O evento da Ascensão do Senhor é descrito em detalhes apenas por Lucas, o Evangelista. Mateus, o Apóstolo, e João, o Evangelista, não o mencionam, e Marcos, o Evangelista, o descreve em seis palavras. Lucas o narra em detalhes, pois somente a ele foi compreendido, tendo tido perfeita compreensão de todas as coisas desde o princípio, para escrever, com toda a certeza, aquilo em que fora instruído, ao seu discípulo, excelentíssimo Teófilo. Além disso, encontramos Lucas relatando a Ascensão do Senhor não apenas no final de seu Evangelho, mas também no início do Livro dos Atos dos Apóstolos, sublinhando inegavelmente a ligação inquebrável entre a pregação de Cristo e o trabalho apostólico posterior de Seus discípulos. A semente da Verdade Evangélica, semeada na história do Novo Testamento, rompe a casca como uma jovem semente na história da Igreja do Novo Testamento.
Na narrativa evangélica sobre a Ascensão, lemos sobre como os discípulos, após adorarem o Cristo ascendente, retornaram a Jerusalém com grande alegria. O que os alegrava? Sua alegria pode parecer estranha. Seu Mestre os havia deixado apenas um mês após a Sua Ressurreição, tendo reacendido suas esperanças de que, naquele momento, Ele restauraria o reino de Israel. Pouco mais de um mês antes, eles haviam parado de se esconder em suas casas, com medo dos judeus. Cristo havia ressuscitado e a comunicação constante com o Mestre ressuscitado os enchia de coragem e confiança na segurança de estarem ao Seu lado. Os ensinamentos inspirados de Cristo sobre o Reino de Deus — algo que eles não conseguiam compreender antes — não lhes permitiam pensar no que aconteceria depois da partida do Mestre. Será que eles sequer sabiam que Ele partiria? Sem dúvida, sabiam. É aí que se esconde a resposta para a pergunta sobre por que se alegraram tanto com a Sua Ascensão. Lucas, o Evangelista, não combinou por acaso a história da Ascensão de Cristo com a conversa de despedida de Cristo com os apóstolos, quando Ele abriu o entendimento deles para que pudessem compreender as Escrituras. Juntamente com as histórias sobre algo que eles não conseguiam assimilar antes, o Senhor os preparou para a Sua partida, repetindo: “É para o vosso bem que Eu vá, porque, se Eu não for, o Consolador não virá para vós; mas, se Eu for, Eu O enviarei a vós” (João 16:7). Pela promessa do Espírito Santo, o Senhor traz alegria aos discípulos em vez de tristeza; Ele lhes infunde alegria pela separação iminente. E, na verdade, não há separação alguma, porque “estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos”. É isso que lemos no Evangelho de Mateus, que não menciona a Ascensão.
E será que Cristo não poderia ter partido? Poderia Ele não ter partido, mas, em vez disso, ter atraído para as Suas “redes” uma enorme “pesca”, usando todas as capacidades do Seu corpo ressuscitado, caminhando jubilantemente com os apóstolos por todo o mundo? Talvez pudesse. Mas isso teria sido um retorno às tentações do deserto e uma tentativa de cristianizar o mundo inteiro por meio de “pão e circo”, uma tentativa de plantar o Reino dos Céus na Terra. Tudo isso o Deus-Homem rejeitou durante a Sua vida terrena, tão aflita, pois o Meu Reino não é deste mundo. E a corrupção e a morte não são lugar para o Ressuscitado, Imortal e Imutável.
Quem é Cristo — uma figura de autoridade ou a Verdade?
