“Aquilo que traz doçura é mais difícil de perceber do que aquilo que traz amargura”. Abadessa Arsênia
Estou lendo uma coleção de cartas da abadessa Arsênia, uma monja russa do século XIX que atuou como mentora espiritual de Pedro Brianchaninov, irmão de Santo Ignácio Brianchaninov. Santo Ignácio Brianchaninov é talvez mais famoso hoje em dia por seu livro: A Arena, no qual apresenta conselhos muito práticos e perspicazes para monges e qualquer pessoa zelosa por Deus que viva no mundo moderno — um mundo em grande parte desprovido de pais e mães espirituais portadores de Deus, como os que lemos em textos espirituais antigos. Por exemplo, Santo Ignácio escreve sobre a necessidade da liberdade e de discernimento na busca por adquirir a obediência – o que ainda é possível – mesmo sem um Ancião portador de Deus como Pai ou Mãe Espiritual. O livro Arena, especialmente a primeira parte “Conselhos para a Vida Espiritual dos Monges”, deve ser lido por todos aqueles que desejam alcançar uma vida espiritual na Igreja.
Hoje porém, quero refletir um pouco sobre Pedro, irmão de Santo Ignácio, e sobre alguns dos conselhos que recebeu de sua mentora espiritual, a abadessa Arsênia. Pedro não era monge (não até o final de sua vida), mas era uma pessoa devota que lutava pela piedade no mundo. A abadessa Arsênia era discípula de Santo Ignácio, irmão de Pedro, e em suas cartas ela parece interpretar algumas das ideias de Santo Ignácio de maneiras que seu irmão Pedro possa começar a aceitar e aplicar. Uma área específica em que a abadessa Arsênia aconselha Pedro é como ler, ou melhor, sobre como não ler livros espirituais.
Quando Pedro conta à abadessa Arsênia que está lendo Pedro de Damasco (um dos autores da Filocalia), ela lhe dá a seguinte repreensão e conselho: “Questiono se lhe será útil lê-lo por conta própria. Se o lesse simplesmente como se fosse a palavra de Deus — inacessível à nossa compreensão, interpretação e assimilação — então qualquer livro lhe seria inofensivo. Mas se você quer assimilar tudo e tomar à força; portanto, as palavras mais úteis tornam-se prejudiciais… É preciso conhecer os próprios limites e apegar-se à palavra que seja compatível com esse limite, o de uma pessoa sem conhecimento.”
Observe como a abadessa Arsênia fala sobre a maneira errada de ler textos espirituais. Trata-se justamente do modo como costumamos ler normalmente. Em geral, lemos supondo que aquilo que está escrito é plenamente acessível ao nosso entendimento e que somos capazes de interpretar e assimilar as informações por conta própria. Isso pode de fato acontecer se estivermos lendo qualquer coisa que não seja literatura espiritual. Quando lemos sobre ciência, filosofia ou qualquer empreendimento humano, esperamos compreendê-lo (se tivermos tido preparação e conhecimento suficientes na área). No entanto, a literatura escrita para falar à nossa mente espiritual, ao nosso noûs, é diferente. Ela não pode ser assimilada e compreendida, pois não foi escrita para assimilação ou compreensão. Em vez disso, foi escrita para nos iluminar e transformar, não para nos informar.
Quando lemos a literatura espiritual para assimilá-la e compreendê-la, então, como diz a abadessa Arsênia, “as palavras mais úteis tornam-se prejudiciais”. De uma forma ou de outra este ditado é comum entre os escritores espirituais da tradição cristã. Muitos Santos Pais e Mães da Igreja já destacaram antes que as palavras espirituais são como um remédio poderoso. Se usado de forma inadequada, o que foi concebido para curar acaba causando danos. Um opioide potente pode auxiliar na cicatrização quando usado corretamente. Usado de maneira imprópria, pode levar ao vício e à morte.
Como, então, devemos ler a literatura espiritual de forma que ela não nos piore em vez de nos melhorar? Devemos lê-la como a palavra de Deus. No entanto, hoje em dia a maioria das pessoas nem sequer lê a própria Bíblia como a palavra de Deus — pelo menos não da forma como a abadessa recomenda: que a leiamos como “inacessível à nossa compreensão, interpretação e assimilação”. A maioria de nós inclusive eu, tende a achar que devemos entender a Bíblia. Pensamos que com uma determinada aplicação podemos interpretar corretamente e até mesmo assimilar o que a Bíblia ensina. Ah, podemos até falar da boca para fora sobre o papel do Espírito Santo. Podemos dizer que somente Deus pode nos iluminar em relação às coisas espirituais. Porém não creio que a maioria de nós leia a Bíblia ou outros textos espirituais com a expectativa de compreendê-los dependendo totalmente de Deus para revelação e iluminação. Na verdade, lemos com frequência tentando compreender com nossa mente racional, partindo do pressuposto de que podemos entender se nos dedicarmos o suficiente; consequentemente, acabamos por pensar que entendemos de fato. E é assim que os textos espirituais se tornam perigosos.
