“Sou árabe de nascimento, grego por formação primária, americano por residência, russo de coração e eslavo de alma.” São Rafael do Brooklyn
Muitos servos santos, dedicados e fiéis ajudaram a plantar as sementes da Ortodoxia na América, mas poucos estavam tão bem preparados para tal trabalho quanto São Rafael do Brooklyn. Como sugere a citação acima, São Rafael personificou o espírito evangélico e missionário necessário em seu tempo, que é ainda mais necessário em nosso, ao celebrarmos o 250º aniversário de nossa nação.
Antes de refletir mais sobre São Rafael e seu exemplo, gostaria de mencionar uma fotografia que me chamou a atenção no salão da nossa Catedral de São Nicolau, no Brooklyn, Nova York. Tirada na consagração da nossa atual Catedral na State Street, em 1920, a fotografia mostra uma multidão enorme reunida do lado de fora. O que cobria a fachada da catedral não era, como se poderia esperar hoje, uma mistura de bandeiras americanas e das bandeiras dos países de origem dos imigrantes. Na verdade, a fachada estava completamente coberta apenas com as bandeiras dos Estados Unidos da América. Essa imagem me impressionou profundamente e diz muito sobre a mentalidade daqueles primeiros imigrantes. Eles amavam as cidades, vilas e famílias que haviam deixado para trás, mas sabiam que estavam ali para ficar, na América. Desejavam participar plenamente de sua terra adotiva, preservando ao mesmo tempo sua antiga fé e tradições. Foi nesse contexto que São Rafael, então Arquimandrita Rafael Hawaweeny, chegou a Nova York em 1895.
Antes de chegar aos Estados Unidos, São Rafael viveu em diversos centros da Ortodoxia, desde sua cidade natal, Damasco, até Constantinopla e a ilha de Halki, onde estudou, passando por Kiev e Moscou. Foi assim que, por meio de suas extensas viagens e da aquisição de múltiplos idiomas, tanto em contextos coloquiais quanto litúrgicos, São Rafael, pela providência de Deus, estava bem preparado para cumprir sua missão nesta nova terra: ajudar a estabelecer paróquias para os imigrantes ortodoxos recém-chegados de diversas origens étnicas. Embora sua vocação principal fosse servir aos imigrantes de língua árabe da Grande Síria — isto é, da atual Síria e Líbano — por meio da recém-formada Missão Siro-Árabe da Igreja Ortodoxa Russa, São Rafael tornou-se uma figura respeitada e amada entre os imigrantes ortodoxos em geral, especialmente na região de Nova York. Seus incansáveis esforços missionários o levaram por todos os Estados Unidos, Canadá e até mesmo México, onde batizou, casou e celebrou liturgias de sétimo dia para fiéis que viviam em áreas remotas. Em cada localidade, também incentivava os fiéis a fundarem paróquias e prometia-lhes sacerdotes assim que se comprometessem com essa tarefa sagrada.
À medida que a missão crescia, o então chefe da diocese ortodoxa russa na América do Norte, São Tikhon de Moscou, reconheceu que São Rafael deveria ser nomeado bispo para supervisionar as jovens paróquias missionárias em expansão nos Estados Unidos, com a concordância tanto do Patriarca de Moscou quanto do Patriarca de Antioquia. Em 13 de março de 1904, São Rafael foi elevado ao episcopado na Catedral de São Nicolau, no Brooklyn, Nova York, tornando-se o primeiro bispo ortodoxo de qualquer origem a ser consagrado em solo americano. Sem seu zelo missionário e dedicação inabalável ao serviço dos fiéis, muitos imigrantes ortodoxos poderiam ter sido assimilados religiosamente enquanto buscavam o sonho americano em sua nova pátria.
A capacidade de São Rafael de transitar entre culturas e de aproveitar o melhor dos costumes ortodoxos o torna um modelo para os nossos tempos. Ele conseguia falar com as pessoas em sua própria língua e compreendia suas tradições devido às suas experiências de vida, ao mesmo tempo que as encorajava a se adaptarem à sua nova pátria. Defendia os ensinamentos da Igreja com vigor e protegia seu rebanho de lobos vorazes, adaptando-se às realidades e normas da experiência americana sem comprometer a fé.
O que, então, podemos aprender com a vida de São Rafael ao celebrarmos os 250 anos da experiência democrática americana? Devemos ser profundamente gratos a figuras como São Rafael, que cultivaram as sementes da Ortodoxia na América. Assim como os cidadãos americanos olham para os pais fundadores de nossa nação e para os sacrifícios que fizeram para construir um país mais forte e melhor, também nós devemos olhar para nossos próprios “pais fundadores” da Ortodoxia na América, aprender com seu testemunho e torná-lo nosso. Devemos continuar a nutrir o que cresceu a partir de seus primeiros trabalhos, mesmo enquanto acolhemos aqueles que agora abraçam a Santa Fé Ortodoxa por escolha.
Assim como os Estados Unidos são chamados de “o grande caldeirão cultural”, a fé ortodoxa também reúne em um só corpo aqueles que buscam abraçar Jesus Cristo dentro da arca da Igreja, onde “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28). A Ele seja toda a glória e honra para todo o sempre.
Este artigo é publicado como parte da iniciativa midiática “América aos 250: Ortodoxia em uma Nova Pátria”, coorganizada pelo Orthodox Observer e pelo Departamento de Relações Inter-Ortodoxas, Ecumênicas e Inter-religiosas da Arquidiocese Ortodoxa Grega da América, para homenagear as contribuições e a experiência do Cristianismo Ortodoxo na América e celebrar o 250º aniversário da fundação dos Estados Unidos.
Metropolita Saba (Isper)
tradução de monja Rebeca (Pereira)







