EIS um novo e maravilhoso mistério.
Meus ouvidos ressoam com a canção do Pastor, não entoando uma melodia suave, mas cantando em plena força um hino celestial. Os Anjos cantam. Os Arcanjos unem suas vozes em harmonia. Os Querubins entoam seus alegres louvores. Os Serafins exaltam Sua glória. Todos se unem para louvar esta santa festa, contemplando a Divindade aqui na terra e o homem no céu. Aquele que está acima, agora, para nossa redenção, habita aqui embaixo; e aquele que era humilde foi elevado pela divina misericórdia.
Belém, neste dia, assemelha-se ao céu; ouvindo das estrelas o canto de vozes angelicais; e, em vez do sol, envolve em si, por todos os lados, o Sol da justiça. E não perguntem como: pois onde Deus quer, a ordem da natureza se submete. Pois Ele quis; Ele tinha o poder; Ele desceu; Ele redimiu; todas as coisas se submeteram em obediência a Deus. Neste dia, Aquele que É, nasceu; e Aquele que É, tornou-Se o que não era. Pois, quando era Deus, tornou-Se homem; contudo, sem Se afastar da divindade que lhe é própria. Nem por qualquer perda de divindade Se tornou homem, nem por acréscimo Se tornou Deus a partir do homem; mas, sendo o Verbo, fez-Se carne, permanecendo Sua natureza, por causa da impassibilidade, inalterada.
E assim vieram os reis, e viram o Rei celestial Que desceu à terra, não trazendo con´Sigo anjos, nem arcanjos, nem tronos, nem dominações, nem potestades, nem principados, mas, trilhando um caminho novo e solitário, Ele surgiu de um ventre imaculado.
Como este nascimento celestial não pode ser descrito, tampouco Sua vinda entre nós nestes dias permite uma análise muito minuciosa. Embora eu saiba que uma Virgem deu à luz neste dia, e creio que Deus foi gerado antes de todos os tempos, aprendi a venerar em silêncio a maneira como esta geração ocorreu, e aceito que não se deve sondar isso com palavras rebuscadas.
Pois com Deus não buscamos a ordem da natureza, mas depositamos nossa fé no poder d´Aquele Que age.
O que direi a vocês? O que lhes contarei? Vejo uma Mãe que deu à luz; vejo uma Criança vir a esta luz pelo nascimento. A maneira como foi concebida, não consigo compreender.
A natureza aqui repousou, enquanto a Vontade de Deus trabalhava. Ó graça inefável! O Unigênito, Que é anterior a todos os tempos, Que não pode ser tocado nem percebido, Que é simples, sem corpo, assumiu agora o meu corpo, visível e suscetível à corrupção. Por quê? Para que, vindo entre nós, nos ensinasse e, ensinando, nos conduzisse pela mão às coisas que os homens não podem ver. Pois, como os homens acreditam que os olhos são mais confiáveis do que os ouvidos, duvidam daquilo que não veem; e assim Ele Se dignou a mostrar-Se em presença corporal, para dissipar toda dúvida.
Cristo, encontrando o santo corpo e alma da Virgem, constrói para Si um templo vivo e, como desejara, formou ali um homem da Virgem; e, revestindo-O, veio à luz neste dia, sem se envergonhar da humildade da nossa natureza.
Pois para Ele não foi humilhação vestir o que Ele mesmo criou. Que essa obra seja para sempre glorificada, pois se tornou o manto do seu próprio Criador. Pois, assim como na primeira criação da carne, o homem não poderia ser feito antes que o barro chegasse às Suas mãos, também este corpo corruptível não poderia ser glorificado até que primeiro se tornasse a vestimenta do seu Criador.
O que direi? E como vos descreverei este Nascimento? Pois esta maravilha me enche de espanto. O Ancião de Dias tornou-Se uma criança. Aquele Que Se assenta no Trono sublime e celestial, agora repousa numa manjedoura. E Aquele Que não pode ser tocado, Que é simples, sem complexidade e incorpóreo, agora está sujeito às mãos dos homens. Aquele Que rompeu os grilhões dos pecadores, agora está preso pelas correntes de uma criança. Mas Ele decretou que a ignomínia se tornará honra, a infâmia será revestida de glória e a humilhação total será a medida da Sua Bondade.
Para isso, Ele assumiu meu corpo, para que eu me tornasse capaz de compreender Sua Palavra; tomando minha carne, Ele me dá Seu Espírito; e assim, Ele concedendo e eu recebendo, Ele prepara para mim o tesouro da Vida. Ele toma minha carne para me santificar; Ele me dá Seu Espírito para que Ele possa me salvar.
Venham, então, celebremos a Festa. Verdadeiramente maravilhosa é toda a história do Natal. Pois neste dia a antiga escravidão termina, o diabo é confundido, os demônios fogem, o poder da morte é quebrado, o paraíso é aberto, a maldição é removida, o pecado é retirado de nós, o erro é expulso, a verdade foi restaurada, a palavra da bondade se difundiu e se espalha por todos os lados, um modo de vida celestial foi plantado na terra, os anjos se comunicam com os homens sem medo, e os homens agora conversam com os anjos.
Por que isso acontece? Porque Deus agora está na Terra e o homem no céu; em todos os lados, todas as coisas se misturam. Ele Se fez carne. Ele não Se tornou Deus. Ele era Deus. Portanto, Ele Se fez carne, para que Aquele a quem o céu não continha, pudesse receber hoje em uma manjedoura. Ele foi colocado em uma manjedoura para que Ele, por Quem todas as coisas são nutridas, pudesse receber o alimento de uma criança de Sua Mãe Virgem. Assim, o Pai de todos os séculos, como uma criança no colo, aninha-Se nos braços virginais, para que os Magos possam vê-Lo mais facilmente. Desde aquele dia, os Magos também vieram e começaram a resistir à tirania; e os céus dão glória, assim como o Senhor é revelado por uma estrela.
A Ele, então, que em meio à confusão traçou um caminho claro, a Cristo, ao Pai e ao Espírito Santo, oferecemos todo o louvor, agora e para sempre. Amém.
São João Crisóstomo
tradução de monja Rebeca (Pereira)








