O Evangelho do Domingo do Paralítico
A Igreja reconhece o quarto domingo após a Páscoa como o Domingo do Paralítico. Neste dia, lê-se na Liturgia a passagem do Evangelho sobre a cura, por Jesus Cristo, de um paralítico cuja doença durava 38 anos. Contudo, em vez de expressar gratidão, o ex-paralítico relatou o Salvador aos anciãos judeus, que ficaram indignados por a cura ter ocorrido no sábado. Sua recuperação física não tocou sua alma. A dor, o ressentimento e a decepção continuaram a habitar seu interior.
O paralítico permaneceu junto à fonte milagrosa por 38 anos. Durante esses 38 anos, não conseguiu encontrar ninguém que o ajudasse a entrar na piscina quando o anjo descesse. E onde ele procuraria? Afinal, não se pode pedir a um desconhecido. Quem concordaria em sentar-se ao lado de um doente e esperar o momento certo? Mesmo que alguém concordasse, por quanto tempo estaria disposto a esperar e a cuidar do paralítico? Afinal, provavelmente seriam necessárias várias tentativas. Um anjo não desce todos os dias. Há muitas pessoas. Apenas uma pessoa recebe a cura. É preciso admitir que somente alguém muito próximo seria capaz de tal ato. Isso era algo que o paralítico não havia experimentado.
O Evangelho não transmite toda a amargura da entonação de sua voz quando falou com Cristo. Mas não é difícil imaginar como esse pobre homem se sentia. Ele estava tomado por um sentimento de solidão, abandono e ressentimento. Ele experimentou isso todos os dias durante 38 anos. E cada vez que recebia uma recusa de ajuda, ou quando via como aqueles que tinham a sorte de ter um ente querido recebiam cura, esses sentimentos se enraízavam cada vez mais profundamente em seu coração.
O Senhor cura o corpo do paralítico. Mas sua doença interna persiste. Aparentemente, o espírito de indiferença que o aleijado via nos olhos daqueles ao seu redor havia se apoderado completamente de seu coração. Portanto, Cristo lhe diz: “Eis que foste curado; não peques mais, para que não te sobrevenha coisa pior”. Essas palavras transmitem preocupação e advertência. O Senhor vê que a dor, a decepção e o ressentimento continuam a espreitar no coração deste homem agora fisicamente saudável. Ele se tornou tão íntimo deles ao longo dos anos que se recusa a deixá-los ir. E agora eles estão simplesmente aguardando o momento certo para ressurgir.
E assim aconteceu. Na cena seguinte, vemos o homem que foi curado ir voluntariamente contar aos judeus que Aquele que o curou no sábado e lhe ordenou que carregasse sua cama era Cristo. Ele, assim, dá aos oponentes do Salvador mais um motivo para acusá-lo de quebrar a lei. Afinal, de acordo com o costume judaico, o trabalho é proibido no sábado. E curar e carregar a cama eram considerados trabalho. É assim que a doença mental às vezes funciona. A dor intensa que se acumulava dentro daquele homem há muitos anos desabou sobre Aquele que lhe fora mais próximo e que lhe concedera verdadeira misericórdia. Uma antiga lenda agrava as ações do paralítico. Dizem que, por tamanha ajuda, os líderes judeus o recrutaram para servir como guarda-costas do sumo sacerdote. E na noite da traição, foi ele quem golpeou o Salvador na face, no pátio do sumo sacerdote. O que de pior poderia acontecer a uma pessoa?
Esta passagem do Evangelho revela uma verdade espiritual profundamente importante. Não se trata apenas de que, por nossa indiferença, multiplicamos o mal na terra e prejudicamos a nós mesmos e aos nossos entes queridos mais vulneráveis, que são infectados por esse espírito. Mas, acima de tudo, trata-se de que existem feridas que nem mesmo Deus pode curar. Em resposta ao nosso sofrimento e às nossas orações, o Senhor só pode nos oferecer uma cura. Mas o poder de aceitar ou rejeitar a Sua graça está unicamente em nossas mãos. A tragédia é que, às vezes, estamos tão consumidos por nossas mágoas, nossas mágoas contra os outros, tão acostumados a sofrer com a solidão e o abandono, tão focados em exigir uma justa retribuição, que, mesmo quando recebemos inúmeras misericórdias de Deus, permanecemos profundamente insatisfeitos. O Senhor nos dá o que pedimos e até mais, mas não é suficiente para nós. Não é suficiente porque nossos corações estão vazios. Porque estão cheios da lembrança da dor que as pessoas nos causaram. E temos medo de nos separar dessa dor. Porque não sabemos como viver de forma diferente, sem ela. Não estamos acostumados a viver assim. Temos medo de pensar, falar e agir como se nada tivesse acontecido. Afinal, não é da nossa natureza esquecer. E assim, essa dor continua a se derramar sobre aqueles por meio dos quais Deus nos concede Sua graça.
Por isso o Senhor nos chama hoje: não tenhais medo das antigas leis pelas quais vivestes antes. Levantai-vos, pegai vossas camas e andem. Eu vos dei a Minha graça. Mas depende somente de vós se as lamentações, as queixas, as mágoas e as ressentimentos contra as pessoas e o Criador permanecerem em vossos corações. Portanto, começar a viver uma nova vida depende unicamente de vós.
Sacerdote Dmitry Baritsky
tradução de monja Rebeca (Pereira)







