da Caveira, que em hebraico se chama Gólgota. Ali o crucificaram, e com Ele dois ladrões, um de cada lado, e Jesus no meio. Um dos ladrões o insultava, dizendo: “Se tu és o Cristo, salva-te a ti mesmo e a nós.” Mas o outro ladrão o repreendeu, dizendo: “Nem sequer temes a Deus, estando sob a mesma condenação?” E disse a Jesus: “Lembra-te de mim, Senhor, quando entrares no teu Reino.” E Jesus lhe disse: “Hoje você estará comigo no paraíso”.
Ressurreição
Justo quando o mundo pensava que Deus estava morto e sangrando até a morte sob nossa faca… Ele ressuscitou dos mortos.
O ensinamento da crucificação sempre caminha lado a lado com a ressurreição. Assim como todos os caminhos conduzem a um destino, a cruz é o caminho para a ressurreição, o destino último da humanidade. Depois que Cristo foi crucificado diante de multidões, seu corpo foi retirado e colocado em um túmulo. Como Cristo havia dito abertamente que ressuscitaria dos mortos ao terceiro dia, soldados da guarda do templo foram designados para vigiar o túmulo, para que seus discípulos não roubassem o corpo e afirmassem que Ele havia ressuscitado.
No terceiro dia, as mulheres discípulas de Cristo foram ao túmulo para ungir o seu corpo e encontraram os soldados caídos “como mortos”, atônitos pelo terror de uma manifestação de outro mundo. Para surpresa delas e espanto do mundo, Cristo havia ressuscitado dos mortos.
Cristo apareceu em pessoa, primeiro às mulheres discípulas e depois aos Apóstolos. Ao ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, como havia predito, Jesus mostrou que Ele é, em verdade, o Cristo, Deus encarnado. O Cristo ressuscitado disse: “Toda autoridade me foi dada no céu e na terra.”
Mas se Cristo esteve no túmulo por três dias, onde estava o seu espírito? Ele estava no inferno. Ele despedaçou as portas do inferno e, como Deus, libertou as almas que ali estavam aprisionadas. Pois, até a encarnação e a morte de Deus, o céu estava fechado.
Por sua ressurreição, Cristo revela à humanidade a vida eterna que está em Deus: “Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em condenação, mas passou da morte para a vida.” Como Salvador da humanidade, Jesus Cristo responde ao medo mais profundo do homem na vida: a morte. Jesus Cristo ressuscitou dos mortos não apenas em espírito, mas em seu corpo físico, assim como também ressuscitará os nossos corpos físicos.
Depois da ressurreição dentre os mortos, Cristo apareceu aos seus discípulos. O próprio Jesus pôs-se no meio deles e disse: “A paz esteja convosco.” Eles ficaram assustados e cheios de medo, pensando que viam um espírito. Ele lhes disse:
“Por que estais perturbados, e por que surgem dúvidas em vossos corações? Vede minhas mãos e meus pés; sou eu mesmo. Tocai-me e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho.” E, dizendo isso, mostrou-lhes as mãos e os pés. Então lhes disse: “São estas as palavras que vos falei quando ainda estava convosco: que tudo o que está escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos devia cumprir-se.”
Então abriu-lhes a mente para compreenderem as Escrituras e lhes disse:
“Assim está escrito: que o Messias havia de sofrer e ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, e que em seu nome se proclamasse o arrependimento para perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sois testemunhas dessas coisas. E eis que envio sobre vós a promessa de meu Pai; permanecei, pois, na cidade, até que sejais revestidos do poder do alto.”
Então, erguendo as mãos, os abençoou. E, enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi elevado ao céu, e eles o adoraram.
A Trindade
Embora a essência de Deus esteja além da compreensão humana, algumas de Suas propriedades foram reveladas à humanidade. Sobre o paradoxo da compreensão humana de Deus, um sábio monge do Oriente chamado João Damasceno explicou certa vez:
“Agora, quem quer que fale ou ouça acerca de Deus deve saber, sem qualquer dúvida, que no que diz respeito à teologia (o estudo de Deus) e à Encarnação de Jesus Cristo, nem tudo é inexprimível nem tudo é passível de expressão; nem tudo é incognoscível nem tudo é cognoscível. Uma coisa é aquilo que pode ser conhecido, outra é aquilo que pode ser dito, assim como uma coisa é falar e outra é conhecer. Além disso, muitas das coisas acerca de Deus que não são claramente percebidas não podem ser adequadamente descritas, de modo que somos obrigados a expressar em termos humanos aquilo que transcende a ordem humana.”
Somente em um espírito de reverência, como o que este santo monge possui, alguém pode começar a compreender Deus. Deus não pode ser colocado em uma caixa nem disposto em um laboratório para ser dissecado. Se alguém tenta essa abordagem mesquinha, não é Deus que ele disseca, mas as próprias ilusões.
Ao descrever Deus, o monge João começa com Sua infinitude: “Nós sabemos e confessamos que Deus é sem princípio e sem fim, eterno e perpétuo, incriado, imutável… invisível, insondável, bom, justo, o Criador de todas as coisas criadas.”
A partir daí, a explicação de João torna-se mais específica: “Sabemos e confessamos ainda que Deus é um, isto é, uma só substância, e que Ele é compreendido como sendo e é em três Pessoas — quero dizer, o Pai, o Filho e o Espírito Santo.”
Essa concepção de Deus como Trindade unida em Um, sem divisão, é o ponto em que o entendimento humano e a linguagem encontram o seu limite. A verdade da Trindade foi revelada pelo mandamento de Cristo aos Apóstolos após a ressurreição: “Ide e ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.”
