Muitos se apaixonam pela ideia de “Ortodoxia”, mas lutam com a disciplina simples e corajosa de uma avó grega (yiayia) e sua vida diária. O verdadeiro phronema (φρόνημα)/philotimo (φιλότιμο) revela um amor centrado no coração pelos nossos semelhantes e pelo nosso Salvador Ressuscitado, exigindo uma simplicidade (ἁπλότης) que resista à ansiedade legalista: “Mas temo… que suas mentes possam de alguma forma ser desviadas de sua devoção simples e pura a Cristo.” 2 Cor. 11:3
Yiayia Anthula e Yiayia Katina (como todos as yiayias), encontram paz na misericórdia de Deus e no seu humilde e modesto esforço para amar a todos sem julgar. Resumido em duas palavras gregas muito importantes: phronema e philotimo (φρόνιμα e φιλότιμο).
Essa combinação phronema/philotimo é precisamente a razão pela qual a Igreja não pratica a “comunhão aberta”. Por amor a Deus e ao próximo, somente aqueles que são batizados/crismados na Igreja (canonicamente em comunhão com o plenroma da Ortodoxia) podem receber a Sagrada Comunhão. Respeitosamente e com responsabilidade, mantemo-nos firmes, cientes de que administrar a Sagrada Comunhão não é “um gesto de boas-vindas a todos”, mas o próprio dom da vida eterna, que só pode ser discernido por aqueles que pertencem à Igreja. Quem, senão nós, o Corpo de Cristo, possui essa sagrada responsabilidade?
Unidade cristã
Embora todos desejemos a unidade cristã (quem não deseja?), ela não deve ocorrer à custa da integridade teológica e eclesial preservada no Oriente grego (Ortodoxia). No século VII, tensões entre Oriente e Ocidente já haviam surgido, como se viu no Concílio de Trullo (Τρούλο, que significa cúpula, realizado em 692 em Constantinopla), onde o Oriente grego defendeu a tradição do clero casado — contrariando as restrições latinas emergentes nas relações matrimoniais dos sacerdotes. A partir desse ponto, a Igreja Latina continuou a divergir da Ortodoxia seguindo seu próprio caminho (um grande erro foi sua insistência posterior no clero “exclusivamente celibatário”. Com o tempo, essa trajetória contribuiu para uma tendência no Ocidente de abordar até mesmo a palavra “igreja” com um certo grau de suspeita e/ou ambiguidade).
A língua grega
A própria língua carrega um phronema específico; assim, o uso excessivo da língua inglesa (fortalecida pela mentalidade anglo-protestante de angústia contra Roma – veja As Inquisições) muda o phronema (mentalidade) da Igreja de “curar a alma” para “vencer uma discussão”.
Desde a época de Homero (século VIII a.C.), essa língua helênica foi imbuída do divino e sustentada pela busca da virtude (αρετή) definida por Platão e Sócrates — na mesma língua usada pelos Concílios Ecumênicos para salvaguardar o mistério da EKKLESIA.
O grego é a língua que o Ocidente latino acabou (infelizmente) por descontinuar (São Jerônimo optou por priorizar sua Vulgata da Bíblia em detrimento das fontes gregas — uma mudança que levou o Ocidente de uma imersão “participativa” nos textos gregos para uma estrutura latina mais declarativa e legalista [ver “Cartas a Jerônimo” de Agostinho]).
Não trate erroneamente essa preciosa herança como um exercício acadêmico ou uma prerrogativa étnica. É uma planta que murcha se removida de sua terra natal. Nossa fé está apenas parcialmente enraizada na confiança que os hebreus nômades tinham em Moisés.
As raízes puras da Igreja foram formadas quando o monoteísmo encontrou a sofisticada mente helênica — livre das futuras reivindicações papais de poder mundial e do legalismo reativo dos reformadores. A verdadeira unidade é encontrada na equação orgânica: Helenismo + Cristianismo = Ortodoxia. (NOTA: não devemos confundir este helenismo cristão eterno com o Estado grego moderno pós-otomano, que também é influenciado por fatores eclesiásticos e seculares ocidentais).¹
A simplicidade (ἁπλότης) da avó grega (yiayia) não é uma ausência de conhecimento, mas a realização da busca helênica pela virtude (αρετή) encontrada ao acender as “kandyli” na capela da montanha (μοναστήρι). Ela é a guardiã silenciosa que carrega em suas mãos calejadas a mesma “mente dos Pais” que os grandes filósofos buscavam — e que os Concílios Ecumênicos codificaram.
O “caminho” da yiayia demonstra que a mais alta sofisticação se encontra no humilde acender de uma vela — e na confiança total e inata na providência de Deus.
Vamos além dos livros didáticos (ou seja, simplesmente “seguir o livro” na liturgia) e abraçar essa cultura organicamente, onde o espírito e o amor são primordiais e a teologia é um sopro vivo. Somente aderindo a Philotimo e Phronema podemos preservar a integridade da Igreja como Mãe!
Mantenham a fé “pura e simples” — e como todas as avós nos aconselham:
«Τα μάτια σου 14!» —“teus olhos sejam 14!”
«το νους σου!» — “tö nous sou!” (TENHAM ATENÇÃO!)
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1 Assim como a Grécia, a Rússia (que entrou para a Igreja em 988 d.C.) sofreu influência ocidental quando Pedro, o Grande, “ocidentalizou” a Igreja ao abolir o Patriarcado de Moscou em 1721. Ele o substituiu pelo Santíssimo Sínodo Governante, um “colégio espiritual” burocrático modelado segundo os sínodos luteranos controlados pelo Estado. Ao subordinar a autoridade espiritual à coroa imperial, Pedro alimentou a suposta ideologia da “Terceira Roma”, contribuindo diretamente para a atual disputa entre Moscou e Constantinopla sobre a Ucrânia. Essa subordinação imposta pelo Estado contrasta fortemente com a exceção moderna do Arcebispo Macário III de Chipre. Enquanto as reformas de Pedro buscavam burocratizar e controlar a Igreja de fora (ocidentalização), Macário entrou na brecha política como um etnarca para proteger seu povo internamente. Ele permanece um exemplo singular de um líder que assumiu o fardo da governança secular não para ocidentalizar a Igreja, mas sim para preservar a própria sobrevivência do singular vaso helênico sob a pressão dos conflitos coloniais e geopolíticos.
2 NOTA: O termo katholikē (καθολική = católico) reflete a fundação helênica da Igreja. O fato de os latinos terem posteriormente adotado esse termo específico como “seu” torna ambíguo para nossos membros até mesmo o que somos. Hoje, há uma grande necessidade de foco e atenção dentro da Igreja, apoiando-se na orientação de nossos bispos e sacerdotes, que permanecem enraizados nos Padres da Igreja.
Arquimandrita Christodoulos (Papadeas)
tradução de monja Rebeca (Pereira)







