UMA HOMILIA PARA O DOMINGO DO APÓSTOLO TOMÉ
Reverendos padres, irmãos e irmãs, todos vós que estais presentes e todos vós que assistimos à transmissão da Divina Liturgia de hoje: Cristo Ressuscitou! Verdadeiramente Ressuscitou!
Três vezes, de diferentes pessoas, e três vezes dos Apóstolos, ouvimos no Santo Evangelho a confissão de alguém que reconheceu em Cristo o Filho de Deus. São João Batista, que junto ao rio Jordão viu o Espírito Santo descendo sobre o Salvador em forma de pomba, foi o primeiro entre os homens a chamá-Lo de Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (Jo 1,29), e Filho de Deus. Marta, irmã de Lázaro, antes da ressurreição de seu irmão, também confessou: Sim, Senhor, eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo (Jo 11,27). E, finalmente, o centurião romano e os soldados presentes na Crucificação, ao verem o escurecimento do sol, o terremoto e tudo o que acontecia, ficaram aterrorizados e exclamaram: Verdadeiramente este era o Filho de Deus! (Mt 27,54).
Esses três testemunhos são complementados por três confissões dos próprios discípulos do Salvador: a de Natanael: Rabi, Tu és o Filho de Deus; Tu és o Rei de Israel! (Jo 1,49); a de Pedro: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo! (Mt 16,16); e a de Tomé: Meu Senhor e meu Deus! (Jo 20,28), que ressoa na leitura do Evangelho de hoje, do primeiro domingo após a Páscoa, o domingo que o calendário da Igreja chama de Antipáscoa, ou Domingo do Apóstolo Tomé.
Na perspectiva bíblica, o domingo é o primeiro dia da semana, o dia em que Deus iniciou a Sua criação e, ao mesmo tempo, o oitavo dia do Reino vindouro, no qual não haverá tempo. Segundo essa interpretação, a Antipáscoa, como oitavo dia após a Ressurreição de Cristo, é um prenúncio do Reino de Deus que há de vir — o primeiro dia do novo mundo, que Cristo, por Sua morte, trouxe à vida. São Gregório, o Teólogo, em sua homilia para este domingo, compara a renovação espiritual do mundo com a renovação da natureza na primavera: “Chegou agora a primavera, terrena e espiritual, primavera para as almas e para os corpos, primavera visível e invisível. Que possamos também participar dela lá, quando, transformados e renovados aqui, entrarmos na nova vida em nosso Senhor.”
Este dia é chamado de Domingo do Apóstolo Tomé em memória da certeza que ele teve da realidade de Cristo ressuscitado. Mas o próprio nome Antipascha — Pascha em vez de Pascha — está igualmente ligado ao nome do apóstolo Tomé, porque para ele a Páscoa, seu próprio encontro pessoal com o Cristo ressuscitado, aconteceu somente oito dias depois — uma semana inteira depois do que para os outros discípulos. Quando os discípulos contaram a Tomé sobre o Cristo ressuscitado, ele não acreditou neles — assim como eles próprios não acreditaram quando O viram pela primeira vez; quando, assustados e perplexos, pensaram que estavam vendo um fantasma. Para persuadir Seus discípulos confusos, o Salvador mostrou-lhes as mãos, os pés, o lado e até comeu na presença deles.
Tomé não estava com os outros discípulos quando Jesus lhes apareceu e provou que não era um espírito ou um fantasma, mas um Homem real que havia ressuscitado dos mortos em um corpo — um corpo que, de fato, fora transfigurado, deificado e se tornara totalmente espiritual, embora não tivesse deixado de ser um corpo. Quais foram as primeiras palavras que Cristo dirigiu aos discípulos quando lhes apareceu após a Ressurreição? Foram as palavras: “A paz esteja convosco” (João 20:19). Como essas palavras ressoam com urgência em nossos dias, quando provocações e o aumento das tensões nas relações internacionais dão origem a novos conflitos armados. Apesar das inúmeras guerras que percorreram toda a história, a humanidade parece teimosamente relutante em admitir que construir é melhor do que destruir, que o progresso importa mais do que as ruínas das cidades e que escolas e hospitais são muito mais necessários do que armas e abrigos de guerra.
O apóstolo Tomé não estava presente na primeira aparição de Cristo. Quando os outros discípulos lhe disseram: “Vimos o Senhor!”, ele respondeu: “Se eu não vir nas Suas mãos o sinal dos pregos, e não puser o meu dedo no lugar dos pregos, e não puser a minha mão no Seu lado, de maneira nenhuma crerei” (João 20:25). A história de Tomé, o incrédulo, provoca certa inquietação em nossa alma. E se nós, por nossa vez, não duvidarmos da Ressurreição de Cristo principalmente porque não refletimos sobre ela? A expressão “Tomé, o incrédulo” parece-nos clara e familiar, e não vemos motivo para refletir mais profundamente sobre a sua história. Muitas vezes, percebemos a dúvida de Tomé como um sinal de fraqueza — pois, no final do Evangelho de hoje, ressoam as palavras: “Bem-aventurados os que não viram e creram” (João 20:29). Ansiamos por nos incluir entre eles, entre aqueles que não viram e creram. Diante da nossa suposta fé, o apóstolo Tomé parece-nos um homem de pouca fé.
