O quinto e último capítulo do notável estudo de Jean-Claude Larchet, “Transtornos Mentais e Cura Espiritual”, é dedicado a “Um Tipo Muito Singular de Loucura – O Louco por Cristo”. O verdadeiro louco por Cristo, observa Larchet, não deve ser confundido nem com o analfabeto nem com o “inocente” (como o Príncipe Míchkin de Dostoiévski). Falando do verdadeiro louco por Cristo, Larchet escreve: “Eles não apenas não sofrem de qualquer deficiência intelectual, mas, na realidade, como veremos, possuem uma capacidade superlativa de fingir seu estado de insanidade, adaptando-o perfeitamente às situações que encontram e aos objetivos espirituais que desejam alcançar, dando significado simbólico aos seus atos e palavras, e ocultando o bem que praticam”. O louco, “por sua fala incoerente e ações desordenadas, ou, ao contrário, por seu mutismo, exibe sintomas característicos da verdadeira insanidade”. Mas é preciso insistir que “ele é até mesmo completamente são de espírito”. Ele é como um ator, “que se entrega totalmente ao seu papel, mas, ainda assim, permanece ele mesmo”.
Os fundamentos bíblicos para esse tipo de ascese podem ser encontrados entre os profetas do Antigo Testamento, bem como nas muitas palavras de São Paulo sobre como a sabedoria do mundo é loucura aos olhos de Deus – embora, neste último caso, “loucura” seja “entendida no sentido espiritual e não psicopatológico, a menos que por analogia”.
Os dois motivos fundamentais para assumir o papel da loucura são a humildade e o desapego do mundo. O louco se desapega do mundo “por meio de três características favorecidas por esse estado, a saber, a solidão (exterior e interior), a condição de estrangeiro e a pobreza”. Um terceiro motivo é a caridade, particularmente em relação aos mais desfavorecidos. A loucura por amor a Cristo tem seus próprios pressupostos espirituais: um chamado de Deus ou uma vocação pessoal aprovada por Deus e uma vida espiritual já bastante realizada. Larchet conclui com estas palavras:
Por fim, parece que a loucura por Cristo constitui um caminho ascético especial que permite ao indivíduo realizar três virtudes cristãs: humildade, desapego do mundo e caridade. O salos [louco] utiliza a loucura simulada para buscar e experimentar a primeira por meio das humilhações que esse estado fingido lhe impõe em um ambiente bastante intolerante aos loucos; para realizar a segunda, tornando-se um miserável e um pária; para praticar a terceira, oculto aos olhos do mundo; e mantendo-se o mais próximo possível da mais extrema miséria. Todas as características geralmente reconhecidas podem ser relacionadas, em nossa opinião, a uma ou outra dessas três virtudes.
Contudo, esse desapego alcançado na extrema pobreza e tornando-se um estrangeiro (xeniteia) pode ser vivido igualmente no estado monástico comum, especialmente no eremítico. Quanto à caridade para com os marginalizados da sociedade, ela pode ser praticada secretamente fora da condição de tolo, mas também caracteriza os saloi que vivem nas cidades. Consequentemente, a única característica comum a todos os saloi e verdadeiramente específica de sua condição parece ser uma busca maximalista pela humildade, constantemente vivenciada através do desprezo, da humilhação e do sofrimento injustamente suportados “por Cristo”.
blog ORA et LABORA
tradução de monja Rebeca (Pereira)








