CATEQUESES DO METROPOLITA HILARION (ALFEYEV) – PARTE 4

CATAFATISMO E APOFATISMO

Se traçamos o inventário dos nomes divinos, chegamos a conclusão de que nenhum dentre eles não pode nos dar uma noção integral de Deus. Deus está acima de todo nome. Se O nomeamos Ser, Ele está acima do ser; se O nomeamos verdade ou justiça, em Seu amor, Ele está acima de toda justiça; se O nomeamos amor, Ele é mais que o amor, Ele está acima do amor. Da mesma forma, Deus está acima de toda propriedade que podemos Lhe atribuir, quer seja a omniciência, a omnipresença ou a imutabilidade. No fim das contas chegamos a conclusão de que acerca de Deus não podemos dizer nada de seguro: todas as nossas palavras que O concernem saberiam somente ser incompletas, parciais e limitadas. Donde tiramos a consequência que não podemos dizer o que Deus é, mas somente o que Ele não é. Tal modo de raciocínio acerca de Deus tem recebido a apelação de teologia apofática (negativa) e, oposição à teologia catafática (positiva).

O apofatismo consiste na negação de tudo o que Deus não é. A elevação apofática do espírito a Deus, os Santos Padres (Dionísio o Areopagita, Gregório de Nissa) a comparam com a ascensão de Moisés na montanha do Sinai a Deus, que se envolve de escuridão (II S 22, 12). A escuridão divina significa a ausência de todo elemento material ou sensível. Entrar na escuridão divina significa sair dos limites do ser inteligível. Durante o encontro de Moisés com Deus, o povo israelita deveria permanecer aos pés da montanha, quer dizer nos limites do conhecimento catafático acerca de Deus, e somente Moisés podia penetrar na escuridão, quer dizer depois de ter renunciado a tudo, fazer o encontro com Deus que está fora de tudo, que está lá onde não há nada. Dizemos catafaticamente de Deus que Ele é Luz, mas por tais palavras assimilamos Deus à luz sensível. E se dizemos do Cristo transfigurado sobre o Tabor que “E transfigurou-Se diante deles; e o Seu rosto resplandeceu como o sol, e as Suas vestes se tornaram brancas como a luz.”(Mt. 17, 2), a noção catafática de “luz” é aqui utilizada simbolicamente, pois se trata da irradiação incriada da Divindade, que ultrapassa toda representação humana da luz. Podemos apofaticamente nomear a luz Divina, que ultrapassa toda representação da luz, como sub-luz ou a escuridão. Assim, a escuridão do Sinai e a luz do Tabor são uma única e mesma coisa.

Em nossa apreensão de Deus fazemos antes apelo a conceitos catafáticos que são primeiramente mais fácies e mais acessíveis ao espírito. No entanto, o conhecimento catafático tem seus limites os quais não está em medida de atravessar. A via da negação corresponde a uma subida do espírito no abismo divino onde as palavras cessam, onde a razão se congela, onde todo conhecimento e inteligibilidade humana são abolidos, “onde existe Deus”. Não é pelas vias do conhecimento especulativo, mas nas profundezas da oração em silêncio, que a alma pode ir ao encontro de Deus, que lhe Se revela como in-conveniente, in-acessível, in-visível, e ao mesmo tempo como vivo, próximo, íntimo – como o Deus Pessoa.

O MISTÉRIO DA TRINDADE

Os cristãos creem num Deus Trindade, Pai, e Filho e Espírito Santo. A Trindade não é três deuses, mas um Deus em três Hipostases, quer dizer em três entidades pessoais independents. É o único caso onde 1=3 e 3=1. Aquilo que em matemática ou lógica possa parecer absurdo se ergue enquanto pedra angular da fé. O cristão comunga ao mistério da Trindade não por meio de raciocínios lógicos, mas pelo arrependimento, quer dizer pela mudança e a renovação completas do espírito, do coração, dos sentimentos, de nossa natureza inteira (a palavra grega para “arrependimento”, metanóia significa literalmente “reviramento do espírito”). É impossível comungar à Trindade enquanto o espírito não tenha sido iluminado e transfigurado.

O ensinamento sobre a Trindade não é uma invenção de teólogos, antes uma verdade divinamente revelada. Por ocasião do batismo de Jesus Cristo, Deus Se manifesta pela primeira vez e em toda clareza ao mundo como Unidade em três Pessoas (cf. Lc. 3, 21-22). A voz do Pai se faz ouvir do céu, o Filho Se encontra nas águas do Jordão, o Espírito desce sobre o Filho. Em muitas ocasiões Jesus Cristo revela Sua unidade com o Pai, Seu envio pelo Pai ao mundo, Sua designação como Filho d’Este Mesmo (cf. Jo. 6-8). Ele promete igualmente aos discípulos enviar o Espírito Consolador, Que procede do Pai (cf. Jo. 14, 16-17, 15, 26). Ao enviar os discípulos à pregação, Ele lhes diz: “Ide, ensinai todas as nações, batizando-as em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (cf. Mt. 28, 19). Nos escritos dos Apóstolos existe também a menção do Deus-Trindade (cf. I Jo. 5,7).

É somente após a vinda de Cristo que Deus Se revela aos homens como Trindade. Os anciãos judeus guardavam uma fé estrita no Deus único, e não estariam em medida de compreender a idéia da Divindade tripla, pois que tal idéia poderia ser percebida como sinônimo de três deuses. Na época em que o politeísmo reinava de forma suprema sobre o mundo, o mistério da Trindade estava escondido à vista dos homens, como que enterrado no fundo mais secreto da verdade sobre a unidade da Divindade.

TERMOS E FÓRMULAS

O mais simples seria explicar o mistério da Trindade como faz Santo Spiridão, presente no Concílio de Nicéia. Segundo a tradição, lhe perguntam como seria possível que Três aparecessem simultaneamente como Um, e no lugar de responder, ele pega um tijolo e o mõe em suas maos. Da argila esmigalhada nas mãos do Santo, uma chama se escapa ao alto enquanto um pouco de água escorrege para baixo. “Da mesma maneira com que neste tijolo existe fogo, água e terra diz ele, assim também no Deus único existem três Pessoas…”

O Deus Trindade não é um Ser congelado, não há repouso, imobilidade, estatismo. “Eu Sou Aquele que Sou”, diz Deus a Moisés (Ex. 3, 14). Aquele que É significa o existente, o Vivente. Em Deus está a plenitude da vida, e a vida é movimento, fenômeno, revelação. Alguns dos Nomes Divinos, como vimos, tem um caráter dinâmico: Deus é comparado ao fogo (Ex. 24, 17), a água (Jr. 2, 13), ao vento (Gn. 1, 2). No Cântico dos Cânticos, uma mulher procura seu bem-amado, que foge longe dela. Segundo a tradição cristã, esta imagem foi interpretada (por Orígenes, Gregório de Nissa) como representando a alma lançada em busca de Deus que sem cessar dela escapa. A alma busca Deus, basta encontrá-Lo que logo em seguida O perde novamente, ela se esforça em concebê-Lo, mas Ele permanece inconcebível, ela se esforça em contê-Lo, mas não consegue. Ele Se move com extrema “rapidez”, sempre para além de nossas forças impotentes em segui-Lo. Encontrar e alcancar Deus significa ter acesso, nós próprio, ao estado divino. Assim como, segundo as leis da física, se um corpo material se deslocar à velocidade da luz, transformaria-se ele mesmo em luz, o mesmo serve para a alma: quanto mais se aproxima de Deus, mas se preenche de Sua luz e torna-se portadora de luz…


Metropolita Hilarion Alfeyev
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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