NOSSO PENTECOSTES PESSOAL

“E apareceram línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles; e começaram a falar em diversas línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem.” (Atos 2:3-4)

Após a Sua Ascensão, quando o Salvador cumpriu a Sua promessa e enviou o Espírito Santo, o Consolador apareceu aos seguidores de Cristo como línguas de fogo. Como resultado da operação do Espírito, os discípulos falaram em línguas estrangeiras e foram guiados quanto ao que dizer.

É extremamente significativo que, no dia de Pentecostes, a manifestação do Espírito Santo tenha assumido a forma de línguas, e que o primeiro resultado do batismo dos discípulos no Espírito Santo tenha sido a capacidade de falar em línguas diferentes das suas.

Primeiramente, isso afirma o caráter universal da missão de Cristo, uma missão realizada para todas as nações, resultando no derramamento do Espírito Santo.

Além disso, os Serviços Divinos cantam o Pentecostes como uma inversão do que ocorreu na Torre de Babel (Gênesis, capítulo 11). “Antigamente, as línguas foram confundidas por causa da audácia na construção da torre, mas agora as línguas são sábias por causa da glória do conhecimento divino. Ali, Deus condenou os ímpios por causa de sua ofensa, e aqui Cristo iluminou os pescadores pelo Espírito. Naquele tempo, a confusão das línguas foi perpetrada para punição, mas agora a concórdia das línguas foi inaugurada para a salvação de nossas almas.” (“Glória… agora e sempre”, versículo para os Apostichas na Vigília de Pentecostes) “Outrora, quando Ele desceu e confundiu as línguas, o Altíssimo dividiu as nações; e quando dividiu as línguas de fogo, chamou todos os homens à unidade; e em uníssono glorificamos o Espírito Santo.” (Cântico para a Festa)

Em Babel, uma falsa unidade, estabelecida por orgulho, levou à dispersão de todos os homens e à confusão entre os habitantes da Terra. As diversas “línguas”, nesse caso, tornaram-se indicativas de divisões, da incapacidade do homem de compreender a Deus, ao seu próximo e ao ambiente. No Pentecostes, porém, as muitas “línguas” do Espírito Divino tornaram-se um sinal e uma fonte de unidade, uma profunda unidade estabelecida pelo amor a Cristo, que só pode ser concedida pelo próprio Deus.

De grande importância também é o fato de que o fruto do trabalho dos discípulos no Pentecostes foi o acréscimo de cerca de três mil almas à Igreja (Atos 2:41). Aqui começamos a entender o que o Senhor quis dizer quando disse aos Seus escolhidos que, dali em diante, seriam pescadores de homens. Ao ouvirmos falar de um número tão grande de pessoas trazidas para a Igreja por Pedro e os onze, lembramos que, durante o ministério terreno de Cristo, foi somente quando os discípulos obedeceram à Sua vontade que fizeram uma pesca tão abundante que a sua “rede se rompeu”. (Lucas 5:4).

O que aconteceu naquele quinquagésimo dia após a ressurreição de nosso Senhor foi o (pre)enchimento dos discípulos com o Espírito Santo, sua transformação na Igreja. Pentecostes é o dia da fundação da Igreja. A partir desse momento, os discípulos foram capacitados a fazer o que nosso Senhor lhes disse: “Assim como o Pai Me enviou, Eu também vos envio” (João 20:21).

O relato do que os discípulos fizeram a partir do dia de sua “capacitação” é claramente um assunto histórico. Sabemos que, mesmo na época de São Paulo, o Evangelho já havia chegado à Espanha, no Ocidente, e, segundo relatos, à Índia, no Oriente. No início do século IV, o Imperador Constantino não apenas pôs fim à perseguição aos cristãos, mas também concedeu à Igreja um status oficial. Os cristãos, em certa medida, ocupavam, nessa época, todas as cidades e vilas. E ainda havia aqueles que estavam dispostos, se necessário, a dar a vida por Cristo. A partir desse momento, a Igreja jamais perdeu a convicção de que Jesus lhe havia dado o estrito mandato de “capturar” o mundo inteiro, de trazer todos os homens para a Sua rede. Os discípulos — e aqueles que vieram depois deles — estavam convencidos de que a mensagem que lhes fora confiada por Cristo era vital, uma questão de vida ou morte. Foi por isso que conseguiram convencer tantos, porque eles próprios estavam convencidos.

Falando da nossa situação contemporânea, pode-se dizer que, em algum momento, muitos membros da Igreja perderam esse senso de urgência em relação à Fé. O Cristianismo Ortodoxo tornou-se, para muitos dos seus adeptos, simplesmente a religião nacional de certos povos, parte da sua cultura, do seu ethos. A própria ideia de que a Ortodoxia é de vital importância porque a salvação do mundo depende dela é completamente estranha para muitos.

Mas, graças à inspiração do Espírito Santo, muitos na Igreja compreenderam as profundas implicações das palavras de Cristo aos seus discípulos numa ocasião específica, quando nada podiam fazer por um homem que precisava de cura: “Trazei-o a mim”.

A Igreja, nos nossos dias, está a recuperar o seu profundo compromisso com este mandamento relativo ao mundo inteiro: “Trazei-o a mim”. Devemos levar aqueles que precisam de cura — e quem não precisa da cura que Cristo traz? — ao nosso Senhor, o único e verdadeiro Médico das almas e dos corpos.

Vamos então analisar até que ponto temos conseguido cumprir o mandamento de Jesus. A bem da verdade, considerando o número de ortodoxos neste país e os recursos disponíveis, não temos alcançado nosso potencial em termos de fazer novos discípulos. Pelo menos uma das razões para qualquer aparente fracasso reside em nossa própria falta de convicção. Devemos nos perguntar, portanto, se estamos convencidos, cada um de nós individualmente, de que nossa fé cristã ortodoxa é a coisa mais preciosa que possuímos, que é absolutamente essencial que aqueles com quem entramos em contato a conheçam? De modo geral, de acordo com a forma como vivemos no dia a dia, muitos de nós teríamos que responder “não” às perguntas acima. E, no entanto, para que o Corpo de Cristo cresça, a resposta deve ser “sim”. Não podemos transmitir aos outros o que nós mesmos não temos. O Cristianismo é tão maximalista em termos do que se espera do homem — falamos de sermos crucificados com Cristo e de perdermos nossas vidas por Ele e pelo Evangelho — que, para alguém acreditar nas afirmações de seus seguidores, a Fé precisa ser vista sendo vivida por aqueles que a pregam. Assim, em relação à Festa de Pentecostes, nossa própria missão nos Estados Unidos começa com a valorização do que já nos foi dado: “o selo do dom do Espírito Santo”. Em nossa Crisma, que é o nosso Pentecostes pessoal, o mesmo Espírito foi concedido para nossa iluminação e transformação, a fim de nos capacitar a sermos “guerreiros invencíveis” e testemunhas da Fé, como foram os discípulos de Cristo há 2000 anos. (Hinos festivos extraídos do Pentecostarion, publicado pelo Monastério da Santa Transfiguração, Boston, MA.)


Arcebispo Dmitri (Royster)
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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