A FESTA DO SEMI-PENTECOSTES E O PENTECOSTARION

Os cinquenta dias que se seguem à Páscoa até à Festa de Pentecostes são conhecidos como o período do Pentecostarion na Igreja Ortodoxa. No ponto médio entre estas grandes festas da Páscoa e de Pentecostes, no vigésimo quinto dia, que é sempre uma quarta-feira, encontra-se uma das festas mais queridas pelos cristãos ortodoxos mais devotos, conhecida simplesmente como Semi-Pentecostes. O Semi-Pentecostes é para o Pentecostarion o que o Terceiro Domingo da Grande Quaresma, que honra a Santa Cruz, é para o período da Grande Quaresma. É um dia que nos ajuda a concentrarmo-nos no tema central de todo o período. Assim como o ponto médio da Grande Quaresma nos lembra de carregarmos corajosamente a Cruz de Cristo para que possamos morrer diariamente com Cristo, a fim de experimentarmos a Ressurreição do nosso Senhor, também o ponto médio do Pentecostarion nos ilumina quanto ao tema dos cinquenta dias que se seguem à Páscoa – que é a aquisição do Espírito Santo derramado como uma dádiva sobre todos os fiéis que participam da água viva que é o próprio Cristo.

O tema central que permeia todo o período do Pentecostarion é, portanto, a água. Ela se torna o tema central do período porque é o tema central do Evangelho de João, que lemos na íntegra durante o Pentecostarion e que naturalmente se conecta aos Atos dos Apóstolos, também lidos na íntegra durante este período. Este tema aparece pela primeira vez na própria Páscoa, no jubiloso Cânone da Festa das Festas, escrito por São João Damasceno, quando ele nos convida a “beber uma bebida nova”, não “tirada de uma rocha estéril”, como no Antigo Testamento sob Moisés, mas sim “que brota do túmulo de Cristo”. Então, durante a Divina Liturgia Pascal, o sacerdote entra em procissão com o Evangelho e canta em voz alta o Salmo 67:27, dizendo: “Bendizei a Deus nas vossas assembleias, bendizei desde as fontes de Israel”.

Quando a Semana da Renovação ou Semana Luminosa termina, a Igreja sabiamente estabelece dois domingos para dissipar todas as dúvidas sobre a Ressurreição de Cristo: o Domingo de São Tomé e o Domingo das Mulheres Miróforas. Isso é feito para garantir que todos participemos da água viva que somente o Senhor ressuscitado pode dar. Nos três domingos seguintes, à medida que nos aproximamos de Pentecostes, o tema da água torna-se cada vez mais central nos hinos da Igreja. Assim, encontramos-nos num domingo no Tanque das Ovelhas com o Paralítico, depois no Poço de Jacob com a Samaritana e, finalmente, no Tanque de Siloé com o Cego. Durante este período festivo, ouvimos falar da “água viva” da qual, se alguém beber, “nunca mais terá sede”. Somos ensinados que é o próprio Salvador quem é essa água viva, e participamos d’Ele através das águas batismais e do Cálice da Vida que jorrou do Seu lado na crucificação para a remissão dos pecados e a vida eterna. Então, no Pentecostes, a graça é derramada sobre nossas almas e corpos sedentos, para que possamos ser fecundos e ter uma grande colheita, como ouvimos no santo Evangelho daquele dia: “Se alguém tem sede, venha a Mim e beba”. Finalmente, o Pentecostário conclui com a Festa de Todos os Santos, isto é, daqueles que beberam das “águas da piedade”, que é a colheita do derramamento do Espírito Santo.

Os Padres nos ensinam que a festa do Semi-Pentecostes se situa no meio do período de cinquenta dias, da Páscoa ao Pentecostes, como um poderoso rio de graça divina que tem essas duas grandes festas como sua nascente. A Páscoa e o Pentecostes se unem no Semi-Pentecostes. Sem a Páscoa não há Pentecostes e sem o Pentecostes não há propósito para a Páscoa.

Lemos a seguinte entrada no Grande Horologion que explica ainda mais os detalhes da festa:

Depois que o Salvador curou milagrosamente o paralítico, os judeus, especialmente os fariseus e os escribas, movidos pela inveja, perseguiram-No e procuraram matá-Lo, alegando que Ele não guardava o sábado, pois realizava milagres naquele dia. Jesus então partiu para a Galileia. Por volta da metade da Festa dos Tabernáculos, subiu novamente ao Templo e ensinava. Os judeus, maravilhados com a sabedoria de Suas palavras, diziam: ‘Como pode este homem conhecer letras, sem nunca as ter aprendido?’ Mas Cristo primeiro repreendeu a incredulidade e a transgressão da lei deles, depois provou-lhes pela Lei que procuravam matá-Lo injustamente, supostamente por ser um desprezível da Lei, visto que Ele havia curado o paralítico no sábado.

