Respondendo aos nossos jovens
Há um ditado popular que diz que não existem ateus nas trincheiras. Estamos todos em guerra agora. Sim, mas cada um acredita no que quer. “Dizem que ‘o importante é acreditar em Deus'”, repreendeu o Padre Valeriano. “E acrescentam que ‘como acreditar é uma escolha pessoal de cada um'”. Ele observou que esse fenômeno foi previsto por São Teófano, o Recluso, no século XIX — essa indiferença morna à verdade é a arrogância nascida do orgulho, da presunção e do egoísmo; e quanto mais avançamos, mais crenças isoladas como essas se tornam. Como São Teófano previu e como Batiushka lembrou, antes do fim haverá “tantas crenças quantos forem os homens”. E essas “crenças” são as mais fáceis de derrotar e quebrar. Uma guerra mental também está sendo travada contra nós.
Um vídeo da música russa “O Exército Russo” (“Ei, irmãos, estamos sentados há muito tempo”) viralizou recentemente, alcançando milhões de visualizações, mas a imagem do khan e do mago comandando o exército inimigo domina a cena. Mesmo que a vitória do nosso exército seja mostrada no vídeo, Evpaty Kolovrat1 (que neopagãos russos tentam fazer passar por seu) usa um pedaço de pano vermelho rasgado como estandarte, e não o estandarte com a imagem do Salvador. No final, o herói morre, e este vídeo, assim como o filme de onde as cenas foram extraídas, é na verdade uma derrota simulada. As forças das trevas não encontram resistência diante do Todo-Poderoso.
Nossos pais espirituais, incluindo o Schema- Arquimandrita Mikhail (Krechetov), soaram o alarme: o neopaganismo está se espalhando até mesmo entre as forças de defesa e segurança pública, o Ministério do Interior e a Guarda Nacional da Rússia, e como esse tipo de “espiritualidade” não exige esforço, autoexame ou pureza, encontra eco naqueles que não estão preparados para o trabalho ascético.
Mas todo o poder pertence a Deus, como disse o Schema- Arquimandrita Iliy (Nozdrin), companheiro asceta do Padre Valeriano, que também faleceu em 2025 e que o tonsurou anteriormente. E aqueles que realmente desejam vencer darão ouvidos aos mais velhos.
Estamos publicando mais algumas das respostas inéditas do Schema-Arquimandrita Mikhail (Krechetov) a perguntas dos jovens.
— Padre, ao final da primeira parte de nossa conversa, nos concentramos na questão do uso da força: quando não é pecado e quando é. E o senhor até nos alertou… Então, mesmo qualidades tão valentes como coragem, firmeza de propósito e apego aos princípios podem vir do maligno?
— Lembro-me do Ancião Nikolai (Guryanov) repreendendo um oficial e veterano da Guerra do Afeganistão na minha presença: “Você não tem coragem!” O oficial, que havia estado em quase todos os pontos críticos do país e além, ficou perplexo. “Você está confundindo coragem com heroísmo”, explicou o Ancião. “Heroísmo é um momento, enquanto coragem é reconhecer os próprios pecados e lamentá-los.” O grande comandante militar russo e generalíssimo Alexander Vasilyevich Suvorov (1730–1800), que ficou famoso por não ter perdido uma única batalha, costumava dizer: “Se você se vencer, será verdadeiramente invencível.”
O que é firmeza de propósito? A busca persistente de um objetivo. Mas qual é o seu objetivo? Essa é a questão central! O Ancião José de Vatopaidi disse, quando conversei com ele no Monte Athos: “O principal na vida é o propósito”. Qual é o seu propósito na vida? Se for o objetivo da vida cristã — isto é, segundo São Serafim de Sarov, adquirir a graça do Espírito Santo — é uma coisa. Mas se uma pessoa tem como objetivo acumular riquezas materiais e está preocupada em “construir uma carreira”, isso é completamente diferente.
Mas mesmo que o objetivo seja correto e nobre, na Ortodoxia o princípio nascido no Ocidente católico, “os fins justificam os meios”, é impossível (popularmente atribuído a Inácio de Loyola). Na Ortodoxia, tanto o fim quanto os meios devem ser do mesmo espírito. O escritor Fiódor Dostoiévski também escreveu sobre isso: Não se pode matar alguém pela “felicidade” de outros.
Quanto a se manter firme aos seus princípios, essas pessoas costumam ser rotuladas como “fanáticas”. Interessei-me pela etimologia da palavra — ela significa uma pessoa que é consistente em seus princípios firmes. Portanto, qualquer pessoa decente pode ser chamada de “fanática”. A questão é sobre o que você é fanático. Se você é fã de futebol, é uma coisa. Mas todos os cientistas, grandes artistas e escritores também são “fanáticos”. Caso contrário, não teriam conquistado nada! Há persistência na loucura e há persistência em algo bom — a questão é em que você persiste.
— Se Deus quiser, falaremos mais sobre grandes pessoas depois. E já que estamos falando sobre propósito como o principal aspecto da vida, então, no contexto da conversa anterior, em que a última pergunta foi sobre as autoridades, qual é o propósito do Estado?
