O Dr. Jean-Claude Larchet inicia a introdução de seu livro Transtornos Mentais e Cura Espiritual: Ensinamentos do Oriente Cristão Primitivo com um panorama dos muitos e concorrentes sistemas de etiologias e terapias que existem hoje para o tratamento de doenças mentais. Ele afirma que o objetivo deste livro é “oferecer alguma compreensão sobre a maneira como os primeiros cristãos viam, entendiam e tratavam a insanidade, e mostrar os benefícios, ainda que modestos, que o pensamento e a experiência dos primeiros cristãos podem proporcionar”. Ele escreve:
Embora a psiquiatria moderna, em geral, pareça estar dividida em várias escolas, cada uma defendendo teorias contraditórias e reivindicando valor exclusivo para seu próprio ponto de vista, é interessante observar que o pensamento cristão desenvolveu uma concepção complexa que reconhecia três origens etiológicas: orgânica, demoníaca e espiritual, e que cada uma delas estava associada a diferentes e específicas formas de tratamento. Isso nos permite afirmar desde o início que a ideia difundida entre os historiadores, ou seja, de que os Padres consideravam todas as doenças mentais como resultado de possessão diabólica, é completamente falsa.
Para os transtornos mentais diagnosticados como orgânicos, os Padres “recomendavam a terapia médica apropriada que estivesse disponível na época”. Quanto ao demoníaco, os Padres consideravam os possuídos não como cúmplices do diabo, mas sim como vítimas, e como tal, merecedores de atenção e solicitude especiais.” Por mais bárbara que a possessão demoníaca possa parecer a muitos hoje, “a semelhança entre aspectos do padrão assim revelado [pela psiquiatria moderna] e aqueles que o cristianismo geralmente atribui à atividade demoníaca é bastante impressionante, sendo a lascívia impulsiva e a vontade implacável de causar dano os mais óbvios.” A terceira etiologia, doença mental decorrente de problemas espirituais, é “geralmente definida como uma ou outra das paixões levada ao extremo.” A nosologia e a terapia das doenças espirituais pelos Padres da Igreja são de especial interesse hoje por duas razões. Primeiro, “representam a experiência e o fruto acumulados de muitas gerações de ascetas que exploraram a profundidade da alma humana e chegaram a conhecer até mesmo seus recônditos mais íntimos em grande detalhe; ao mesmo tempo, dedicaram suas vidas inteiras a dominar e transformar a alma e adquiriram uma experiência única e notavelmente eficaz”. Segundo, os Padres “conceberam o homem em toda a sua complexidade, levando em conta as muitas dimensões do seu ser, incluindo os problemas colocados pela sua própria existência (especialmente o seu significado), o seu destino geral e a sua relação com Deus”.
Outro objetivo deste livro é “apresentar a atitude dos grandes santos em relação aos ‘loucos’, uma atitude animada em particular pelo ideal cristão da caridade”. Mas, antes, é necessário “ter alguma noção das bases antropológicas subjacentes às suas concepções”. A obra concluirá com uma análise do fenômeno do “louco por Cristo”.
Larchet inicia seu primeiro capítulo afirmando que os Santos Padres “frequentemente insistem que o ser humano não é corpo nem alma isoladamente, mas sim ambos, de forma integral e indissociável”. Os dois influenciam-se mutuamente, de modo que “todo movimento da alma é acompanhado por um movimento do corpo e todo movimento do corpo por um da alma”. Contudo, “a alma, sendo incorpórea, possui uma natureza diferente da do corpo e é superior a ele”.
Os Padres normalmente distinguem três “poderes” na alma humana: o vegetativo, cuja função é “nutrição, crescimento e geração”; O animal ou apetitivo, que compreende dois elementos: a irritabilidade ou ardor (thumos) e a concupiscibilidade (epithumetikon), “que engloba o desejo, a afetividade e outros impulsos impetuosos; e a razão, cujas duas faculdades principais são o espírito (pneuma) e o intelecto (nous). (Aqui, Larchet observa que os autores dos primeiros séculos usaram o primeiro termo, enquanto os escritores bizantinos e posteriores preferiram o segundo.) No entanto, deve-se ressaltar que “os ‘elementos’ que podem ser distinguidos na alma não constituem três almas diferentes, nem três partes separadas”. Alguns Padres da Igreja usaram o modelo dicotômico corpo-alma, e outros o modelo tricotômico espírito/intelecto-alma-corpo.
blog ORA ET LABORA
tradução de monja Rebeca (Pereira)







