A PESSOA HUMANA
Os seres humanos constituem o ápice da criação, o ápice do processo criativo da Trindade Divina. Antes de criar Adão, as Três Pessoas se aconselharam: “Façamos o homem à Nossa imagem, conforme a Nossa semelhança” (Gn 1,26). O “Conselho Pré-Eterno” das Três foi necessário, primeiro porque o homem era uma criatura superior, com razão, vontade e domínio sobre o mundo visível, e, segundo, porque, sendo livre e independente, a humanidade quebraria o mandamento e se afastaria da bem-aventurança do Paraíso. O sacrifício do Filho na Cruz seria então necessário para mostrar ao homem o caminho de volta a Deus. Ao criar o homem, Deus conhecia seu destino subsequente, pois nada se esconde do olhar de Deus, que vê o futuro tanto quanto vê o presente.
Deus formou Adão “do pó da terra”, isto é, da matéria. Assim, ele era carne da carne da terra, da qual foi moldado pelas mãos de Deus. No entanto, Deus também “soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem se tornou alma vivente” (Gn 2:7). Sendo material ou terreno, Adão recebeu um princípio divino, uma garantia de sua comunhão com o Ser Divino. “O sopro da vida” pode ser entendido como o Espírito Santo. A pessoa humana participa da natureza divina pelo próprio ato da criação e, por isso, é completamente diferente dos demais seres vivos: ela não assume simplesmente uma posição superior na hierarquia dos animais, mas é um “semi-deus” situado acima do reino animal. Os Padres da Igreja chamam o ser humano de “mediador” entre os mundos visível e invisível, uma “mistura” de ambos os mundos.
Como o coração do mundo criado, combinando em si o espiritual e o corpóreo, o ser humano, em certo sentido, supera os anjos. Não foi o anjo, mas o ser humano, que foi criado por Deus à Sua própria imagem. E não foi a natureza angélica, mas a humana, que foi assumida por Deus na Encarnação.
IMAGEM E SEMELHANÇA
“Criou Deus, pois, o homem à Sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gn 1,27). Como uma mônada egocêntrica solitária é incapaz de amar, Deus criou não uma unidade, mas um casal, com a intenção de que o amor reinasse entre as pessoas. E como o amor do casal ainda não é a perfeição do amor e do ser, Deus ordena: “Sede fecundos e multiplicai-vos” (Gn 1,28). De dois seres humanos deve nascer o terceiro, seu filho: a família perfeita — marido, mulher e filho — é o reflexo do amor divino em três hipostases. De fato, não se pode deixar de notar a afinidade da troca entre o singular e o plural quando a Bíblia fala de Deus (“Façamos o homem à Nossa imagem” — “Deus criou o homem à Sua imagem”) e o singular e o plural quando fala dos humanos (“o criou” — “os criou”). Essa troca enfatiza a unidade da natureza da raça humana, mesmo quando há distinção entre as hipóstases de cada pessoa individual.
O tema da imagem e semelhança é central para a antropologia cristã: em maior ou menor grau, foi abordado por quase todos os escritores da Igreja primitiva. Os Padres da Igreja geralmente equiparavam “a imagem de Deus” à natureza racional e espiritual da pessoa humana. “O que há depois da imagem senão o nosso intelecto?”, pergunta São João Damasceno. “Somos criados à imagem do Criador, possuímos a razão e a faculdade da fala, que constituem a perfeição da nossa natureza”, escreve São Basílio o Grande.
“A imagem de Deus” foi entendida por alguns Padres como o nosso livre-arbítrio e autodeterminação. “Quando Deus, em Sua bondade suprema, cria cada alma à Sua própria imagem, Ele a traz à existência dotada de autodeterminação”, diz São Máximo, o Confessor. Deus criou a pessoa absolutamente livre: em Seu amor, Ele não deseja forçá-la nem ao bem nem ao mal. Em troca, Ele não espera de nós obediência cega, mas amor. É somente sendo livres que podemos ser assimilados a Deus por meio do amor a Ele.
Outros Padres identificaram como “a imagem de Deus” a imortalidade da pessoa humana, sua posição dominante no mundo e sua busca pelo bem.
Nossa capacidade de criar, como reflexo da capacidade criativa do próprio Criador, também é considerada “à imagem de Deus”. Deus é o “trabalhador”: “Meu Pai continua trabalhando, e Eu também”, diz Cristo (João 5:17). A pessoa humana também recebeu a ordem de “cultivar” o jardim do Éden (Gênesis 2:15), isto é, de trabalhar nele e de cultivar a terra. Embora a pessoa humana seja incapaz de criar ex nihilo (“do nada”), ela pode criar a partir de material que lhe foi dado por Deus, e esse material é toda a Terra, sobre a qual ela é senhor e mestre. O mundo não precisa ser melhorado por pessoas; em vez disso, os próprios humanos precisam aplicar suas habilidades criativas para serem assimilados a Deus.
