HOMILIA POR OCASIÃO DO DOMINGO DAS PORTADORAS DE AROMAS

Padre Spiridon Chasse

Em Nome do Pai, do Filho e Espírito Santo.

Vossa Eminência Reverendíssima, Sayidna Theodore; reverendos padres Nektários e Simão; reverendos subdiáconos; Irmã Justina, membros do coro, caríssimos irmãos e irmãs em Cristo.

Hoje comemoramos o Domingo das Portadoras de Aromas e o Evangelho lido antecipa o chamado universal de toda a Igreja: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho à toda criatura” (Marcos 16:15).

Observem que as mulheres receberam duas orientações juntamente com o anúncio da ressurreição:

1)             Não temam;

2)             Ide anunciar.

E o que elas fazem? Justamente o contrário: “E não disseram nada a ninguém, pois estavam com medo.”

Isso é preocupante porque descreve um padrão de comportamento nosso ainda hoje. Dizemo-nos cristãos ortodoxos, mas ou não estamos na Igreja (onde deveríamos estar como partes do Corpo Místico de Cristo) ou deixamos as santas práticas para trás assim que cruzamos a porta da rua.

Falamos de viver com fé, família e Ortodoxia aqui dentro, mas lá fora queremos ser como os do mundo porque temos medo de passar vergonha ao testemunhar o Cristo Ressuscitado vivendo em nós. Pensamos em Deus como uma ideia discursiva que não cabe em todo lugar e silenciamos o anúncio da ressurreição porque temos mais medo de perder as glórias efêmeras do mundo do que de perder o Reino dos Céus.

Damos mais valor às opiniões vagas e fluidas das pessoas ao nosso redor na sociedade do que ao julgamento de Deus.

Ser ortodoxo não é viver de aparência na frente do bispo ou do padre. É viver o tempo todo na presença de Deus, conduzidos pelo Espírito Santo. E quem, sendo parte do Corpo de Cristo [a Igreja], não está em comunhão com a vida da Igreja se perde nas vagas do mundo e, algumas vezes, deixa de receber injustificadamente a graça dos Santos Mistérios que nos nutrem para a Vida Eterna.

Mas isso requer coragem e decisão lúcidas. Muito pouco aqui se inicia com emoção [ela até está presente, como sinal vivo da ação transformadora de Deus em nós, mas não é um fim em si mesma]. A Igreja está aqui como hospital para pecadores, não como posto de abastecimento para viciados em dopamina espiritual, de onde se sai tão mal quanto entrou, mas acreditando ser “mais que vencedor” só porque sentiu comoção.

Por nossa própria inclinação e vontade, queremos o entorpecimento das sensações e a dopamina viciante dos prazeres mundanos. O diabo se apoderou de termos sagrados para vender dopamina como se fosse o Espírito Santo. Há casos em que iludidos saem dessas casas entorpecidos, orgulhosos de seu estado emocional incoerente e sem nenhuma transformação real que os cure do pecado e da morte espiritual. Saem alegres para voltar ao pecado, acreditando que nada do que vivem lá fora os fará perder o Reino dos Céus.

Viver lá fora em coerência com o que diz acreditar aqui dentro da Igreja é o maior desafio que nós temos. E o maior ato de rebeldia e liberdade que podemos exercer no mundo. Enfrentar o medo da reprovação social pelo que é santo; criar nossos filhos na lucidez e valores do Evangelho e longe das insanidades do mundo exige coragem.

Grandes exemplos disso foram São José de Arimatéia e São Nicodemos, que deixaram suas posições confortáveis na sociedade em que viviam (ambos membros ilustres do Sinédrio) para agir como legítimos seguidores de Cristo.

Eu sei! O medo bate; a boca se fecha sozinha, língua parece que cola no céu da boca, as pernas se tornam como feitas de chumbo e, quando notamos o momento de ser corajoso passou.

É difícil para nós e, com certeza, deve ter sido também para São José de Arimatéia. Mas o Evangelho diz que ele “entrou com coragem na casa de Pilatos e pediu o corpo de Jesus”. Do mesmo modo, São Nicodemos, um governante dos judeus e membro proeminente do Sinédrio, descrito até no Talmud como um homem santo, popular e conhecido por seus milagres, também precisou respirar fundo e tomar a decisão de viver como cristão.