O Senhor indicou que Sua partida estava ligada à necessidade da vinda do Consolador, o Espírito da Verdade. Por que o Espírito da Verdade não poderia vir na presença carnal e visível de Cristo? Um de nossos estudiosos da Eslavônia¹ tem uma reflexão interessante sobre isso. Refletindo sobre a Ascensão do Senhor, ele se pergunta: Quem é Cristo — uma figura de autoridade ou a Verdade? Cristo é a Verdade, como Ele mesmo disse. Mas, enquanto esteve com os discípulos, permaneceu uma figura de autoridade. E não porque fosse isso que Cristo desejasse, mas por causa da fraqueza humana comum de “engrandecer” o Homem que ressuscitou os mortos e alimentou milhares com alguns pães. A figura de autoridade de Cristo cresceu ainda mais em estatura aos olhos de Seus discípulos após a Ressurreição. Isso representava o perigo de que eles e os futuros discípulos seguissem Cristo não por aceitarem a verdade de Seus ensinamentos, mas por causa do que a figura de autoridade de Cristo fez e ensinou. Assim, para que pudessem receber a Verdade — o Espírito Santo — Cristo teve que ocultar Sua presença, mudar Sua imagem de unidade com os discípulos. E a partir daquele dia, é o Espírito Santo, o Espírito da Verdade, enviado por Ele do Pai, que nos une a Cristo.
Os Padres da Igreja, ao discutirem a Ascensão do Senhor, veem nesse evento o cuidado da Providência de Deus para com a humanidade. São Dmitry de Rostov apresenta uma ilustração vívida de como o distanciamento do Senhor aproxima Sua ajuda de nós. Assim como qualquer rei, reunindo um grande número de guerreiros em um exército e desejando ver todos os seus regimentos, sobe a um lugar alto, a uma montanha ou a algum edifício, para ver e organizar tudo de tal altura, assim também o nosso Senhor, o Rei dos reis, reúne a Igreja Militante na Terra, que tem tantos regimentos quantas são as fileiras, e ascende aos altos céus para ver os feitos de cada um daquela altura. Ele tece coroas para aqueles que se dedicam bem às suas lutas ascéticas diárias; estende a mão para ajudar os cansados, levanta os caídos e os fortalece em sua luta contra o adversário, cria obstáculos contra aqueles que nos perseguem. O primeiro mártir, Santo Estêvão, permaneceu fiel ao Senhor através do martírio quando foi apedrejado pelos hebreus, e o nosso Senhor, do alto da Sua glória, abriu o céu e olhou para ele, de modo que o mártir clamou: Vejo os céus abertos, e o Filho do Homem em pé à direita de… Deus.2
O Senhor ascende ao céu para abrir o caminho e providenciar a passagem para todo cristão.
O Senhor ascende ao céu para abrir e prover o caminho para lá a todo cristão, pois antes da Ascensão de Cristo ao céu ninguém tinha um caminho para o céu: “E ninguém subiu ao céu, diz o apóstolo, senão Aquele que desceu; e Aquele que desceu é o mesmo que subiu acima de todos os céus” (João 3:13; Efésios 4:10). Antes, ninguém podia ascender ao céu, mesmo que fosse justo e santo… Quando nosso Senhor, revestido da natureza humana, ascendeu ao céu, revelou imediatamente o caminho para o céu a toda a humanidade. As almas dos santos patriarcas e profetas, santos, mártires e confessores, libertados do inferno, seguiram Cristo por esse caminho; agora, as pessoas dignas e justas, que seguem os passos de Cristo, ascendem ao céu por meio de Cristo; agora o caminho para o céu é conhecido por todos — o caminho que ninguém jamais ouvira falar; somente, ó povo! não sejais preguiçosos em ascender! “Isso”.3
O Senhor também ascende, como Ele mesmo disse, para preparar um lugar para o verdadeiro cristão, para que ele possa viver e reinar com Cristo. Na casa de Meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, Eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar. E, se Eu for e vos preparar lugar, virei outra vez e vos levarei para Mim mesmo, para que, onde Eu estiver, estejais vós também. (João 14:2-3). Esta razão é boa e cheia de alegria. O Senhor ascendeu de nós ao céu para preparar um lugar: Para os que amam a Deus, um lugar entre os serafins; para os sábios em Deus, entre os querubins; para os que são portadores de Deus, entre os tronos que são portadores de Deus; para os bons senhores, entre os domínios; para os valentes guerreiros, que se dedicaram à sua pátria, entre as potestades; para as diversas autoridades, entre as autoridades; Diversos líderes, que governam seus domínios de acordo com a lei de Deus, terão seu lugar entre os principados angelicais; aqueles que consolam seus amigos e os pobres e os ajudam em desastres e infortúnios terão seu lugar entre os arcanjos; E, finalmente, aqueles que vivem na carne na terra como anjos terão seu lugar nos céus, juntamente com os anjos”.4
E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim (Jo 12,32): O Senhor ascende, mas continua a fazer a obra de plantar a Sua Igreja na Terra. Ele envia os apóstolos ao mundo, acompanhando-os e auxiliando-os em todos os lugares — pois Ele tem outras ovelhas que não são deste aprisco; a essas também deve conduzir (cf. Jo 10,16).