Contudo, ele nos lembra de algo bastante simples: um cristão deve duvidar. Ele precisa duvidar de si mesmo, da sinceridade de sua fé em Deus, da autenticidade de sua própria experiência espiritual. Pois a fé não é credulidade ingênua. Deus espera nossas perguntas. Ele não teme nossas dúvidas. Ele está pronto para ouvir nossas perguntas e respondê-las. E quanto mais sincera for nossa pergunta — por mais audaciosa ou perturbadora que possa parecer —, mais poderosa será a resposta de Deus. Tomé nos lembra que uma vida de fé é um chamado a seguir Cristo consciente e responsavelmente: a refletir sobre Ele, a buscá-Lo com a mente e a buscá-Lo sinceramente. É precisamente por isso que a Igreja dá a Tomé, o “incrédulo”, o lugar que lhe pertence por direito e dedica a ele o primeiro domingo após a Páscoa todos os anos. Pois a sinceridade de sua fé se tornou para nós a garantia de sua verdade. Como disse São Gregório o Grande: “Tomé duvidou para que não duvidássemos. E quando tocou as chagas de Cristo, curou as feridas da nossa incredulidade.”
A verdadeira fé começa com uma coragem sincera — a coragem de não ter medo de nos aproximarmos de Cristo com nossas perguntas. Muitos de nós não ousamos fazer as perguntas que realmente nos afligem. Temos medo de admitir nossas dúvidas. Tememos o que aqueles ao nosso redor pensarão. E assim, a mentira se acumula em nossos relacionamentos com Deus e com os homens — uma mentira escondida atrás da máscara de uma fé que parece firme, mas que, na verdade, é apenas superficial.
Devemos, no entanto, estar cientes de que viver em autoengano é espiritualmente muito perigoso.
A tradição ascética da Igreja tem o conceito de prelest — autoengano espiritual. É o estado em que um homem começa a acreditar em suas próprias ideias sobre sua santidade, sua sabedoria, seu caráter excepcional ou seu progresso espiritual. Exteriormente, ele pode parecer piedoso; na realidade, está se afastando da verdade. O perigo é que o autoengano fecha os olhos espirituais do homem. Aquele que pensa que já vê claramente deixa de buscar a luz. Os Santos Padres dizem que o maior obstáculo ao crescimento espiritual não é a fraqueza, mas o orgulho disfarçado de piedade. Um homem em prelest já não admite que pode estar errado. Ele não ouve os conselhos dos outros, não vê os seus próprios pecados e, gradualmente, afasta-se da humildade, da unidade e do amor — sem os quais a verdadeira vida espiritual é impossível.
Convencido da sua própria perfeição, ele começa a julgar e a condenar — não as suas próprias fraquezas e pecados reais, mas as supostas falhas dos seus semelhantes. Se um homem permanece nesse estado por muito tempo, nada restará em seu mundo espiritual. Tudo será destruído: seus bons relacionamentos com os outros, sua reverência pela Igreja, e nada mais lhe será sagrado. Ele pode chegar ao ponto de culpar o próprio Deus por todo o mal que acontece em sua vida ou no mundo, ou impor as mãos sobre si mesmo, ou até mesmo matar outro homem. O prelest, essa terrível doença espiritual, pode atingir qualquer um que confie apenas no seu próprio julgamento. Por isso é tão importante cultivar a humildade e a sobriedade, e encontrar um guia experiente, um confidente de confiança e um pai-confessor, para sua jornada espiritual.
A saída para o autoengano é simples — contudo, para aqueles que sofrem com ele, é enormemente difícil. É a disposição de enxergar a verdade sobre si mesmo. Só isso pode remover a pedra do túmulo da convicção da própria perfeição e conduzir ao caminho seguro da humildade e da verdadeira vida espiritual. Pois Deus não guia aqueles que se consideram perfeitos, mas aqueles que reconhecem suas fraquezas e sua necessidade de Sua ajuda. É precisamente por isso que a fé verdadeira é tão importante — a fé verdadeira, e não suas imitações ou falsificações. Deus espera nossas perguntas e não teme nossas dúvidas. Mas Ele quer que O busquemos sinceramente. Então, o mesmo que aconteceu com Tomé pode acontecer conosco: a dúvida será transformada em fé e confissão.
A fé pessoal não é algo que recebemos da Igreja de uma vez por todas, como uma rica herança. Ela precisa ser continuamente preservada, aprofundada e expandida. É um caminho sem fim. Percorrer esse caminho significa vencer o cansaço e os obstáculos, e triunfar sobre as dúvidas. É uma senda que exige a transformação incessante do ser humano — uma luta constante contra o pecado e as paixões, e o árduo trabalho de purificar a própria alma. Que o exemplo do Apóstolo Tomé nos dê a coragem de seguir firmes por essa senda espiritual sem fim — a senda que conduz da dúvida à fé sincera.
Metropolita Rastislav de Prešov
tradução de monja Rebeca (Pereira)






