Samaria não era um lugar onde os judeus iriam com prazer. Era como as áreas desfavorecidas das grandes cidades modernas, onde um cidadão respeitável evitaria entrar sem um bom motivo. Os judeus não se relacionavam com os samaritanos, considerando-os impuros. Os judeus desprezavam os samaritanos, considerando-os mestiços, apóstatas, menos que humanos ou cidadãos de segunda classe. Os judeus acreditavam nisso, mas Deus não. Portanto, Cristo, passando por Samaria, aproxima-Se de uma mulher samaritana que tinha ido a um poço buscar água. Como judeu, Ele, é claro, não podia beber dos recipientes que os samaritanos usavam. Ele sabia disso. E a mulher samaritana também sabia. E é precisamente com um pedido de água que Ele Se aproxima dela. É nessas circunstâncias que uma conversa começa entre eles. Uma conversa que não tinha o direito legal de existir. Uma conversa entre o Deus-Homem sem pecado, descendente do Rei David, e uma mulher samaritana, uma pecadora acostumada ao fato de que nenhuma clemência poderia ser esperada dos representantes do povo escolhido de Deus.
O encontro entre Cristo e a mulher samaritana está repleto de tudo o que existe na sociedade humana até hoje: preconceito racial, ódio religioso, desprezo pelas mulheres, desdém pelos marginalizados morais, ou melhor, por aqueles a quem estamos acostumados a rotular. Mas não é Cristo quem fala disso; a própria mulher samaritana o lembra de todas essas limitações. Deus vem, por assim dizer, ao próprio epicentro dos preconceitos humanos para resolvê-los e nos dar um novo ponto de referência na vida. Não é coincidência que a conversa de Cristo com a mulher samaritana seja a mais longa de todas as conversas entre o Deus-Homem e qualquer pessoa registradas nos Evangelhos.
Cristo Se dirige à mulher samaritana, não vendo barreiras entre Ele e ela. A mulher, respondendo ao Salvador, vê os muros erguidos diante de seu olhar interior pela sociedade: um muro religioso, um muro de gênero, um muro moral e um muro racial. Mas para Deus, esses muros não existem. Ele sabe como superá-los. Assim como em vários outros encontros do Evangelho, como o encontro com o paralítico no tanque de Betesda, na Porta das Ovelhas em Jerusalém, que relembramos no domingo passado, Deus inicia esse encontro. Ele mesmo encontrou o paralítico e Ele mesmo encontrou a mulher samaritana. E enquanto no primeiro caso não sabemos o que aconteceu em seguida com a fé do homem curado, no caso da mulher samaritana, vemos que primeiro Deus a encontrou e depois ela encontrou Deus nesse encontro. O que acontece nessa passagem do Evangelho parece ser um encontro casual, mas, na verdade, não é. O tempo, o lugar e todas as circunstâncias foram providenciados por Deus antes da criação do mundo.
Metropolita Ambrósio (Ermakov)
tradução de monja Rebeca (Pereira)







