JESUS CRISTO, O ‘NOVO ADÃO’
O primeiro Adão criado foi incapaz de cumprir a vocação que lhe fora proposta: alcançar a deificação e trazer a Deus o mundo visível por meio da perfeição espiritual e moral. Tendo rompido o mandamento e se afastado da doçura do Paraíso, o caminho para a deificação lhe foi fechado. No entanto, tudo o que o primeiro homem deixou de fazer foi realizado pelo Deus Encarnado, o Verbo feito carne, nosso Senhor Jesus Cristo. Ele trilhou o caminho para a pessoa humana que esta deveria trilhar em Sua direção. E se este teria sido o caminho de ascensão para a pessoa humana, para Deus foi o caminho da humilde condescendência, do auto-esvaziamento (kenosis).
São Paulo chama Cristo de “segundo Adão”, contrastando-o com o “primeiro”: “O primeiro homem era da terra, um homem do pó; o segundo homem é do céu” (1 Coríntios 15:47). Este paralelismo foi desenvolvido por São João Crisóstomo, que enfatizou que Adão era o protótipo de Cristo: “Adão é a imagem de Cristo… como o homem para aqueles que vieram dele, mesmo que não comeram da árvore, tornou-se a causa da morte, então Cristo para aqueles que nasceram d´Ele, embora não tenham feito nada de bom, tornou-Se o portador da justiça, que Ele concedeu a todos nós através da cruz”.
Poucas pessoas aceitaram o segundo Adão ou creram n´Ele quando Ele desceu à Terra. O Jesus Encarnado, que sofreu e ressuscitou, tornou-Se “uma pedra de tropeço para os judeus e loucura [grego, skandalon] para os gentios” (1 Coríntios 1:23). Declarando-Se Deus e fazendo-Se igual a Deus, Jesus escandalizou os judeus e foi acusado de blasfêmia. Quanto aos gregos, o Cristianismo era loucura para eles porque o pensamento grego buscava uma explicação lógica e racional para tudo; não estava em seu poder conhecer um Deus sofredor e moribundo. Por muitos séculos, a sabedoria grega construiu um templo para “um Deus desconhecido” (Atos 17:23). Era incapaz de compreender como um Deus incognoscível, incompreensível, todo-poderoso, onipotente, onisciente e onipresente poderia Se tornar uma pessoa humana mortal, sofredora e fraca. Um Deus Que nasceria de uma Virgem, um Deus Que estaria envolto em faixas, Que seria posto para dormir e alimentado com leite: tudo isso parecia absurdo para os gregos.
Mesmo entre os cristãos dos primeiros séculos, o mistério da divindade era explicado de diferentes maneiras. No século II, os docetistas afirmavam que a natureza humana de Cristo era meramente transparente: parecia apenas que Ele sofreu e morreu na cruz, enquanto Deus, de fato, sendo impassível, não podia sofrer de forma alguma.
Os docetistas consideravam tudo o que era material e corpóreo como mau e não podiam admitir que Deus tivesse Se revestido de carne pecaminosa e má, que tivesse Se unido ao pó. O outro extremo era o arianismo, que negava a divindade de Cristo e reduzia o Filho de Deus ao nível de ser criado. Como evitar os extremos e como a Igreja encontraria uma explicação legítima para o mistério de Cristo?
O CRISTO DOS EVANGELHOS: DEUS E HOMEM
Nos Evangelhos, Jesus Cristo é simultaneamente revelado como Deus e Homem: todas as Suas ações e palavras são as de um ser humano e, ainda assim, marcadas pela marca divina. Jesus nasce como todas as outras crianças, mas do Espírito Santo e da Virgem, e não de um casal. Levado ao templo como outras crianças, Ele é recebido por um profeta e uma profetisa que O reconhecem como o Messias. Jesus cresce e Se fortalece espiritualmente enquanto vive na casa de Seus pais; aos doze anos de idade Ele Se senta no templo entre os mestres e profere palavras misteriosas sobre Seu Pai. Como outros, Ele vem para ser batizado no Jordão, mas no momento da imersão, a voz do Pai Se faz ouvir e o Espírito Santo aparece na forma de uma pomba. Cansado da viagem, Ele senta-se junto a um poço e pede a uma samaritana que Lhe dê de beber, mas não bebe nem come quando Seus discípulos Lhe oferecem comida.
Ele dorme na popa de um barco, mas subjuga uma violenta tempestade após ser despertado. Subindo o Monte Tabor, Ele ora a Deus como qualquer outra pessoa, mas é transfigurado e revela a luz de Sua divindade aos apóstolos. No túmulo de Lázaro, Ele lamenta a morte de um amigo, mas às palavras “Lázaro, levanta-te!” Ele o ressuscita dos mortos. Em agonia, Jesus ora ao Pai para remover o cálice do sofrimento, mas Se rende à vontade do Pai e concorda em morrer pela vida do mundo. Finalmente, Ele aceita a humilhação e a crucificação, e morre na cruz como um criminoso, mas no terceiro dia Ele ressuscita do túmulo e aparece aos Seus discípulos.
