HOMILIA NA FESTA DO MEGALO-MÁRTIR JORGE
A Igreja venera como santos mártires diversos soldados que serviram no exército romano. O Cristianismo se espalhava rapidamente naquela época e, durante a perseguição aos cristãos, estes preferiram a glória eterna, a coroa imarcescível do martírio, à glória militar terrena, professando publicamente sua fé em Cristo e não renunciando a ela mesmo sob o custo da própria vida.
O Grande Mártir Jorge viveu durante o reinado do Imperador Diocleciano, que reinou de 248 a 305. Ele era um imperador profundamente devoto aos deuses pagãos. Por essa razão, adotou uma postura muito hostil em relação aos cristãos; talvez sua perseguição aos cristãos, que durou até 305, tenha sido a mais brutal e prolongada. Ele então adoeceu mentalmente e passou a ser “perseguido e caçado” por suas próprias vítimas. Corria constante perigo de ser morto. Portanto, abandonou seu palácio na costa da Dalmácia e passou a viver isolado, recebendo visitas apenas de seus guardas. Mas ele também os temia e levava uma vida muito atormentada. Acredita-se que ele tenha morrido em 313, quando terminou a perseguição aos cristãos. Morreu sozinho, aterrorizado por todo tipo de medo que o atormentava.
Conhecemos todas essas informações com Lactâncio[1], um homem altamente instruído que serviu como tutor na casa de Diocleciano.
A princípio, Diocleciano perseguiu os cristãos com menos severidade, ou seja, não a ponto de levá-los à morte. Entretanto, Lactâncio se converteu ao Cristianismo e perdeu sua posição, mas escreveu todas as crônicas da época de Diocleciano e, em seu livro “Sobre a Morte dos Perseguidores”, mostra que todos os perseguidores da Igreja de Cristo tiveram um fim trágico, sendo o exemplo mais marcante o de Diocleciano, a quem conheceu tanto em seus anos de maior prosperidade quanto durante seu período de loucura.
A loucura de Diocleciano era profunda; ele era um homem atormentado por temores internos. Constantemente imaginava que os cristãos viriam, que Jesus viria para puni-lo pelos assassinatos que havia cometido, e por isso perseguia os cristãos com ainda mais intensidade.
A princípio, como eu disse, a perseguição não era severa. A primeira forma de perseguição foi uma ordem que obrigava todos os que serviam no exército a oferecer sacrifícios às divindades se desejassem permanecer nas forças armadas; caso contrário, seriam expulsos. Essa foi a sua primeira perseguição. Enquanto isso, ele consultava oráculos pagãos, que sempre davam respostas contraditórias. E esses oráculos lhe disseram que ele deveria perseguir os cristãos. Assim, em 303, ele emitiu um decreto muito severo, determinando que todas as Sagradas Escrituras em posse dos cristãos fossem entregues às autoridades e queimadas publicamente em praça pública.
Nessa situação, seu genro, Galério, ateou fogo duas vezes no palácio imperial em Nicomédia, onde Diocleciano estava hospedado, e culpou os cristãos. Diocleciano então ordenou a prisão de todo o clero (padres e diáconos) e os obrigou a sacrificar aos deuses. Muitos cristãos foram torturados, atirados a animais selvagens e mortos, e o Cristianismo produziu um número excepcionalmente alto de mártires.
Essa perseguição assolou todo o império. Estendeu-se até a Romênia, onde os mártires Zotikos, Atalos, Philippos e Kamasis foram martirizados em Nicolette. [2] Essa foi uma perseguição generalizada. Diocleciano então ordenou que todos os soldados, não apenas os oficiais, que cressem em Cristo confessassem sua fé para aceitarem a punição por ela.
Nessas circunstâncias, São Jorge decidiu confessar sua fé em Cristo. Ele vinha de uma família nobre, teve uma educação condizente com a sua posição e seus pais eram cristãos. Era belo, um dos guerreiros mais valentes e, por ser tão talentoso e se destacar em batalha, Diocleciano o promoveu rapidamente e o nomeou chefe da guarda imperial. Foi nessa posição que o decreto de Diocleciano, que já se estendia a todos os cidadãos romanos, exigindo que sacrificassem publicamente a ídolos nas praças públicas uma vez por mês, o atingiu. Ficou então claro que havia muitos cristãos, talvez dezenas ou centenas de milhares, e todos eles estavam destinados a sofrer. Nessas circunstâncias, São Jorge decidiu confessar sua fé em Deus e em Cristo perante o imperador e o Senado.
