
XÊNIA, A ANDARILHA SEM LAR
Xênia nasceu na Rússia no século XVIII e viveu uma vida confortável. Casou-se com um coronel imperial chamado Andrei, e eles eram bem de vida; parecia estar felizmente casada e completamente devotada ao marido, que era um pouco mundano. Ele ainda era jovem e estava com boa saúde quando morreu subitamente certa noite em uma festa regada a bebida.
A morte inesperada de seu amado marido despedaçou completamente todo o seu mundo. Ela tinha vinte e seis anos e não tinha filhos. A viúva enlutada olhou ao redor para todos os seus bens, para o seu pequeno mundo sem sentido, e de repente começou a perceber a vaidade desta vida temporária e de suas alegrias vazias. Para total espanto de seus amigos e parentes, Xênia começou a dar tudo o que possuía. Seu dinheiro e seus pertences pessoais ela deu aos pobres, e sua casa entregou a uma amiga. Por fim, seus parentes decidiram que ela havia perdido completamente o juízo e a consideraram mentalmente desequilibrada.
Tendo percebido que não pode haver verdadeira felicidade neste mundo e que as posses são apenas um obstáculo para alcançar a verdadeira paz em Deus, ela desapareceu subitamente por oito anos. Foi nesse período que Xênia foi chamada ao mais alto feito da perfeição espiritual — o da “loucura por amor a Cristo”. Um “louco por Cristo” parece totalmente insano segundo os padrões do mundo, quando na verdade alcançou um alto estado de perfeição que está além deste mundo. No “louco” há uma compreensão perfeita da vida e da morte, do bem e do mal, do amor e do ódio. Há uma reconciliação completa com Deus, enquanto o mundo chama isso de loucura.
Xênia retornou à sua cidade natal vestida com o antigo uniforme de seu marido falecido e respondia apenas pelo nome dele. Até sua morte, as pessoas a chamavam de Andrei. Era como se ela tivesse assumido uma vida de virtude oculta não apenas por si mesma, mas também por seu marido, que havia morrido embriagado. Lamentando os erros dele e as próprias imperfeições, ela começou a vagar pelas ruas da área mais pobre de São Petersburgo. Onde quer que fosse, as pessoas a perseguiam e zombavam dela, e em algumas ocasiões atiravam pedras. No entanto, com total mansidão e paciência, ela mantinha diante dos olhos de sua alma a imagem de Cristo, que sofreu sem murmurar, ouviu todas as acusações, suportou todas as perseguições e sofreu a tortura e a crucificação. Seguindo o exemplo de Deus, ela suportava todas as dificuldades com alegria e silêncio, dizendo apenas: “Deus os perdoe, pois não sabem o que fazem”.
Aqueles que sentiam pena de Xênia lhe davam algumas moedas ou algumas roupas, mas ela, em seu amor altruísta pela humanidade, virava-se e dava tudo o que havia recebido, não deixando nada para si mesma. Ela encontrava prazer em seu sofrimento, pois na pobreza possuía a maior das riquezas. Por meio de sua vida secreta de oração, obteve o tesouro ilimitado da comunhão com Deus. Assim, foi-lhe concedido o dom da percepção sobrenatural. Ela podia ver o futuro como se fosse o presente, podia ver os corações e os pensamentos daqueles que encontrava. Às vezes, Deus lhe revelava a aproximação da morte de alguém, para que pudesse adverti-los de antemão e a morte não os surpreendesse.
Certa vez, Xênia foi vista correndo ansiosamente pelas ruas frias e cobertas de neve, gritando em alta voz: “Assem panquecas! Assem panquecas! Em breve toda a Rússia estará assando panquecas!”. Embora seja um costume russo assar panquecas como memorial pelos mortos, como de costume ninguém conseguiu entender o significado dessas palavras estranhas. Poucos dias depois, a Imperatriz foi encontrada morta; então compreenderam as palavras estranhas da profetisa Xênia.
As pessoas começaram gradualmente a aceitar seu comportamento estranho como algum tipo de sinal de Deus, e muitas vezes seu comportamento era de fato estranho. Em outra ocasião, Xênia foi vista chorando dia e noite. Quando alguém lhe perguntou por quê, ela apenas respondeu: “Há sangue! Há sangue! Há um rio de sangue ali!”. E começou a chorar ainda mais. Ninguém conseguia entender o que agitava a normalmente pacífica Xênia, e ninguém conseguia compreender o significado de suas palavras assustadoras. Poucos dias depois, ocorreu um assassinato sangrento; suas lágrimas haviam dado testemunho disso antes mesmo de acontecer.