Os Evangelhos falam irrefutavelmente da divindade de Cristo. Devemos notar que, embora inspirados por Deus, os Evangelhos foram escritos por pessoas vivas, cada uma das quais descreveu os eventos como os viu e entendeu, ou como ouviu sobre eles de testemunhas. Nos quatro relatos evangélicos, há diferenças nos detalhes, mas essas diferenças testemunham não a contradição, mas a unidade: se as narrativas fossem absolutamente idênticas, poderíamos concluir que seus autores conferenciaram entre si ou copiaram uns dos outros. Os Evangelhos são testemunhos em que cada fato é verdadeiro, embora apresentado a partir de perspectivas diferentes.
O CRISTO DA FÉ: UMA PESSOA EM DUAS NATUREZAS
Os Evangelhos falam de Cristo como divino e humano, e a Tradição da Igreja enfrentou a tarefa de formular um dogma sobre a unidade da divindade e da humanidade em Cristo. Esse dogma foi desenvolvido no decorrer dos debates cristológicos do século IV ao VII.
Na segunda metade do século IV, Apolinário de Laodicéia falou do Deus-Logos pré-eterno Que assumiu a carne humana; em sua opinião, Cristo não possuía intelecto ou alma humana. Na pessoa de Cristo, a divindade se fundiu com a carne humana, que juntas formavam uma única natureza. De acordo com o ensinamento de Apolinário, Cristo não poderia ser totalmente consubstancial aos humanos, pois não possuía intelecto e alma humanos. Ele era um “homem celestial” que havia meramente assumido uma casca humana, não um ser humano terreno completo.
Diodoro de Tarso e Teodoro de Mopsuéstia representavam uma tendência diferente no pensamento cristológico. Eles ensinavam que, em Cristo, existiam duas naturezas separadas e independentes, que se relacionavam da seguinte maneira: Deus, o Logos, habitava no homem Jesus de Nazaré, a Quem Ele havia escolhido e ungido, e com Quem havia “entrado em contato” e “coabitado”. A união da humanidade com a Divindade não era absoluta, mas relativa: o Logos habitava em Cristo como em um templo. A vida terrena de Jesus, acreditava Teodoro, era a vida de um ser humano em contato com o Logos. Deus, desde a eternidade, previu a vida altamente virtuosa de Jesus e, em vista disso, o elegeu como Seu órgão e como o templo de Sua divindade. A princípio, no momento do nascimento, esse contato era incompleto, mas à medida que Jesus crescia em perfeição espiritual e moral, ele se tornou plenamente realizado.
No século V, o discípulo de Teodoro, Nestório, Patriarca de Constantinopla, seguiu seu mestre na separação das duas naturezas de Cristo, distinguindo entre o Senhor e a “forma de servo”, o templo e “Aquele que nele habita”, o Deus Todo-Poderoso e o “homem que é adorado”. Nestório preferia referir-se à Virgem Santíssima como Christotokos (a Mãe de Cristo, a Mãe de Cristo) e não Theotokos (a Mãe de Deus, a Mãe de Deus), pois, segundo ele, Maria não deu à luz a Divindade.
A agitação popular em relação ao termo Theotokos (o povo se recusou a renunciar a essa atribuição da Virgem Maria, que havia sido santificada pela Tradição), juntamente com o poderoso ataque de São Cirilo de Alexandria ao Nestorianismo, levou à convocação, em 431, do Terceiro Concílio Ecumênico em Éfeso, que formulou (embora não definitivamente) a doutrina da Igreja sobre o Deus-Homem.
Ao falar sobre o Filho de Deus, o Concílio de Éfeso utilizou principalmente a terminologia de São Cirilo, que ensinava não o “contato”, mas a “união” das duas naturezas em Cristo. Na Encarnação, Deus Se apropriou da natureza humana, permanecendo ao mesmo tempo Quem Ele é: embora Deus perfeito e completo, Ele Se tornou um ser humano no sentido mais pleno. Para contrariar Teodoro e Nestório, São Cirilo afirmou constantemente que Cristo era uma única Pessoa, uma única Hipóstase. Assim, Maria deu à luz a mesma Pessoa que Deus, o Verbo. Seguindo esse raciocínio, São Cirilo pensou que renunciar ao título Theotokos significaria renunciar ao mistério da Encarnação de Deus, pois Deus Verbo e Jesus Homem são Um e o Mesmo.
Metropolita Hilarion (Alfeyev)
tradução de monja Rebeca (Pereira)