— O propósito do Estado… Essa formulação está errada. O Estado não é uma máquina sem alma — ele é, antes de tudo, composto por pessoas. Há divisão no Estado, assim como entre as pessoas. Qual é o propósito, por exemplo, de um determinado tipo de produção? Satisfazer necessidades? Ou gerar lucro? Pessoas diferentes avaliam isso de maneiras diferentes. Esta é apenas uma das tarefas do Estado — garantir a segurança: a preservação das pessoas e do território em que vivem.
—Então, o objetivo é formar pessoas moralmente íntegras que concordem com o ideal mais elevado do Estado. E como esses são os ideais do Cristianismo…
—O Estado é um sistema no qual, apesar do propósito comum de seus componentes, existe também uma força motriz principal de todo esse “mecanismo” — as pessoas. Quando dizem que a Igreja está separada do Estado, é algo estranho de se dizer. A Igreja na Terra é composta de pessoas, e todas essas pessoas são cidadãs do Estado. Como, então, ela pode estar separada? Essa é uma situação anormal e ilegal.
—Certa vez, o Arcebispo Mark (Arndt) de Berlim e da Alemanha expressou surpresa pelo fato de que, por algum motivo, os Santos Iluminadores da Rus’ não eram particularmente venerados na Rússia atual. Além disso, a Princesa Olga é criticada por sua “vingança cruel” pelo assassinato de seu marido, mas por outros pela conversão de seu neto, o governante. Dizem: “Nossos ancestrais acreditavam em seus deuses e tudo estava bem. Por que precisaram mudar de fé?”
—O que era bom naquela época? Sacrifícios humanos? Crueldade? Poligamia? Só agora esses neopagãos acreditam que era bom, porque não viveram naquela época! Deveriam ser gratos por terem crescido, porque naquela época poderiam ter sido sacrificados quando bebês e agora não estariam falando sobre como tudo era maravilhoso e bom. Que tentem viver como seus ancestrais viveram — todos vão brigar e se matar…
Havia uma história na União Soviética: um homem começou a vender kvas na aposentadoria. Alguém se aproximou dele e perguntou: “Quanto custa o seu kvas?” Ele disse o preço. O outro disse: “Deixe-me pagar por todo o kvas e você pode distribuí-lo de graça.” Eles concordaram. Ao saberem que era de graça, as pessoas correram para lá e começaram a brigar. O homem em questão teve até que chamar a polícia, que perguntou: “O que está acontecendo aqui?” Aquele que havia pago por todo o kvas confessou: “Sou velho e não viverei para ver o comunismo. Então, decidi ver como será a vida sob o comunismo.” E assim ele viu…
—Sim, e agora estamos sendo jogados de volta [ao paganismo] por este experimento com o povo russo. Abortos são novos sacrifícios humanos, sem falar nas disputas e denúncias… É como se a Santa Princesa Olga, Igual aos Apóstolos, não tivesse existido, com sua visão milagrosa de três raios de sol radiantes: “Se Deus Se dignar a ter misericórdia da minha terra russa, que Ele inspire seus corações a se voltarem para Ele, assim como Deus me concedeu”. Como se não tivesse existido São Sérgio de Radonezh com a Batalha de Kulikovo pela fé, nem se lembrassem do mundialmente famoso Ícone da Santíssima Trindade de Santo André Rublev, pintado segundo o testamento de São Sérgio: “para superar a odiosa discórdia deste mundo contemplando a Santíssima Trindade…”. É um absurdo. Dizem: “Existem neopagãos normais que não acreditam no duende da floresta, mas simplesmente querem viver em harmonia com a natureza, absorvendo seu poder. Isso é realmente algo ruim?”
—O contato com a natureza não oferece uma resposta para a principal questão da existência humana: a questão da vida e da morte. Bem, você vive em uma toca por um tempo e depois? Será enterrado nela. Só isso?
Que tipo de “poder” eles tiram da natureza? Eles simplesmente inventam tudo! “Vou me agarrar a uma bétula agora…” Isso é autossugestão.
Quando comemos pão, ganhamos força — isso é claro. Mas, ao contemplarmos a beleza e a generosidade da natureza, como não louvar o seu Criador? Como disse o filósofo e poeta russo Vladimir Solovyov (1853-1900), toda filosofia logicamente chega a Deus; mas a filosofia materialista não pode chegar a Ele porque não há lógica nela. Além disso, o que esses neopagãos querem dizer com “unidade com a natureza”? Todos eles vivem em cidades! Bem, você vai morar no campo, e daí? Aliás, a maioria dos nossos ilustres santos viveu em unidade com a natureza: São Sérgio de Radonezh e São Serafim de Sarov viveram em florestas.
—Sim, os ursos iam até eles. E eles também vieram até você quando visitou a Geórgia, a primeira porção terrena da Mãe de Deus [um filhote de urso saiu para encontrar o Ancião lá].
—Então esses neopagãos estão apenas falando besteira?
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1 Evpaty Kolovrat foi um lendário boiardo, cavaleiro e guerreiro do século XIII, originário do principado russo de Ryazan. Segundo o livro “Um Conto da Ruína de Ryazan”, ao retornar de sua campanha em 1237-1238, Evpaty encontrou sua cidade destruída pelo exército de Batu Khan. Ele liderou um pequeno destacamento de tropas para vingar a cidade, lutando destemidamente contra a horda mongol até a morte, com o próprio Batu Khan maravilhado com sua coragem.
Schema-Arquimandrita Mikhail (Krechetov)
tradução de monja Rebeca (Pereira)