Para aproximar o mistério da Santíssima Trindade de nossos conceitos terrenos, e tornar o incompreensível um pouco mais próximo do nosso entendimento, os santos Padres da antiguidade usaram comparações da natureza: três velas que produzem uma única luz inseparável; o sol como o Pai, os raios do sol como o Filho e a luz do sol como o Espírito Santo; uma nascente (o Pai), uma fonte (o Filho) e um rio (o Espírito Santo) formando um único curso de água; um trevo composto de três folhas unidas em uma só.
Ainda assim, essas são apenas concepções terrenas de realidades celestes. O sábio Gregório, o Teólogo, conclui:
“Examinei este assunto com muito cuidado em minha própria mente e o observei de todos os pontos de vista, para encontrar alguma semelhança deste mistério, mas não consegui descobrir nada na terra com o que se possa comparar a natureza da Divindade.”
Embora a essência de Deus seja, em última instância, inalcançável ao pensamento humano, a existência de Deus é real e ativa em cada momento da vida. Nada foi criado que não tenha sido criado por Deus. Ele está presente em toda parte. Deus Pai é a Fonte sempre fluente, o fundamento e Pai de todo ser, o Pai das misericórdias que ama e cuida de nós, Sua criação — pois somos Seus filhos pela graça.
Conosco está Deus Filho, gerado pelo Pai antes de todos os séculos, Luz verdadeira da Luz verdadeira, Poder e Sabedoria vivos, o Verbo subsistente, a imagem e ícone perfeitos e vivos do Deus invisível, que Se tornou visível.
Em nós e em toda a criação, pelo poder e graça de Deus, está o Espírito Santo, que tudo enche, Doador e Criador da vida, Consolador, Tesouro e Fonte de todos os bens.
Acima de nós, conosco e em nós está o Pai, o Filho e o Espírito Santo; Trindade na Unidade; Um só Deus. Selá.
Cristianismo Ortodoxo Oriental
Na revelação da verdade, Deus não deixou a humanidade sem um caminho para viver e morrer por essa verdade. Foi-nos dado o grande e sobrenatural ideal do Cristianismo. O Cristianismo é o vínculo entre Deus e o homem na crença e na fé.
Essa crença e essa fé são um poder contra o qual o inferno não pode prevalecer. É a assembleia daqueles que desejam a verdade, que desejam Deus em Sua plenitude. Essa unidade e reunião dos fiéis é a assembleia que Cristo veio reunir, pois a palavra assembleia se traduz como igreja.
Para começar a compreender algo tão místico quanto a Igreja que Deus concedeu à humanidade para seu progresso espiritual, devemos abandonar completamente quaisquer ideias preconcebidas do que a palavra “igreja” significa no uso moderno. Pois, nesta era de divisão e destruição religiosa, recebemos uma imagem fragmentada do que é a Igreja.
A Igreja de Cristo não é uma instituição terrena. Ela é o corpo de pessoas que confessam e adoram a Verdade de Deus. Essa Igreja, como entendida desde o seu início, tem duas partes inseparáveis: a Igreja neste mundo e a Igreja no outro mundo — no céu. Não há divisão entre seus reinos terreno e celestial. É dessa ligação com o reino celeste que a Igreja terrena recebe a graça, e por meio da qual o contato direto com o céu e com Deus é possível.
A Igreja neste mundo é a assembleia dos fiéis que co-lutam e co-sofrem pela causa. A Igreja do outro mundo é a assembleia no céu daqueles que concluíram sua carreira e alcançaram a causa. Ambas atuam juntas, produzindo uma sobreposição deste mundo com o outro mundo.
Após a ressurreição, Cristo disse aos Apóstolos: “Ide e ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.”
De Jerusalém, os Apóstolos e discípulos de Cristo viajaram para diversas terras, pregando a verdade de Cristo: os Apóstolos Pedro e Paulo foram para a Grécia e Roma; Marcos foi para a Etiópia; Tomé foi para a Índia; André foi para a Rússia e a Romênia; Aristóbulo foi para a Inglaterra. Sendo de um só pensamento e de uma só alma, ensinaram uma só fé e uma só verdade.
Assim, a “Igreja de Cristo” foi formada nos tempos apostólicos. Talvez o maior segredo do mundo seja o fato de que essa Igreja original, conhecida como Igreja Ortodoxa, ainda existe hoje, preservando seu espírito original, antigo, apostólico e sobrenatural. Mesmo nestes últimos tempos, a Igreja Ortodoxa mantém os ritos e as doutrinas da Igreja original desde o seu início.
A razão pela qual a Igreja Ortodoxa de Cristo sobreviveu por quase 2.000 anos até os dias de hoje, e continuará até o fim dos tempos, é que a Verdade de Deus está além do espaço e do tempo.
O propósito da Igreja é unir a alma individual e a humanidade a Deus em um vínculo que atravessa a morte corporal e continua espiritualmente por toda a eternidade: a revelação da vida eterna, as provas firmes, a demonstração, o fenômeno real da fé cristã — não apenas as paredes e o piso, a decoração e todos os móveis, o teto e as cúpulas da fé cristã. Um raio do mundo espiritual brilha através de cada palavra das Sagradas Escrituras e tem brilhado ao longo dos dois mil anos de história da Igreja. O cristianismo abriu amplamente o portão do outro mundo, de tal forma que seria quase errado chamá-lo de “religião”, pois isso poderia levar ao erro de confundi-lo com instituições criadas pelo homem. Ele é Revelação, a Revelação de Deus, para aqueles que amam a verdade.
St. Herman of Alaska Brotherhood
Tradução do Diácono André Souza






