O MISTÉRIO DA ALEGRIA DA PÁSCOA PELO ARQUIMANDRITA ROMAN (BRAGA)

O Padre Arquimandrita Roman (Braga) nasceu em 2 de abril de 1922, em Condrița, condado de Lăpușna, Bessarábia. Aos 12 anos, ingressou como noviço no Monastério de Căldărușani, perto de Bucareste. No ano seguinte, matriculou-se no Seminário de Cernica. Após o seu encerramento em 1940, transferiu-se para o Seminário Central de Bucareste, concluindo o último ano no Seminário Teológico de Chișinău (1943).

De volta a Bucareste, entre 1943 e 1947 frequentou a Faculdade de Letras e Filosofia, bem como o Seminário Pedagógico “Titu Maiorescu”. Graduou-se na Faculdade de Teologia de Bucareste com a distinção magna cum laude (1947). Obteve certificação como professor de Língua e Religião Romenas e iniciou os estudos de doutorado na Faculdade de Teologia de Bucareste.

Em 16 de julho de 1948, começou o calvário da prisão sob o regime comunista. Ele foi preso e injustamente acusado de possíveis ligações com o movimento legionário. Após um ano de interrogatórios no Ministério do Interior e na prisão de Jilava, foi condenado a cinco anos de trabalhos forçados por não se apresentar às autoridades e por suposta cumplicidade. Sofreu o terror do experimento de “reeducação” em Pitești e, posteriormente, a destruição física e moral dos campos de trabalhos forçados no Canal do Danúbio e na colônia da Península. Foi libertado em 1953, sob regime de residência forçada em Bucareste. Durante esse período, conseguiu viajar secretamente para Iași, onde sua irmã, Madre Benedita, morava. O Metropolita Sebastião (Rusan) o tonsurou monge em 2 de janeiro de 1954 e o ordenou diácono em 6 de janeiro.

Os cinco anos seguintes foram frutíferos na pregação da Palavra de Deus. Em 1959, iniciou-se uma nova onda de prisões políticas, da qual ele não escapou. Foi interrogado durante um ano, acusado de ter participado do grupo “Sarça Ardente” no Monastério de Antim durante seus anos de estudante. Foi condenado a 18 anos de trabalhos forçados e 10 anos de degradação civil por atividades consideradas hostis ao regime comunista. Cumpriu apenas cinco anos, sendo libertado em 1964 durante a anistia geral para presos políticos. Após sua libertação, vagou por diversas dioceses e metrópoles na Romênia, frequentemente sendo recebido com indiferença e até mesmo rejeição. Mesmo assim, o bispo Valerian Zaharia de Oradea foi autorizado a ordená-lo sacerdote. Por um tempo, trabalhou nos arquivos diocesanos.

Em 1º de janeiro de 1965, foi nomeado pároco em Negrești, em Țara Oașului, onde serviu por três anos. Em seguida, foi transferido para a paróquia da vila de Sârbi, perto de Oradea, e posteriormente enviado como missionário ao Brasil, onde serviu à comunidade romena em São Paulo de 1968 a 1972. Em 1972, o Bispo Valerian Trifa o chamou para o Episcopado Ortodoxo Romeno em Vatra, onde, por sete anos, dedicou-se à educação religiosa de crianças, traduziu textos religiosos e adaptou hinos da igreja para o inglês.

Em outubro de 1979, foi nomeado sacerdote na Paróquia da Santíssima Trindade em Youngstown, Ohio, e mais tarde, em janeiro de 1982, na Catedral de São Jorge em Southfield, Michigan. Entre 1983 e 1988, serviu como sacerdote e Pai Espiritual no Monastério da Transfiguração em Ellwood City, Pensilvânia. Em 1988, retirou-se para o Monastério da Dormição da Mãe de Deus em Rives Junction, Michigan, onde sua irmã, Madre Benedicta, era a Abadessa. Faleceu no Senhor em 29 de abril de 2015, após uma longa enfermidade.

Em 5 de setembro de 2025, no 93º Congresso do Episcopado Ortodoxo Romeno da América, durante sua sessão final, Sua Eminência o Arcebispo Nathaniel de Detroit e o Episcopado Romeno apresentaram à assembleia plenária uma resolução para encaminhar ao Santo Sínodo dos Bispos da Igreja Ortodoxa na América a causa de canonização do Arquimandrita Roman (Braga).

O MISTÉRIO DA ALEGRIA DA PÁSCOA

Em Jerusalém, no Vale do Cedron, existe um imenso cemitério, o maior do mundo. Ali repousam David, Absalão, o rei Josafá, o profeta Zacarias e Tiago, o primeiro bispo de Jerusalém. Todo o Monte das Oliveiras, entre Betânia e Getsêmani, é literalmente uma necrópole, uma cidade dos mortos. O sonho de todo judeu abastado é ser sepultado ali. Este é o famoso «Vale de Josafá», que o profeta Ezequiel descreve de forma tão dramática em sua visão da ressurreição dos ossos secos: “Ó ossos secos, ouvi a palavra do Senhor… ‘Farei entrar em vós o espírito, e vivereis’…” (Ezequiel 37:4, 5). “Então sabereis que Eu sou o Senhor, quando Eu abrir os vossos sepulcros, ó povo Meu, e vos fizer sair dos vossos sepulcros… e vos colocar na vossa própria terra. Então sabereis que Eu, o Senhor, o disse…” (Ezequiel 37:13,14). A tradição diz que este será o lugar do Juízo Final. O Salvador sairá de Sião pelo Portão Dourado, que domina toda a paisagem do vale, e chamará todas as nações do mundo para a ressurreição universal.