Ela não possuía absolutamente nada além dos trapos que vestia. Muitas vezes, ao chegar à casa de um amigo, anunciava alegremente: “Aqui está tudo o que eu sou!”. Por muito tempo, ninguém sabia onde Xênia passava as noites. Certa noite, a polícia local a seguiu e descobriu que ela passava as noites em um campo aberto, rezando durante toda a noite, em qualquer tipo de clima.
Finalmente chegou o tempo em que Xênia já não podia mais ser encontrada nem nas ruas nem no campo. Seu rosto radiante já não brilhava entre as favelas e os becos pobres de São Petersburgo. Assim, mais uma amante da verdade viveu e morreu por Deus enquanto o mundo chamava isso de loucura.

MONGE PAÍSIOS VELICHKOVSKY
Paísios Velichkovsky nasceu em uma aldeia da Rússia no século XVIII. Desde a mais tenra juventude, Paísios amava a pureza e a simplicidade e se destacava entre todas as outras crianças de sua idade. A partir da leitura das vidas dos Santos, começou a nascer em sua alma um zelo por abandonar o mundo e tornar-se monge.
Na adolescência, foi enviado a Kiev para estudar, e ali continuou lendo e imitando as vidas dos Santos, perdendo completamente o interesse pela escola secular. Como estava negligenciando totalmente os estudos, o superior da escola exigiu uma explicação. Paísios, que normalmente era manso e tímido, respondeu com ousadia, dizendo:
A primeira razão é que tenho a intenção de me tornar monge e, percebendo a incerteza da hora da morte, desejo tornar-me monge o mais rápido possível. A segunda razão é que, do aprendizado exterior, não vejo nenhum benefício para minha alma, ouvindo apenas os nomes de deuses pagãos e de “homens sábios”. Aprendendo sabedoria com eles, as pessoas de hoje tornaram-se completamente cegas e se afastaram do caminho reto; pronunciam palavras elevadas, mas por dentro estão cheias de trevas e obscuridade, e toda a sua sabedoria está apenas na língua. Não vendo benefício em tais ensinamentos e temendo que eu mesmo fosse corrompido por eles, abandonei-os.
Vendo que o jovem Paísios estava inabalável em sua decisão, o Superior o puniu impiedosamente.
Tendo tal zelo para se tornar monge, ele derramou muitas lágrimas e orou a Deus, pedindo que o instruísse no caminho correto. Então sua alma foi inflamada com o amor pela peregrinação. Ele deixou a escola e a cidade e passou a vagar, triste de alma, como um pobre estrangeiro, buscando sua pátria celestial. Caminhando de mosteiro em mosteiro e conversando com santos anciãos e monges, decidiu então entrar em um mosteiro.
Logo percebeu que aquele não era o lugar certo para ele, pois havia se corrompido com hipocrisia, e ele desejava a essência pura de uma vida monástica incorrupta e sem hipocrisia. Assim, continuou sua busca por um mosteiro e por um diretor espiritual que lhe ensinasse a purificar sua alma. Novamente vagou sem sucesso, triste de coração, mas ao menos agora era monge.
Em suas buscas e peregrinações, soube da profunda tristeza de sua mãe por ele ter se tornado monge. Ela não comia nem dormia e apenas lamentava dia e noite, destruindo a própria vida. Então uma voz lhe veio e disse: “Ó miserável! O que fizeste? Em vez de amar o Senhor teu Criador com todo o teu coração e alma, amaste mais a criatura dele, teu filho, do que o teu Criador; e por causa desse teu amor insensato e negador de Deus escolheste matar-te pela fome, e por isso cair em condenação eterna. Deves imitar teu filho e também renunciar ao mundo e a tudo o que há no mundo e tornar-te monja. Tal é a vontade de Deus.” Imediatamente ela foi a um mosteiro feminino e recebeu a tonsura como monja, vindo pouco depois a morrer em paz de alma.
