O ícone “Não me toques” (em grego: Μη μου άπτου, Mi mou áptou) mostra a aparição de Cristo Ressuscitado a Maria Madalena, conforme descrito no Evangelho de João: “Disse-lhe Jesus: Não Me toques, porque ainda não subi para o Pai; mas vai aos Meus irmãos e dize-lhes: Subo para o Meu Pai e vosso Pai, para o Meu Deus e vosso Deus.” (João 20:17)
Ícones deste tipo surgiram pela primeira vez em Creta durante os séculos XV e XVI. Creta era governada pela República de Veneza desde o século XIII, sendo natural, portanto, que os cristãos ortodoxos que ali viviam estivessem expostos às influências católicas romanas de seus governantes. A composição encontrada nos ícones cretenses pode ser encontrada em obras de arte religiosa italiana anteriores, como as de Duccio (falecido em 1318) e Giotto (falecido em 1337).
A composição desta cena é posteriormente desenvolvida por Jacapo Bassano. Essas pinturas geralmente recebem o nome de Noli me tangere, a tradução usada nas Bíblias latinas para mi mou áptou em João 20:17. A versão de Giotto é significativa, pois apresenta um exemplo precoce de Maria Madalena com a cabeça descoberta, assim como ela aparece nos primeiros ícones cretenses do século XV.
Pode-se afirmar que representar santas com longos cabelos esvoaçantes não é comum na iconografia ortodoxa. Os motivos são numerosos:
– O uso de véus para mulheres é considerado um sinal de modéstia em muitas culturas ao longo da história e até hoje. Portanto, é apropriado mostrar Santa Maria também usando um véu.
– Relacionado ao ponto anterior, Santa Maria Madalena (e qualquer outra mulher judia descrita no Novo Testamento) usava um véu. Ícones que mostram Maria ou outras mulheres portadoras de mirra usando véus são, no mínimo, historicamente precisos.
– O apóstolo Paulo escreveu sobre as mulheres na igreja: toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta desonra a sua cabeça, pois é como se estivesse rapada (1 Coríntios 11:2-16). Como os ícones dos santos os mostram como são no Céu (observe também a auréola), é, portanto, espiritualmente – bem como historicamente – correto mostrar santas como Maria Madalena com a cabeça coberta.
No Ocidente, houve uma tendência a misturar os aspectos celestiais e carnais na arte religiosa, que começou por volta da época de Giotto. Durante o Renascimento, vemos santos com auréola pintados de uma forma terrena e fotorrealista, e a representação de Maria Madalena com o capuz jogado para trás, os longos cabelos esvoaçantes, estendendo a mão para o seu Salvador, é apenas um exemplo disso. Quaisquer que sejam as razões para a sua inclusão, os longos cabelos esvoaçantes de Maria Madalena nos ícones cretenses “Não me toques” são uma cópia direta da arte ocidental da época, trazida da Itália para Creta pela influência veneziana. Compare a pintura de Giotto ou Bassano com um ícone do século VII de Jesus Cristo aparecendo a Maria Madalena, do Monastério de Santa Catarina no Monte Sinai, a diferença é marcante.
Os venezianos influenciaram os iconógrafos gregos de Creta, mas estes interpretaram essa influência através das lentes das suas próprias tradições para criar o singular ícone “Não me toques”. No início do século XVII, Heraklion, a capital de Creta, abrigava 200 artistas em uma população total de apenas 20.000 habitantes. Essa alta proporção de pintores gregos garantiu uma explosão de iconografia ortodoxa durante esse período: a pintura “Noli me tangere” tornou-se o ícone “Mi mou áptou”.
Artistas cretenses viajavam muito, tanto para o leste quanto para o oeste, e assim a imagem “Não me toques” se espalhou para outras comunidades ortodoxas. O Monastério de Dionysiou, no Monte Athos, foi reconstruído em 1547 após um incêndio destruir os edifícios originais, e os principais afrescos da igreja foram pintados por um cretense chamado Tzortis. E qual é um dos afrescos encontrados lá?
A imagem de inspiração ocidental persiste nos ícones ortodoxos cretenses. Nele, Maria Madalena é representada com a cabeça descoberta ao centro, enquanto ao seu redor encontram-se cenas menores que a mostram com a cabeça coberta, à maneira tradicional ortodoxa! Claramente, o iconógrafo se inspirou em imagens mais antigas de Maria Madalena de ícones ortodoxos para as cenas menores e utilizou pinturas de Maria Madalena com influência italiana para a cena central. À esquerda do ícone, há uma cena que lembra muito a composição do ícone do Monte Sinai do século VII.
O ícone também chega à Rússia, onde o tipo de ícone é chamado de “A Aparição do Salvador a Maria Madalena” (Явление Спасителя Марии Магдалине), embora seja incomum. Versões modernas deste ícone, geralmente gregas, tentaram “recobrir” a cabeça de Maria Madalena, como por exemplo o ícone do Metochion de Simonos Petras no Monastério da Anunciação da Theotokos em Ormylia, Chalkidiki (c. 1985):
É apropriado que Maria Madalena, honrada com o título de “Apóstola dos Apóstolos”, seja representada com a cabeça coberta, assim como outras santas ortodoxas. Contudo, a força da fé ortodoxa não reside na sua resistência à influência “externa”, mas na sua capacidade de avaliar todas as coisas à luz do cânone da Verdade, mantendo o que é correto e rejeitando o que não é. O ícone de Maria Madalena e Cristo “Não me toques” veio do Ocidente, de uma Roma pós-cisma, assim como muitas outras coisas. Nem todas foram acolhidas e preservadas com entusiasmo. A tradição dessa imagem foi uma das que foram. É uma imagem que entrou na Ortodoxia e foi filtrada pela antiga Tradição, desenvolvendo-se em um ícone ortodoxo único, distinto do seu protótipo ocidental.
A Reader’s Guide to Orthodox Icons
tradução de monja Rebeca (Pereira)