Alguns Padres da Igreja distinguem “imagem” de “semelhança” identificando a imagem como aquilo que foi originalmente fixado pelo Criador na pessoa humana, e a semelhança como aquilo que deve ser alcançado através de uma vida de virtude: “A expressão segundo a imagem indica aquilo que é razoável e dotado de livre-arbítrio, enquanto a expressão segundo a semelhança denota assimilação através da virtude, na medida em que isso é possível” (São João Damasceno). A pessoa humana é chamada a realizar todas as suas capacidades criativas no “cultivo” do mundo, na criatividade, na virtude, no amor, para que possa ser assimilada a Deus. Pois, como diz São Gregório de Nissa, “o limite de uma vida de virtudes é a assimilação de Deus”.
ALMA E CORPO
Todas as tradições religiosas antigas sustentam que os humanos são compostos de elementos materiais e espirituais; mas a correlação entre os dois tem sido entendida de diferentes maneiras. As religiões dualistas veem a matéria como originalmente má e hostil à humanidade: os maniqueus acreditavam até que Satanás era o criador do mundo material. A filosofia clássica considera o corpo como uma prisão na qual a alma é mantida cativa ou encarcerada. De fato, Platão deduz a palavra soma (corpo) de sema (lápide, túmulo): “Muitas pessoas acreditam que o corpo é como uma lápide que esconde a alma enterrada sob ela nesta vida… A alma suporta o castigo… enquanto a carne cumpre seu dever como sua fortaleza para que ela possa ser curada, enquanto está localizada no corpo como em uma câmara de tortura”.
As antigas filosofias indianas falam da transmigração das almas de um corpo para outro, até mesmo de um ser humano para um animal (e vice-versa). A doutrina da metempsicose (reencarnação) foi rejeitada pela Tradição da Igreja primitiva por ser incompatível com a revelação divina. Foi proclamada sem sentido e errônea com base na afirmação de que um ser humano, que possui razão e livre-arbítrio, não pode ser transformado em um animal ininteligível, visto que todo ser inteligível é imortal e não pode desaparecer. Além disso, qual o sentido de alguém ser punido por pecados cometidos em uma vida anterior se não sabe por que tem que suportá-los (afinal, é impossível recordar a “existência” anterior)?
Os Padres da Igreja, baseando-se nas Escrituras, ensinam que a alma e o corpo não são elementos estranhos unidos temporariamente no indivíduo, mas são concedidos simultaneamente e para sempre no próprio ato da criação: a alma está “comprometida” com o corpo e é inseparável dele. Somente a totalidade da alma e do corpo juntos constitui uma personalidade completa, uma hipóstase. São Gregório de Nissa chama o vínculo inquebrável entre alma e corpo de “inclinação de afeição”, “mistura”, “comunidade”, “atração” e “conhecimento”, que se preservam mesmo após a morte. Tal conceito está muito distante do dualismo platônico e oriental.
O Cristianismo é falsamente acusado de pregar que a carne deve ser desprezada e o corpo tratado com desprezo. O desprezo pela carne era mantido por vários hereges (gnósticos, montanistas, maniqueus), bem como por alguns filósofos gregos, cujas opiniões foram submetidas a rigorosa crítica pelos Padres da Igreja.
Na literatura ascética cristã, sempre que nos deparamos com questões de inimizade entre carne e espírito — começando com São Paulo: “Porque os desejos da carne são contra o espírito, e os desejos do espírito são contra a carne” (Gálatas 5:17) — elas se referem à carne pecaminosa como a totalidade das paixões e vícios, e não ao corpo em geral. Além disso, quando lemos em fontes monásticas sobre a “mortificação da carne”, trata-se da morte das propensões pecaminosas e das “concupiscências da carne”, não do desprezo pelo corpo como tal. O ideal cristão não é degradar a carne, mas purificá-la e transfigurá-la, libertá-la das consequências da Queda, devolvê-la à sua pureza primordial e torná-la digna de ser assimilada a Deus.
A tradição cristã sempre manteve uma visão excepcionalmente elevada da pessoa humana. O que é um ser humano do ponto de vista de um ateu? Um macaco, só que com capacidades mais desenvolvidas. O que é um ser humano na visão de um budista? Uma das reencarnações da alma, que antes de sua morada em um corpo humano poderia ter existido em um cão ou um porco, e que após a morte corporal poderia se encontrar novamente dentro de um animal. O ensinamento budista nega o próprio conceito de existência pessoal: o ser humano é considerado não como a totalidade de corpo e alma, mas como uma espécie de estágio transitório na peregrinação da alma de corpo em corpo.
Somente o Cristianismo apresenta uma imagem exaltada do ser humano. No Cristianismo, cada um de nós é considerado uma personalidade, uma pessoa criada à imagem de Deus, um ícone do Criador.
Quando Deus criou a natureza humana, Ele a criou não apenas para nós, mas também para Si mesmo, pois sabia que um dia Ele próprio Se tornaria um ser humano. Assim, Ele moldou algo adequado a Si mesmo, algo possuidor de um potencial infinito. São Gregório Nazianzo chama a pessoa humana de “deus criado”. A pessoa humana é chamada a se tornar deus. Em seu potencial, o homem é um deus-homem.
Metropolita Hilarion (Alfeyev)
tradução de monja Rebeca (Pereira)