Vagando em busca de um pai espiritual que pudesse ensiná-lo sobre a vida espiritual invisível, ele viajou por toda a Rússia meridional e pela Valáquia. Acabou chegando ao Monte Atos, na Grécia, a pequena república isolada de monges cercada pelo Mar Mediterrâneo. O Monte Atos, a terra sagrada de muitos mosteiros, mostrou-se um bom lugar para encontrar sua consolação espiritual. Ele desejava um pai espiritual avançado na vida monástica, bem versado nas Escrituras e nos ensinamentos dos Santos Padres, que vivesse sozinho em silêncio e pobreza, a quem pudesse entregar-se em obediência para o benefício da alma. Mas ainda estava completamente só.
Encontrando uma pequena cela para habitar, iniciou uma vida severa de privações em jejum, fome, sede, oração e lágrimas. Suportou muitas provações de sofrimento na alma e no corpo. Quanto ao jejum, comia apenas pão seco com água em dias alternados. Sua pobreza era extrema; não possuía sequer uma veste limpa, mas usava todos os dias a mesma roupa suja e remendada.
Em seu amor pela verdade, copiava à mão muitos dos livros dos Santos Padres sobre a vida espiritual. Ao copiar os livros, trabalhava deliberadamente em pé diante de um púlpito, para não cochilar nem perder a concentração. Dessa forma, desenvolveu uma profunda compreensão da vida espiritual. Ainda sem pai espiritual, começou a perceber que o pai espiritual que buscava já havia sido encontrado; encontrara-o nos Santos antigos, por meio de seus escritos.
Depois de algum tempo passado assim, veio até Paísios, em sua reclusão, um jovem monge chamado Bessarion, que desejava viver com ele e buscava seu conselho na vida espiritual. Paísios lhe respondeu:
Irmão! Obrigas-me a dizer algo triste e renovas a dor do meu próprio coração; pois eu também, com muito esforço e sofrimento, busquei um instrutor e não encontrei nenhum. Quando Cristo foi conduzido ao deserto, Ele repeliu Satanás por meio do jejum, da humildade, da pobreza, da vigília e da oração; e o enfrentou com as divinas Escrituras; e colocou a coroa dessa vitória sobre a cabeça da nossa natureza, ensinando-nos assim como fazê-lo e concedendo-nos poder para vencê-lo. Portanto, aquele que segue o seu Senhor por meio dessas coisas, com humildade e amor, e aceita d’Ele a missão de cuidar de outras almas e instruí-las em Seus mandamentos, recebe também do Senhor, por causa de sua humildade, o poder de vencer todas as paixões.
O monge Paísios deixou claro que, como não podia encontrar instrutores experientes na vida espiritual, deveria buscar a Cristo, o maior dos mestres espirituais — o próprio Deus.
Os jovens monges Paísios e Bessarion viveram e cresceram juntos, tendo unidade de alma em todas as coisas. Estabeleceram para si a regra de serem obedientes um ao outro em tudo, para aprenderem a cortar a própria vontade e assim alcançar somente a vontade de Deus.
Mas não viveram por muito tempo uma vida tão tranquila, doce em Deus e consoladora para a alma. Outros irmãos começaram a vir do mundo, buscando um mosteiro sem hipocrisia, com uma verdadeira vida comum. Assim, no deserto surgiu uma cidade, uma comunidade de monges que escolheram o monge Paísios como seu instrutor. Outrora Paísios buscara um instrutor na vida espiritual, mas agora ele próprio se tornara um instrutor, guiando e protegendo seu grupo de monges.
Devido ao grande número de irmãos que se reuniram em torno do monge Paísios, ele decidiu fundar outro mosteiro na Romênia. Levando alguns de seus discípulos, estabeleceu-se em uma região selvagem e isolada da Moldávia, no norte da Romênia.
À medida que esse novo mosteiro crescia, aumentava também o trabalho abnegado de Paísios. Ele passava as noites em oração, chorando e rezando por seus filhos espirituais e copiando à mão os escritos dos Santos Padres. Com mais monges, mais textos espirituais raros eram copiados pelos irmãos habilidosos em caligrafia. Foi por causa desses trabalhos abnegados do monge Paisius que o mundo recebeu a famosa coleção de escritos sobre a vida espiritual chamada Filocalia (O amor ao bem).