Todo tipo de heresia e fundamentalismo violento não só é justificado, como também é alimentado por meras interpretações racionais de textos espirituais. E não me refiro a algo externo à minha própria alma. Não me refiro a grupos heréticos ou movimentos fundamentalistas (estes são apenas manifestações sociais do que acontece em cada alma humana). Refiro-me às heresias que surgiram em meu próprio coração, tentando encaixar em minha mente, verdades espirituais que apontam para realidades fora da ordem criada, verdades espirituais das quais até mesmo os maiores pensadores da Igreja só conseguiram falar apofaticamente. Quando tento compreender, por exemplo, a natureza da Trindade com minha mente racional, só posso acabar em heresia. Foi um dos Padres Capadócios, creio eu, que disse: “A Trindade é uma cruz para a mente”. É possível que os seres humanos conheçam Deus como três Pessoas, mas não é possível que a mente racional compreenda, interprete ou assimile isso. Da mesma forma, quando tento conciliar a justiça e a misericórdia de Deus ou tentar definir qualquer um dos mistérios da nossa fé de uma forma que eu possa entender, inevitavelmente acabo criando heresia.
A ideia de que compreendo assuntos espirituais também gera um fundamentalismo violento em meu coração. Esse fundamentalismo geralmente assume duas formas, ambas violentas (até mesmo assassinas). Quando acho que entendi, interpretei e assimilei corretamente os textos espirituais, costumo ficar triunfante ou desanimado. Eu me torno triunfante quando acho que consegui, quando penso que cobri todas as bases, que cumpri ou apliquei suficientemente o texto espiritual que acredito compreender. E quando triunfo, não me resta nada mais que julgar os outros. E esse julgamento acerca dos outros, pelo menos em meu próprio coração pecaminoso, geralmente me leva a condená-los por serem insensíveis demais, estúpidos demais, mundanos demais ou algo do tipo demais, para entender tão claramente quanto eu, aquilo sobre a qual estou julgando-os. Quando essa atitude triunfante toma conta do meu coração, eu facilmente descarto os outros e condeno aqueles que se colocam no meu caminho. Chego até a justificar o ódio.
Contudo, na minha experiência, o resultado mais mortífero do fundamentalismo violento não provém do triunfalismo, mas sim do desânimo. Quando acho que entendi, mas percebo que não compreendi totalmente, que não explorei todos os aspectos importantes, ou que não cumpri ou apliquei suficientemente o texto espiritual que penso compreender, então condeno e assassino a minha própria alma. Penso que estou excluído: indigno, então acho que sou rejeitado. Esse meu afastamento da misericórdia de Deus ocorre em grande parte porque acho que entendo. Vejo o quão distante estou deste ou daquele ensinamento da Igreja, quão miseravelmente incapaz sou de manter até mesmo a menor disciplina, e concluo com base na minha suposta compreensão destes ou daqueles textos, que sou rejeitado, que sou excluído (ou que devo me excluir) por estar fora do alcance da misericórdia de Deus.
São Paulo ensina como devemos ler textos espirituais e compreender qualquer assunto espiritual. Quando escreve aos Coríntios sobre a questão dos alimentos sacrificados aos ídolos (1 Coríntios 8:1,2), ele diz: “Quanto às carnes oferecidas aos ídolos, somos esclarecidos, possuímos todos a ciência… Porém, a ciência envaidece, o amor edifica. Se alguém pensa que sabe alguma coisa, ainda não conhece nada como convém conhecer.” O único conhecimento racional das coisas espirituais que não nos destrói é quando reconhecemos que não sabemos o tanto quanto deveríamos. Claro, existem informações e dados que podem ser conhecidos. Existem ensinamentos, dogmas e ditos de homens e mulheres santos que podem ser memorizados e compreendidos até certo ponto. Mas é somente ao reconhecermos que não sabemos como deveríamos, que nos mantemos a salvo da heresia ou do fundamentalismo violento. Quando não sabemos, então podemos ser iluminados — não para que possamos entender racionalmente, mas para que possamos ser transformados. Quando sabemos que não sabemos, então podemos amar até mesmo aqueles que discordam de nós. Quando sabemos que não sabemos, então podemos ser misericordiosos até conosco mesmos, confiando no amor e na misericórdia de Deus, e não em nossa própria capacidade de compreender, interpretar e assimilar os mandamentos de Deus ou os conselhos dos santos padres e madres da igreja.
Ler qualquer texto espiritual como a palavra de Deus significa ler partindo do pressuposto de que você vê apenas um pouco, percebe apenas um vago reflexo do que está sendo dito de fato. Ler um texto espiritual como a palavra de Deus significa que o fruto do Espírito deve guiá-lo, e não seu entendimento racional. Se uma palavra que você pensa entender não está produzindo o fruto do Espírito em você, então provavelmente você não a entende como deveria.
Sacerdote Michael Gillis
tradução de Frank Pereira