“Portanto, visto que as coisas ditas por Cristo no meio da Festa dos Tabernáculos se relacionam com o Domingo do Paralítico que passou, e visto que já chegamos ao ponto médio dos cinquenta dias entre a Páscoa e Pentecostes, a Igreja designou esta festa como um elo entre as duas grandes Festas, unindo-as, por assim dizer, em uma só, e participando da graça de ambas. Portanto, a festa é chamada de Semi-Pentecostes, e a leitura do Evangelho, ‘No Meio da Festa’ — embora se refira à Festa dos Tabernáculos — é usada.”

É importante notar que havia três grandes festas judaicas: a Páscoa, o Pentecostes e a Festa dos Tabernáculos. A Páscoa era celebrada no dia 15 de Nissan, o primeiro mês do calendário judaico, que coincide aproximadamente com o nosso mês de março. Esta festa comemorava o dia em que os hebreus receberam a ordem de comer o cordeiro ao entardecer e ungir as portas de suas casas com o seu sangue. Então, tendo escapado da escravidão e da morte nas mãos dos egípcios, eles atravessaram o Mar Vermelho para chegar à Terra Prometida. É chamada de “Festa dos Pães Ázimos”, porque eles comeram pão ázimo durante sete dias. O Pentecostes era celebrado cinquenta dias após a Páscoa, primeiramente porque as tribos hebraicas haviam chegado ao Monte Sinai depois de saírem do Egito e ali receberam a Lei de Deus; em segundo lugar, era celebrado para comemorar a sua entrada na Terra Prometida, onde também comeram pão, depois de terem sido alimentados com maná durante quarenta anos no deserto. Portanto, neste dia, eles ofereciam a Deus um sacrifício de pão preparado com trigo novo. Finalmente, eles também celebravam a Festa dos Tabernáculos do dia 15 ao dia 22 do “sétimo mês”, que corresponde aproximadamente ao nosso mês de setembro. Durante esse período, viviam em cabanas feitas de ramos, em comemoração aos quarenta anos que passaram no deserto, vivendo em tabernáculos, isto é, em tendas (Êxodo 12:10-20; Levítico 23 LXX).

A Festa do Semi-Pentecostes é celebrada durante uma semana inteira, até a quarta-feira seguinte, totalizando oito dias de festa. Durante todo esse período, os hinos do Semi-Pentecostes são entoados juntamente com os da Páscoa. Devido ao tema da água, tradicionalmente a Igreja celebra a Pequena Bênção das Águas neste dia, de preferência com uma procissão com a Santa Cruz até uma fonte de água.

O tema da festa não apenas evoca a água, mas, ainda mais central para a cronologia do Evangelho, honra Cristo como Mestre e Sabedoria, revelando-se entre as histórias do Paralítico e do Cego. Durante esse período, lemos: ” Mas, no meio da festa, subiu Jesus ao templo e ensinava…. Jesus respondeu e disse-lhes: A Minha doutrina não é Minha, mas d´Aquele que me enviou. Se alguém quiser fazer a vontade d´Ele, pela mesma doutrina, conhecerá se ela é de Deus ou se Eu falo de Mim mesmo. (João 7:14-30). O ícone desta festa retrata o jovem Jesus ensinando os anciãos no Templo (Lucas 2:46, 47), ocasião em que Jesus Se revelou pela primeira vez como mestre ou rabino. Os ícones ortodoxos tradicionais retratam Jesus maior que os anciãos, demonstrando sua posição espiritual superior.

Visto que os hinos da Igreja invocam e louvam nosso Senhor como a Sabedoria de Deus mencionada no Livro dos Provérbios, é tradição que todas as igrejas que levam o nome da Santa Sabedoria ou de Santa Sofia celebrem sua festa neste dia. De fato, o erudito grego Constantino Kalokyre escreveu um estudo intitulado “As Igrejas da Sabedoria de Deus e a Data de sua Celebração”, publicado no periódico São Gregório Palamas, nº 71 (723) (1988), pp. 538-617. Neste estudo, ele conclui que a Grande Igreja de Santa Sofia, em Constantinopla, celebrava sua festa no meio da Festa de Pentecostes.


Mystagogy
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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