Gustav Mahler, poeta e compositor de grandes sinfonias, tentou, em uma de suas composições, expressar essa explosão de alegria que emocionará o mundo inteiro. Será, a princípio, um ruído produzido por todos os instrumentos da natureza, e então um silêncio insuportável, repleto da tensão da expectativa, se abaterá sobre nós, após o qual o Arcanjo Miguel soará a última trombeta.

A Ortodoxia enfatiza a visão do Vale de Josafá na Liturgia do Sábado Santo, o sábado de silêncio. Sem essa profecia, ninguém poderia explicar o mistério da alegria da Páscoa, que não é forçada, mas surge organicamente; não é material, mas mística. Vem do alto, ou talvez das profundezas, com a graça da transfiguração. O fato de Cristo ter ressuscitado não é o milagre, pois Deus jamais poderia morrer; a fonte misteriosa da alegria da Ressurreição é que todos nós ressuscitaremos. A Páscoa é o prelúdio da ressurreição universal. O verdadeiro milagre é que Deus se encarnou para encontrar a morte e aboli-la, pois, caso contrário, entre o Logos eterno e a morte não há nada em comum. Este é o verdadeiro milagre. Poderíamos dizer que Ele ofereceu uma isca para capturar a morte — o Seu Corpo. Na hinologia do Sábado Santo, o Inferno geme, dizendo: “Ai de mim, que tomei um corpo e encontrei Deus”.

Portanto, a fé na Ressurreição implica fé na Divindade de Jesus Cristo; como poderia uma mera criatura anular a sentença de morte para toda a humanidade e perdoar pecados? Os profetas dizem que somente Deus pode perdoar pecados, pois foi Ele quem promulgou a Lei pela qual o homem se tornou mortal: “mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gênesis 2:17), ou “…pois tu és pó e ao pó voltarás” (Gênesis 3:19); somente Ele poderia revogá-la. Jesus diz que seremos libertos da morte e do pecado somente quando o Filho nos libertar. O Filho não é um ser criado; Ele é o próprio Logos, o ícone da essência do Pai. No princípio, Ele pronunciou a sentença; somente Ele poderia anulá-la, assumindo a natureza humana corrompida pelo pecado e com todas as suas consequências: tentação, sofrimento, morte, etc. A teologia da morte e da ressurreição não se aprende em livros. É um instinto de eternidade, uma nostalgia pelo Paraíso perdido. Ninguém quer morrer. Todos vivem a alegria mística da Ressurreição, mesmo que não acreditem em Deus.

Lembro-me de um conto do escritor romeno Alexandru Vlahuță sobre um homem que queria se suicidar na noite de Páscoa. Ao encostar o revólver na têmpora, ouviu os sinos da igreja de sua aldeia tocarem. Impulsionado por uma força invisível, encontrou-se na igreja, chorando e cantando “Cristo Ressuscitou” junto com as outras pessoas presentes.

Deixando de lado as histórias de ficção, no Sábado Santo de 1949, enquanto eu estava na prisão de Pitești, ouvi por acaso uma conversa entre o guarda Georgescu, que costumava espancar os prisioneiros que rezavam até sangrarem, e Nistor, o guarda do primeiro andar: “Ei, você vem trabalhar amanhã?” — “Não!”, respondeu Nistor. “E você?” — “Nem eu, porque para mim também é Páscoa.” Esse criminoso Georgescu, portanto, também sentia a alegria da Páscoa. E acredito que ele era sincero. Não era apenas o prazer dos ovos vermelhos que se podia comer na Sexta-feira Santa mesmo sem acreditar em nada, mas também o mistério da Páscoa que pairava no ar.

O Martirológio Ortodoxo inscreve nas páginas do Sinaxário o seguinte evento ocorrido há cento e cinquenta anos na Anatólia: crianças cristãs costumavam sair às ruas na noite de Páscoa cantando “Cristo Ressuscitou”. Alguns muçulmanos as detiveram e ameaçaram-nas, dizendo que se não dissessem em voz alta “Alá é Deus e Maomé seu único profeta”, teriam suas cabeças cortadas com uma serra. O resultado: todas as crianças morreram cantando “Cristo Ressuscitou”. Talvez em outra época e em outras circunstâncias elas tivessem se convertido ao Islã — mas não na Páscoa.

Portanto, a Páscoa é e sempre será um mistério que não pode ser analisado teologicamente. A escolástica é destrutiva; ela mata o mistério. Pessoalmente, acredito que a influência helenística na teologia e o uso de conceitos filosóficos preestabelecidos são prejudiciais à Verdade. Os mistérios da Igreja devem ser aceitos pela fé e pela contemplação, e devem permanecer mistérios.

CRISTO RESSUSCITOU!


Arquimandrita Roman (Braga)
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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