Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Estamos atualmente no período entre a festa da Ascensão do Senhor e a festa da Santíssima Trindade; e gostaria de dizer algo que é relevante para ambas as festas. O profeta Isaías diz no capítulo 53 do seu livro que Ele — o Cristo que há de vir — foi ferido pelos nossos pecados, que tomou sobre os Seus ombros as nossas fraquezas e que pelas Suas feridas fomos curados. Quando pensamos no Cristo ressuscitado aparecendo aos Seus discípulos e dando-lhes as Suas mãos para tocarem, convidando o apóstolo Tomé a testar a realidade e a profundidade das feridas nas Suas mãos, pés e lado, tendemos a esquecer que, na Sua Ascensão, Cristo também carregou na Sua carne as feridas infligidas pelos nossos pecados; que de alguma forma incompreensível Cristo, não apenas ressuscitado, mas tendo ascendido ao céu e estando sentado em glória à direita de Deus Pai, carrega em Sua carne humana as feridas que o pecado humano infligiu. Ele ainda carrega nossa fragilidade humana sobre Seus ombros, e tanto a Ressurreição de Cristo quanto os terríveis dias de Sua Paixão estão agora, por assim dizer, consagrados no mistério do Deus Trino, a Trindade Santa, Incompreensível e Grande. Toda a tristeza do mundo, todo o pecado, toda a dor, todo o horror foram colocados sobre Cristo, e nem por Sua Ressurreição nem por Sua Ascensão em glória Ele os livrou. Cristo permanece o Cordeiro de Deus imolado antes da criação do mundo para a salvação do mundo.
Quando, no dia de Pentecostes, o dia que celebramos como o dia da Santíssima Trindade, Ele envia Seu Espírito Santo sobre Seus discípulos, sobre Seus Apóstolos, sobre a Igreja e sobre o mundo inteiro, Ele o envia, por assim dizer, de forma dupla. Por um lado, somos o Corpo de Cristo, vivo, trêmulo, torturado e ferido ao longo dos séculos, carregando em nós, como diz São Paulo, as chagas do Salvador, cumprindo em nós o que faltou nas dores terrenas e no sofrimento físico de Cristo; pois, século após século, a Igreja é chamada a ser o Corpo de Cristo que se quebranta pelos pecados dos homens, quebranta-se para a salvação da humanidade. E porque somos esse Corpo, por mais indignos que sejamos, justamente por sermos de Cristo, por sermos a Igreja, participamos deste dom do Espírito Santo. Mas, por outro lado, o Espírito Santo desce sobre nós não apenas porque, de uma maneira incompreensível, já estamos unidos a Cristo, mas porque somos frágeis, somos fracos, somos pecadores, e somente a força de Deus, que se aperfeiçoa na fraqueza humana, é capaz de nos salvar. Não é apenas como Corpo de Cristo que recebemos o Espírito Santo, mas coletivamente como uma sociedade pecadora e individualmente como pecadores que necessitam desesperadamente da força de Deus para a nossa salvação.
Por isso, devemos nos preparar de modo muito especial para a Festa que se aproxima no próximo domingo. Devemos nos aproximar dela em nossa fragilidade, mas com absoluta abertura, com toda a nossa saudade de Deus, com fome e sede da vinda do Senhor, para que nossas almas renasçam, para que nossa vida se transforme, para que o abismo que separa o que há de divino em cada um de nós daquilo que ainda pertence à corrupção, ao pecado e à morte seja fechado. Passemos esta semana em recolhimento; passemos esta semana em expectativa e em oração, para que, quando juntos cantarmos a oração de invocação ao Espírito Santo, “Vem e habita em nós”, não seja apenas uma oração rotineira, mas o ápice da nossa saudade de Deus, do nosso amor por Deus, para que a nossa fraqueza se revele diante d’Ele, assim como a alma se abre ao amor e à alegria. E então, por mais pecadores e fracos que sejamos, seremos capazes de receber, mais uma vez, de uma nova maneira, uma nova medida daquela graça que nos torna mais próximos e mais queridos a Deus, aquele Deus que entrou em glória na carne que carrega as feridas infligidas pelo nosso pecado, porque o nosso pecado ainda persiste. Quão maravilhoso é o nosso Deus! Com que gratidão podemos contemplá-Lo, pois nós, que somos apenas meio crentes, nós, que vivemos tão mal, somos amados por Ele, Ele crê em nós, Ele espera todas as coisas e, pela Sua força, Ele pode nos dar tudo, se tão somente Lhe dermos o direito, o poder sobre nós, a oportunidade de agir livremente. Preparemo-nos, então, com reverência para a vinda do Espírito Santo sobre nós.
Metropolita Anthony (Bloom) de Sourozh
tradução de monja Rebeca (Pereira)