Enquanto continuava em seus trabalhos habituais, aproximava-se a separação da alma e do corpo. O dia de sua morte lhe foi revelado e, assim, começou a preparar-se para deixar este mundo e entrar no próximo. Morreu em idade avançada, tendo vivido uma vida agradável a Deus, de oração, silêncio e trabalho. Todos os seus monges sentiram ao mesmo tempo alegria e tristeza com sua partida, pois sabiam que ele era um Santo de Deus, mas também se sentiam órfãos. Assim terminou a vida de mais um amante da verdade, que por causa desse amor nunca morreu verdadeiramente, mas continua vivo.

MONGE GERMANO DO ALASCA
Na Rússia do século XVIII viveu um jovem chamado Germano, que desejava uma vida em Deus mais do que qualquer coisa neste mundo passageiro. Esse jovem determinado, aos doze anos de idade, entrou em um mosteiro. O pai espiritual dos monges era o conhecido Ancião Teodoro de Sanaxar, amigo do monge Paísios.
Certo dia, algumas pessoas estavam na floresta colhendo cogumelos quando se depararam com uma pequena cabana. Da cabana saiu um menino — em idade tão jovem, Germano já vivia na natureza selvagem e deserta da Rússia. Com todo o seu ser, Germano amava o silêncio do ermo, pois era ali que encontrava Deus.
Ainda muito jovem, Germano chegou perto da morte por causa de uma infecção perigosa e dolorosa. Em estado miserável, esperando morrer, não procurou um médico terreno, mas trancou-se em sua cela e, com profunda oração e lágrimas, implorou pela cura. Depois de rezar durante toda a noite, caiu exausto e dormiu no chão. Quando acordou pela manhã, encontrou-se em perfeita saúde. Essa visitação de Deus ele guardou como um tesouro pelo resto de sua vida.
Após muitos anos na vida monástica simples, o monge Germano mudou-se para o grande e famoso mosteiro de Valaam, localizado em uma ilha em um lago. Naquela época, o abade de Valaam era o justo Ancião Nazário. Ele instruiu Germano na vida espiritual e o acolheu como um pai acolhe seu filho. Nazário dizia ao jovem Germano:
Um monge deve infalivelmente ser cumpridor de todos os mandamentos do Senhor, imitador do estado e da ordem dos anjos, conhecedor de Deus e ter amor por Ele e pelo próximo. Um monge deve, em tudo, apegar-se às palavras de Deus e não dar a mínima atenção à voz do vício. Um monge deve ter a mente iluminada do alto, o corpo incontaminado, a boca inclinada ao silêncio, a língua pura. Um monge deve ter a lembrança da morte e o afastamento do mundo. Assim deve ser um monge; e tal é o fundamento que ele deve lançar para o cumprimento de seus votos, a fim de oferecer a Deus não apenas dons de trabalhos visíveis, mas também sacrifícios da alma e do espírito.
Os conselhos de Nazário e seu amor paterno encheram o jovem monge Germano de um zelo ardente; e, vendo isso, Nazário permitiu que ele vivesse sozinho no deserto. Esse caminho de reclusão e desapego do mundo é apenas para alguns poucos monges escolhidos, capazes de suportar uma vida tão difícil e solitária. O monge Germano era um desses poucos.
Depois de muito trabalho e luta na solidão, sua vida de reclusão chegou ao fim quando o Ancião Nazário lhe perguntou se ele se voluntariaria para ir a uma terra distante para realizar trabalho missionário. Junto com outros sete monges, ele se ofereceu para assumir o trabalho abnegado de deixar sua pátria a fim de ajudar um povo sofredor de outra terra. Eles estavam indo para a América.
Em 1794, o pequeno grupo de monges chegou à parte noroeste da América, chamada Alasca. Depois de lutar pela própria vida na natureza selvagem da Sibéria e sobreviver à perigosa viagem marítima, deram início às suas jornadas missionárias e viajaram por todo o Alasca. Aprendiam os costumes e as línguas dos nativos e viviam entre eles, sem se colocarem acima deles.
Como muitas das tribos nativas eram extremamente violentas, os monges ensinaram aos nativos a paz e a compaixão. Ensinaram-lhes a tão esperada verdade de Cristo, que os povos nativos acolheram sem hesitação. Aceitaram Cristo de modo tão natural porque estavam aguardando a revelação da plenitude da verdade, que ainda não havia se manifestado na terra. Reconheceram essa verdade em Cristo.