Na posição social deles, era tentador se calar e não fazer nada. Se não o tivessem feito, outros o fariam. A mesma lógica se aplica a mim e a vocês. Mas como justificar isso depois, diante de Deus? Diante do mesmo Deus que tomou sobre Si as nossas dores e pagou o preço do nosso resgate quando o castigo nos é merecido por nossos pecados. Será que, no dia do julgamento, nossos lábios também se fecharão e nossa língua colará no céu da boca diante do Divino Juiz? Ou vamos, ali também, preferir a aprovação dos homens?

E não temam quanto ao que dizer para anunciar o Evangelho, pois muitos dos que falam não são sinceros em seu modo de viver este mesmo Evangelho. Quando Cristo pergunta aos Santos Apóstolos “E vós, quem dizeis que eu sou?”, esta pergunta é bem mais profunda do que parece e encontramos a clareza do anúncio no texto aramaico do Evangelho segundo São Mateus:

אַנְתּוּן דֵּין מַן אָמְרִין אַנְתּוּן דְּאֲנָא

Antun dein, man amrin antun d’ana?

Enquanto os textos gregos de Mateus, Marcos e Lucas trazem λέγετε, o texto aramaico de Mateus evidencia uma dimensão já implícita no pensamento bíblico e muito mais existencial para nós: אָמְרִין.

Não é apenas “dizer”, “falar” ou “discursar”, mas “demonstrar”, “revelar” e “refletir algo no próprio agir”. No pensamento hebraico-aramaico, “dizer” é “agir” é “fazer algo”. Encontramos um exemplo disso em Isaías, quando o santo profeta revela que a palavra de Deus “não volta vazia, mas faz o que deseja”. Portanto, quando Jesus pergunta ao apóstolos “quem vós dizeis que eu sou?”, ele não pede apenas uma opinião verbal, mas uma demonstração de que a Metanóia está acontecendo e transformando o discípulo.

Pedro demonstrou e Cristo lhe outorgou nova identidade (Simão, tu és Pedro) e, imediatamente, recebeu ensinamentos sobre negar-se a si mesmo, tomar a sua cruz e seguir. Ou seja: a confissão (amrin) que não se traduz em vivência real de crucificação do ego não é verdadeira. Precisamos agir como cristãos ortodoxos. Vocês reconhecem que sou sacerdote não porque digo que sou, mas pelo que faço.

Os Santos Padres da Igreja (como São João Crisóstomo) frequentemente interpretavam essa passagem como: “Não basta dizer com os lábios; é preciso que a vida inteira demonstre quem Cristo é”.

É o nosso agir que revela a ação do Espírito Santo na Igreja e a Sua presença curadora e transformadora em cada um de nós. Palavras podem deixar rastros de dúvidas, mas atos não. E muitos abandonam a Cruz quando chega a hora de agir como cristãos ortodoxos.

E como viver a fé ortodoxa de forma coerente? O primeiro passo é vir à Divina Liturgia e participar da vida da Igreja com orações e jejuns prescritos, buscar um Pai Espiritual que nos ajude a trilhar este caminho, odiado pelo mundo. É a partir desse ponto que começamos a receber as ferramentas necessárias à nossa santificação e salvação, pois é da oração e dos Serviços da Igreja que decorrem todas as virtudes, e não o contrário porque somos todos pecadores e precisamos da misericórdia e da graça de Deus para mudarmos o sentido das nossas vidas.

Para um ortodoxo, dizer algo é se comprometer com aquilo.  O simples fato de dizer “eu sou cristão ortodoxo” nos compromete a sermos de Jesus Cristo e agir segundo a reta doutrina. Quando Jesus nos pergunta em nosso âmago “e vós, quem amrin que Eu sou?”, Ele está perguntando: “e vós, quem demonstrais pelo vosso modo de viver que Eu sou?” ou ainda “quando olham o seu modo de agir, veem a Mim ou interesses do mundo?”

Essa pergunta impactou os Santos Apóstolos, os Santos Padres, os Santos da Igreja e arrasa a todos nós. Mas não tenham medo! Todo processo de cura da alma e aperfeiçoamento envolve ascese e purificação. Tenham a coragem de se render ao Amor de Deus e à ação do Espírito Santo para que anunciem o Evangelho e o Cristo Ressuscitado com suas vidas; que cada gesto, palavra e olhar de vocês testemunhem que “Jesus ressuscitou dos mortos, pisando a morte com a morte e dando a vida aos sepultados porque Ele é o Cristo, o Filho do Deus Vivo.” Amém.


Sacerdote Spiridon Chasse

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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