Finalmente, o Senhor ascende de nós ao céu para interceder por nós diante de Deus Pai. “Eis o que diz o Evangelista: Se alguém pecar, temos um advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo, que é a propiciação pelos nossos pecados” (1 Jo 2,1-2). O apóstolo Paulo diz em sua Epístola aos Hebreus: “Porque Cristo não entrou num santuário feito por mãos humanas, mas no próprio céu, para agora comparecer por nós perante a face de Deus” (Hb 9:24), e na Epístola aos Romanos: “Pois foi Cristo quem morreu, ou melhor, quem ressuscitou dentre os mortos, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós” (Rm 8:34).⁵
Nas profundezas do mistério da Santíssima Trindade está um homem: o homem Jesus Cristo. Sua natureza humana repousa nas profundezas de Deus.
O fundamento para receber esses dons é a participação da natureza humana na vida divina, honrada pela Sabedoria de Deus. Deus, na Pessoa do Deus-Homem, uniu-Se à humanidade e a elevou à direita de Deus Pai, de modo que agora, segundo São João Crisóstomo, contemplamos com temor e surpresa que, nas profundezas do mistério da Santíssima Trindade, existe um homem: o homem Jesus Cristo. A natureza humana, da qual cada um de nós tem a felicidade de ser portador, repousa nas profundezas de Deus. Porque Deus amou o mundo de tal maneira.
E, estando eles com os olhos fixos no céu, enquanto Ele subia, eis que junto deles se puseram dois homens vestidos de branco, os quais lhes disseram: Homens galileus, por que estais olhando para o céu? Este mesmo Jesus, que dentre vós foi recebido em cima no céu, há de vir assim como para o céu o vistes ir (Atos 1:10-11). A Ascensão do Senhor não significa o fim da história do Deus-Homem na Terra. Os mensageiros da Verdade Divina anunciam o fim da história terrestre, juntamente com o qual virá o fim da necessária separação do Mestre dos discípulos, do Pai de seus filhos. A promessa de estar com todas as gerações de discípulos, sempre e até o fim dos tempos, é uma garantia da presença incessante e invisível de Cristo com eles durante o tempo de separação. Mas toda separação chega ao fim. Cristo certamente retornará aos Seus discípulos, concedendo-lhes novos corações e corpos, e transformará o mundo inteiro. E o Seu Reino não terá fim. Ora vem, Senhor Jesus! (Apocalipse 22:20).
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1 Os eslavófilos faziam parte de uma corrente da filosofia russa que se desenvolveu como uma contraposição aos “ocidentalistas”. Essa filosofia representava um retorno às raízes da Rússia no Cristianismo Ortodoxo.
2 São Dmitry de Rostov. Ensinamentos sobre a Ascensão do Senhor nosso Salvador Jesus Cristo.
3 Ibid.
4 Ibid.
5 Ibid.
Sacerdote Dimitry Vydumkin
tradução de monja Rebeca (Pereira)