Enquanto os outros monges continuavam suas viagens, o monge Germano estabeleceu-se em uma pequena ilha perto de Kodiak chamada Ilha Spruce. Ele começou a viver como havia vivido na região selvagem de sua Rússia natal, como um eremita. O monge Germano encontrou um lugar adequado na floresta coberta de musgo e construiu uma moradia de terra, usando como modelo a barabara nativa. Ele chamou seu novo lar de “Nova Valaam”, em referência ao mosteiro de sua terra natal, pois sentia muita saudade de casa.
Ali, na floresta, completamente sozinho na pequena ilha, ele rezava, jejuava e vivia em paz e silêncio. Vivia em seu próprio mundo de Santos e anjos e derramava muitas lágrimas de amor por Deus. Os nativos, vendo seu modo de vida abnegado e portador de Deus, passaram a amá-lo profundamente e vinham até ele para visitá-lo e ouvir suas histórias sobre a Rússia e sobre a vida dos Santos e dos justos.
No Alasca, naquele tempo, muitos russos chegaram e se estabeleceram com a intenção de lucrar às custas dos nativos. Esses colonos, gananciosos e violentos, viam o monge Germano como um obstáculo e decidiram atormentá-lo. Frequentemente o assediavam por ele defender os nativos e dar o exemplo de uma vida piedosa. Fizeram muitas tentativas de assustá-lo para que fosse embora, mas, sabendo que era necessário ali, ele suportou tudo com nobre coragem.
Germano viu que havia muitas crianças órfãs e ilegítimas entre os nativos, então começou a levá-las para sua ilha deserta para cuidar delas como um verdadeiro pai. Ele tinha o cuidado de alimentar tanto seus corpos quanto suas almas — assim, assava para elas pretzels e tortas de salmão e as educava no conhecimento de Deus. Ele era o único protetor delas.
Em uma carta a Sergius Yanovsky, o governador das colônias russas que tratavam os nativos de forma tão terrível, o monge Germano escreveu: Eu, o mais humilde servo dos povos locais, estou diante de vós com lágrimas de sangue e escrevo o meu pedido: sede um pai e um protetor para nós! Enxugai as lágrimas do monge Germano junto à sua morada meio subterrânea na Ilha Spruce. Órfãos indefesos, arrefecei o ardor da tristeza em corações que se derretem, concedei-nos conhecer o significado da consolação.
O monge Germano viveu uma vida totalmente abnegada, não apenas criando órfãos, mas também observando fielmente suas regras monásticas de jejum, oração e silêncio. Usava as mesmas roupas no inverno e no verão, suportando os extremos severos da natureza. Vestia apenas um colete de pele de veado sobre o hábito, sem tirá-lo nem trocá-lo por oito anos. Dormia em um caixão para que estivesse sempre lembrado da morte, e usava duas pedras como travesseiros, escondidas sob uma pele de veado, de modo que os visitantes não as percebiam. Comia muito pouco e desgastava o corpo por meio de seu modo de vida austero, rejeitando todos os confortos deste mundo que desviam a atenção de Deus. Para aquietar os movimentos da carne e assumir sobre si mais sofrimento, usava cerca de sete quilos de correntes com uma pesada cruz de metal presa a elas. Ninguém viu as correntes durante sua vida, pois ele as escondia sob as roupas — era o seu segredo com Deus.
A maior parte do tempo era passada em sua pequena cabana, rezando em silêncio, como faz um monge. Certa vez alguém lhe perguntou: “Como o senhor consegue viver sozinho na floresta? Não fica entediado?” Ao que o ancião respondeu: Não, eu não estou sozinho aqui. Há Deus, e Deus está em toda parte! Há santos anjos! Como alguém pode se entediar com eles? Com quem é mais agradável e melhor conversar, com anjos ou com pessoas? Com os anjos, é claro!
Sérgio Yanovsky, que era o governador das Colônias Russas, começou a visitar o ancião Germano para conversar com ele. A respeito desses encontros, Sérgio escreveu: Eu era bem instruído, conhecia muitas ciências e havia lido muito. Mas a lei de Deus eu mal compreendia. Eu era um livre-pensador, um deísta. Quando conversei com Germano, para minha admiração, ele falava com tanta força e sensatez que me parecia que nenhuma instrução nem sabedoria terrena poderia resistir às suas palavras. Falamos sobre o amor de Deus, sobre a eternidade, sobre a salvação da alma e sobre a vida cristã. Assim fui transformado e convertido ao caminho da verdade. Mais tarde, esse mesmo Sérgio tornou-se monge e conduziu três de suas filhas e seu filho à vida monástica também.
