ABRAMOS AS PORTAS PARA ELE

A principal festa para os cristãos é a Páscoa. É a festa dos guerreiros que venceram a batalha. Feridos, mas vivos; cansados, mas alegres; ainda empunhando suas armas, embora seus braços estejam exaustos, eles olham para o estandarte da vitória. Lá está ele, lenta mas seguramente sendo erguido no alto, acima das tropas que, aos milhares, proclamam o vitorioso “Viva!”. Esta é a Páscoa.

A segunda festa mais importante é o Natal. Esta é uma festa para as crianças. Elas pulam ao redor da árvore de Natal, de mãos dadas, e colhem guloseimas de seus galhos perfumados — biscoitos de gengibre e doces. Ninguém as repreende, pois hoje é uma ocasião festiva especial e tudo é permitido — exceto, talvez, atear fogo na árvore. Há um presente para cada criança, o ar está impregnado com o aroma de laranjas e os vidros das janelas estão decorados com geada de uma maneira que nem o melhor artista do mundo conseguiria reproduzir. Este é o Natal.

Ao longo de um único ano litúrgico, a Igreja nos permite vivenciar plenamente a infância espiritual e a maturidade espiritual, pelo menos uma vez. Para começar, somos crianças, e é por isso que a festa da infância cristã — o Natal — vem primeiro no ano litúrgico. Depois, crescemos e mergulhamos na dramática ambiguidade da vida, onde só conseguimos sobreviver graças à vitória da Páscoa. Essas duas festas intimamente ligadas se estendem entre os dois polos da vida cristã como uma corda musical vibrante. Juntas, formam um eixo em torno do qual gira todo o universo. Este ano, mais uma vez, respiramos o ar gélido e inebriante da Epifania.

Não, eu não cometi um erro. Na antiguidade, o Natal e a Epifania eram celebrados no mesmo dia, como uma única festa. E como a atmosfera dessa festa me lembra a de uma infância feliz, vou me dar a liberdade de explicar seu significado com outro exemplo da infância. Muitos de nós sabemos como as crianças podem ser curiosas, como têm sede de tudo que é novo e incomum. Bem, imagine um menino entrando correndo na sala de aula ou no pátio da escola, com os cabelos despenteados e os olhos brilhando de alegria, e gritando: “Ei! Adivinhem o que eu vi!” Dezenas de olhos se iluminam em resposta: “O quê? Onde?” Levaria muito tempo para ele tentar explicar, então ele simplesmente diz: “Venham, eu mostro para vocês!” Imediatamente, pezinhos rápidos correm atrás do “descobridor”, fazendo barulho como uma manada de cavalos selvagens enquanto todos tentam ser os primeiros a ver o que poderia ser aquela coisa incomum.

Assim também devemos correr em direção àquela gruta em Belém, com curiosidade e expectativa — mesmo já sabendo o que aconteceu. Ninguém tem desculpa, todos devem ir. Se você ama a ciência, estuda a natureza, compreende o significado do universo, mas não ora a Deus e não crê em Seu Cristo, será condenado pelos Magos, os Três Reis Magos, e as estrelas brilharão sobre sua cabeça em desaprovação. Se você é simples e sem instrução, se ganha o pão com trabalho árduo e monótono, mas reclama do seu destino e acredita que a fé cristã é privilégio dos bem alimentados e ociosos, então os pastores ficarão diante de você com um olhar silencioso de reprovação. Mesmo que você seja um asno (por causa da sua teimosia, por exemplo) ou um boi (digamos, por causa da sua lentidão mental), você também deve se curvar diante do Recém-Nascido em Seu berço e ao menos aquecê-Lo.

Uma das maiores desgraças dos nossos tempos é a solidão. A sociedade tradicional e típica está sendo destruída. Os laços familiares estão se enfraquecendo, a instituição do casamento está sendo abalada, o que é natural está se tornando raro e a feiura é identificada como a norma. Alguém que viveu por anos em meio a uma multidão agitada pode, na verdade, não ter sempre outra pessoa com quem conversar. Os céus se tornam pesados ​​como chumbo, e parece que nem mesmo lá em cima ninguém se importa com você. A Terra de repente parece hostil, e você caminha como se estivesse limpando os pés nela, com o pensamento assustador de que um dia terá que retornar. “Eu não matei ninguém! Eu não roubei nada!” — é assim que o homem moderno geralmente gosta de se descrever. Mas, apesar disso, ele segue a vida como Caim, gemendo e tremendo de medo.

E então, de repente, que alegria! Um convidado importante veio me visitar! “Tu vens a mim, Senhor. Tu me procuras, a mim que me perdi” — com palavras como estas, a Igreja canta repetidamente a vinda do Senhor a este mundo. Sim, Deus veio nos visitar. Seria extremamente desrespeitoso não Lhe mostrar hospitalidade, não arrumar o “quarto interior” (Mt 6,6) da nossa alma, não preparar para Ele algo saboroso, por mais simples que seja. Não abrir-Lhe a porta seria absolutamente abominável.

No Oriente, a hospitalidade é considerada, não sem razão, uma das maiores virtudes. É como se as pessoas sentissem que a cordialidade para com um viajante desconhecido pudesse gerar algo maior. De fato, alguns deles acolheram anjos disfarçados de viajantes e, por isso, receberam uma bênção e foram salvos da perdição (cf. Gn 18).

Contudo, o fruto mais grandioso e inesperado da hospitalidade é acolher o próprio Cristo como hóspede. E aqui temos mais um aspecto desta festa: neste dia, nós, juntamente com as crianças que riem e dançam em volta da árvore de Natal, somos os anfitriões cordiais que abriram a porta ao ouvirem batidas e que, inesperadamente, deixaram entrar o Mestre do universo.

Quanto mais vivemos e refletimos, mais nos perguntamos como as pessoas conseguem viver sem Deus? O que as mantém firmes? O que elas esperam? O que as faz felizes?

Afinal, será que esta é realmente uma vida sem Deus? O próprio Cristo Se maravilhou com duas coisas nesta terra: a fé e a sua ausência. Ele Se alegrou ao ver a fé do centurião de Cafarnaum, mas ficou perplexo com a incredulidade dos escribas (cf. Mc 6,6). Portanto, surpreendamos o nosso Salvador nesta época festiva com a nossa fé. Façamos cada um o que estiver ao nosso alcance para que, neste nosso mundo de plástico e celuloide, Deus encontre algo que Lhe dê prazer.


Arcipreste Andrey Tkachev
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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