Enquanto o imperador estava reunido no Senado, tomando decisões, São Jorge entrou e começou a falar longamente sobre sua fé e Cristo como Rei. Ele declarou que, em vez de servir ao imperador de um império pagão, preferia servir a Cristo, e que seu serviço a Cristo não consistiria em empunhar uma espada e participar de combates militares, mas em sacrificar-se por Cristo. Confessou diante de todos que estava pronto para aceitar o martírio. Essa confissão de São Jorge, que conquistara o amor do imperador e a admiração do Senado, provocou confusão e pesar, mas também indignação.
O imperador ordenou a prisão de São Jorge. Ele foi encarcerado e obrigado a renunciar à sua fé. Mas, como se recusou, foi submetido a todo tipo de torturas e tornou-se, talvez, um dos mártires mais sofredores: seus pés foram acorrentados em sandálias de ferro em brasa cravejadas de pregos, ele foi torturado na roda, foi jogado ao mar com uma pedra amarrada ao pescoço, mas, como diz o Hino Acatiste, permaneceu de pé sobre as ondas como se estivesse em terra firme. Foi jogado em um poço de cal, mas não sofreu nenhum mal.
Deus concede aos Seus mártires certa força espiritual, e eu vi isso na prisão. Ou seja, pessoas muito fracas, doentes, quase sem respirar, como Gafencu[3], possuíam uma força extraordinária: fossem torturadas, famintas ou definhassem, não sentiam sofrimento e continuavam a confessar a Deus, abençoando seus algozes. Assim foi Gafencu, que aceitou a morte como um santo. O mesmo aconteceu com todos os mártires. Deus lhes dá força, e muitas vezes eles não experimentam sofrimento físico. Sua carne foi dilacerada por garras de ferro, pregos foram cravados em suas mãos e pés, foram queimados no fogo, e ainda assim não sentiram dor. Deus lhes deu essa força para superar o sofrimento.
No meu caso, por exemplo, assim como São Jorge suportou a prisão, eu também a suportei. Assim como São Jorge foi fortalecido por Deus em circunstâncias difíceis, eu também fui fortalecido nos momentos mais difíceis, quando poderia ter perecido não só fisicamente, mas também espiritualmente. Mas a presença do santo me fortaleceu, porque ele transmite àqueles que a ele orame carregam seu nome a firmeza da fé e a proteção espiritual que Deus nos concede por meio dele.
Recorra ao santo cujo nome você carrega, e ele o ajudará. Recorra a ele em tempos de tristeza, doença, circunstâncias difíceis e em momentos de alegria: “São João, meu protetor (ou São Jorge), rogue a Deus por mim, pecador!” Recorra a ele, e ele ouvirá sua oração! Ele é nosso advogado diante de Deus, o advogado de todos que carregam seu nome. Ele (e)leva nossas orações a Deus e intercede por nós.
E no fim de nossas vidas, quando partirmos para o outro mundo, nosso patrono estará ao nosso lado. Se o veneramos e oramos a ele, ele estará ao lado de nosso anjo da guarda para nos defender dos acusadores de Satanás.
Isso porque, no julgamento particular, o diabo expõe todos os nossos pecados, até mesmo aqueles de que não nos lembramos, os revela a todos e os lança na balança. Precisamos de um advogado de defesa que apresente nossas boas ações. Seremos tão humilhados que talvez nem nos lembremos de nossas boas ações, assim como nos esquecemos de nossos pecados. Mas o nosso anjo da guarda e o nosso santo padroeiro vêm e pesam todas as nossas boas ações umas contra as outras. E, muitas vezes, uma lágrima pesa mais do que todas as más ações que cometemos ao longo da vida.
Por isso, peço-vos que vos lembreis dos santos cujos nomes carregais e rezem para que vos protejam, protejam a vossa família, nação e todas as pessoas.[4]
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[1] Lúcio Célio Firmiliano Lactâncio (c. 250 – c. 325) – um retórico, conhecido como o “Cícero Cristão” por sua eloquência.
[2] Suas relíquias sagradas foram descobertas em 1971, quando um deslizamento de terra revelou os restos de uma antiga igreja. A vila de Niculicel fica no local da antiga cidade de Noviodunum, agora no Condado de Tulcea.
[3] Gafencu Valeriu (1921–1952) – Novo Mártir Romeno. Em 1941, ele foi preso por participar de um movimento juvenil ortodoxo e condenado a 25 anos de prisão. Apesar das condições terríveis, tortura e abusos, fisicamente exausto e gravemente doente, ele manteve uma notável fortaleza e fidelidade à sua fé. Morreu na prisão, de forma inabalável, abençoando seus carcereiros, que o honraram à sua maneira, permitindo que os prisioneiros se despedissem dele.
[4] Extraído do livro: Padre Gheorghe Calciu. Palavras Vivas. Bacau: Editura Bonifaciu, 2009.
Padre-Confessor Georges Calciu
tradução de monja Rebeca (Pereira)