Certa vez, o ancião foi convidado a subir em um barco que havia vindo de São Petersburgo. A bordo estavam o capitão e cerca de vinte e cinco oficiais, todos homens bem instruídos enviados por ordem imperial. Entre eles sentava-se esse monge de pequena estatura, com uma veste antiga, que por meio de sua sábia conversa levou todos os ouvintes a tal estado que não sabiam como lhe responder. O monge Germano fez a todos uma pergunta: “O que os senhores amam acima de tudo, e o que cada um desejaria para a sua felicidade?” Um desejava riqueza, outro glória, outro uma bela esposa. “Não é verdade”, disse o ancião, “que todos os vossos diversos desejos podem ser reduzidos a isto — que cada um deseja aquilo que, em seu entendimento, considera melhor e mais digno de amor?” “Sim, é assim”, responderam todos. Então o ancião disse: Pois bem, dizei-me: pode haver algo melhor, mais elevado, acima de tudo, superior a tudo e, em geral, mais digno de amor do que o próprio Senhor Jesus Cristo, que nos criou, nos adornou com tantas perfeições, deu vida a todos, sustenta a todos, alimenta e ama a todos, sendo Ele mesmo o Amor e mais excelente do que todos os homens? Não deveríamos então amar a Deus acima de tudo e, mais do que tudo, desejá-Lo e buscá-Lo?
Eles responderam: “Pois é, sim! Isso é compreendido! Isso fala por si mesmo!” O ancião então perguntou: “E vós amais a Deus?” Todos responderam: “Claro que amamos a Deus. Como não amar a Deus?” Então o monge Germano disse: “E eu, pecador, há mais de quarenta anos venho me esforçando para amar a Deus e não posso dizer que O ame perfeitamente.” E começou a lhes contar como se deve amar a Deus:
Se amamos alguém, pensamos sempre nele, esforçamo-nos para agradá-lo; dia e noite o nosso coração está ocupado com essa pessoa. É assim que vós, senhores, amais a Deus? Voltai-vos frequentemente para Ele, pensais sempre Nele, rezais sempre a Ele e cumpris os Seus santos mandamentos? Para o nosso bem, para a nossa felicidade, ao menos façamos uma promessa a nós mesmos: que, a partir deste dia, desta hora, deste minuto, nos esforçaremos por amar a Deus acima de tudo e cumprir a Sua santa vontade!
Houve casos em que o monge Germano falou de modo profético. Em certa ocasião, o ancião Germano disse que um dia um monge como ele, fugindo da glória mundana, se estabeleceria na Ilha Spruce. Sua profecia se cumpriu quando um hieromonge chamado Gerasim mudou-se para o ermo abandonado do “Novo Valaam” do monge Germano. Esse monge, seguindo o costume ortodoxo, desenterrou o caixão do ancião Germano, colocou seus ossos em um novo caixão e os levou para uma pequena igreja, como recordação da proximidade dos santos no outro mundo.
Sem o menor temor dos poderosos, o monge Germano trabalhou para Deus com todo o seu zelo até a morte. Pouco antes de morrer, disse profeticamente a um de seus órfãos: “Neste lugar haverá um mosteiro com o tempo.” Na ocasião, sua afirmação pareceu obscura, pois ele vivia em uma ilha deserta, mas cento e cinquenta anos depois sua profecia se cumpriu, pois um mosteiro foi fundado em sua Ilha Spruce, na Lagoa dos Monges, para realizar o seu desejo.
Então aproximou-se o tempo de o monge Germano deixar este mundo. Ele pediu a um de seus órfãos que acendesse uma vela e lesse as Santas Escrituras, dos Atos dos Apóstolos, enquanto jazia em seu leito de morte. Através das lágrimas em seus olhos, seus amados órfãos contemplavam o rosto de seu pai, que brilhava suavemente na escuridão da noite.
St. Herman of Alaska Brotherhood
Tradução do Diácono André Souza






