Sobre a alegria pascal e o Pentecostarion: A experiência de nossa família
Preservando a veste pascal da alegria
“Sempre me entristece esse declínio gradual da vida espiritual após a Páscoa. No início, há um crescimento da força espiritual à medida que nos aprofundamos na Grande Quaresma. Tudo dentro de mim se torna muito mais leve, puro e calmo na alma, com mais amor e orações mais profundas. Depois vêm os dias sempre extraordinários da Semana Santa, e então a alegria pascal. Mas então chega o sábado da Semana Luminosa da Páscoa, os portões do altar se fecham, como se as portas do céu estivessem trancadas, e tudo se torna mais difícil, a alma enfraquece, se torna frágil, preguiçosa, e todo esforço espiritual se torna difícil”, escreveu o Padre Alexander Elchaninov.
Como não se reconhecer nessas palavras? Ano após ano, a alegria pascal que brotava como uma primavera jubilosa e pura durante a Semana da Páscoa começa a literalmente desaparecer diante de nossos olhos… e então você percebe de repente: Meio do Pentecostes! E então o Apocalipse está logo ali.
Hora de fazer um balanço. Quantos dias a alegria da noite de Páscoa realmente permaneceu em meu coração? Será que eram mesmo apenas sete em quarenta?
Alegria como adoração a Cristo
No entanto, no Pentecostarion — uma coleção de textos litúrgicos da Páscoa ao Pentecostes — encontramos estas palavras surpreendentes:
“Os divinos discípulos, tendo visto a Vida de Cristo ressuscitado do túmulo, prostraram-se diante d´Ele com grande amor, retidão e alegria de alma.”
Descobrimos que, com a alegria pascal de nossas almas, adoramos a Cristo e, ao preservar e reacender a alegria de Sua Ressurreição, servimos a Cristo.
Além disso, o Triodion nos lembra: “Tendo chegado à festa da Ressurreição de Cristo, guardemos sinceramente os Seus mandamentos, para que possamos saudar dignamente a Sua Ascensão e receber a comunhão com o Espírito Santo.”
Assim, a plenitude de nossa alegria no dia da Santíssima Trindade e o grau de nossa participação na celebração da Descida do Espírito Santo dependem de quão reunidos, diligentes, sinceros e — sim, alegres! — passamos os dias da Páscoa.
Os textos do Pentecostarion — um guia espiritual para o dia
Mas como não perder essa alegria? Como evitar que ela se dissolva na rotina diária?
O Pentecostarion vem em nosso auxílio. É como uma bússola que nos mantém no caminho certo. Seus textos são permeados pela exultação na Ressurreição de Cristo. Eles não nos permitem cair na rotina, mas nos conduzem repetidamente à imensidão da Ressurreição de Cristo.
Hoje não é uma quinta-feira qualquer – é a quinta-feira do Domingo da Samaritana! Não é uma terça-feira tediosa – é a terça-feira do Domingo das Mulheres Miróforas.
Às vezes, um único texto do Pentecostarion pode:
encher você de vigor pascal;
iluminar você com alegria;
aquecer seu coração;
elevar, “tirar sua alma das mesquinharias, do desânimo e do peso terrenos”[1].
Passos Práticos: Como Fazer do Pentecostarion Seu Guia Diário
Em nossa família, praticamos uma regra simples. Durante o Tempo Pascal, lemos pelo menos um texto do Pentecostarion referente ao dia atual, todos os dias.
E então, procuramos extrair dele uma lição ou tarefa espiritual para o dia.
Por exemplo, para a semana entre o Domingo das Mulheres Miróforas e o Domingo do Paralítico, você pode usar os seguintes textos e tarefas:
6 Textos Selecionados do Pentecostarion
Segunda-feira – Cantem a Cristo!
“De manhã cedo, as Mulheres Miróforas viram Cristo e exclamaram aos apóstolos: ‘Verdadeiramente Cristo ressuscitou! Venham e cantem com Ele!'”
Hoje, me esforçarei para oferecer a Cristo cânticos fervorosos. Mas não me limitarei a cantar o Troparion Pascal. Cantarei a Cristo o dia todo com palavras, ações e pensamentos que Lhe sejam agradáveis.
Terça-feira – Com corações fervorosos, ofereçamos mirra
“Com corações fervorosos, as mulheres ofereceram mirra ao Salvador, regozijando-se ao ver o Anjo em luz, e pregando Deus a todos, proclamaram aos discípulos: Verdadeiramente, a Vida ressuscitou do túmulo de todos.”
Hoje, procurarei seguir o exemplo das mulheres que ofereceram mirra, levando mirra a Cristo. Primeiro, a mirra da oração sincera e fervorosa. Segundo, a mirra de uma atitude sincera e amorosa para com o próximo.
Quarta-feira – Sede ousados, povo!
“O inferno está morto, sede ousados, povo; Cristo, crucificado na Cruz, o destruiu e libertou seus prisioneiros.”
Hoje, me armarei com boa ousadia. Não cederei ao desânimo e à tristeza; cumprirei os mandamentos do Cristo Ressuscitado “com força, com zelo, com coragem e bravura”[2], em alegria espiritual.
Quinta-feira- Inclinemo-nos diante de Cristo com amor, justiça e alegria de alma
“Os discípulos divinos, vendo Cristo ressuscitar do túmulo, prostraram-se diante d’Ele com grande amor, justiça e alegria de alma.”
Hoje, esforçar-me-ei para passar o dia inteiro em sincera lembrança de Deus e de Sua Ressurreição. Responderei a todas as tentações: “Não trocaria a Páscoa de Cristo por nenhuma moeda de prata.” Isso se tornará “justiça”.
Sexta-feira – Seguindo o Caminho de Cristo
Dedicarei este dia ao autodiagnóstico espiritual. Que hábitos, que pecados, que paixões impedem minha caminhada inabalável com Cristo? Minha consciência e o Evangelho me darão a resposta. Concluirei o dia com sincero arrependimento e oração ao Médico celestial pela cura.
Sábado – Que o Teu Corpo e Sangue, ó Cristo meu Salvador, sejam para mim a vida eterna
“Tu, Salvador, Te encheste de fel por nossa causa e nos deste o Teu Corpo e o Teu Santíssimo Sangue como alimento e bebida para participarmos à Tua vida eterna.”
Refletirei sobre a íntima conexão entre a Eucaristia e a Páscoa. Compreenderei que os Santos Mistérios são a garantia da vida eterna e da minha participação na Páscoa de Cristo aqui e agora.
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[1] Hieromártir Gregório (Lebedev), Bispo de Shlisselburg.
[2] Venerável Paisios do Monte Athos.
Vladimir Shishkin
tradução de monja Rebeca (Pereira)







