Na Ortodoxia contemporânea, estamos acostumados a nos referir a Cristo como um dos membros da Santíssima Trindade. Ele geralmente é chamado de “Cristo, nosso verdadeiro Deus”, e o Evangelho de João, que enfatiza Seu status divino, é, eu diria, o nosso favorito entre os quatro Evangelhos. Ao anunciar a leitura de (digamos) o Evangelho de Mateus, o diácono diz: “Bendito seja o mestre, aquele que anuncia as boas novas do santo apóstolo e evangelista Mateus”, mas quando anuncia uma leitura do Evangelho de João, diz: “Bendito seja o mestre, aquele que anuncia as boas novas do santo apóstolo e evangelista João, o Teólogo”. Os outros evangelistas são honrados, mas somente João recebe o título de “o Teólogo” (um epíteto compartilhado apenas por São Gregório Nazianzeno e São Simeão, às vezes chamado de “o Novo Teólogo”). Como eu disse: João é o nosso favorito.
Observando a história da Igreja, podemos entender o porquê. Desde cedo, e com um acirramento dramático no século IV, a Igreja foi inundada por visões rivais e alternativas sobre quem era Jesus de Nazaré. Ário ganhou destaque no século IV ao sugerir que Jesus era uma criatura, como todas as outras criaturas criadas por Deus, apenas talvez um pouco mais exaltada, como um anjo turbinado (minha descrição, não dele). Para Ário, Jesus era divino apenas em um sentido honorífico, como um cidadão sendo feito “Rei por um dia”. Ao lidar com as distorções de Ário, a Igreja se voltou com gratidão para a clareza enfática do Evangelho de João. Esse Evangelho começa com uma afirmação contundente da divindade de Cristo (“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”) e culmina com uma confissão da mesma (quando Tomé se prostra diante de Jesus, exclamando: “Meu Senhor e meu Deus!”). A partir do século IV, a primazia do Evangelho de João foi assegurada. Diante da crescente multidão de heresias, a Igreja continuaria a declarar a divindade de seu Salvador e a se referir a Ele quase que reflexivamente como “Cristo, nosso verdadeiro Deus”.
Isso é bom. Mas não deve nos fazer perder de vista a importância de Ele ser também “Cristo, o verdadeiro homem”. A Teologia Ortodoxa, formada por sua resposta aos desafios e heresias que enfrentou, adota uma abordagem teológica em relação a Jesus: pensamos n´Ele principalmente como o Verbo pré-eterno e divino que mais tarde Se tornou homem por nossa causa. Mas os primeiros discípulos não começaram assim. Eles começaram com uma abordagem fenomenológica. Ou seja, primeiro O conheceram como um homem como eles, verdadeiramente e completamente humano e (além disso) autenticamente judeu. Pois, assim como Seus primeiros discípulos, Jesus Se referia ao Deus de Israel como Seu Deus (compare Seu clamor na cruz em Mc 15:34 e Sua referência a Deus após a ressurreição em Jo 20:17). Ele orava a Deus como todos os Seus compatriotas judeus e ensinava que o maior mandamento da Lei era amar o Deus de Israel (Mc 12:29-30). Eles foram além, descobrindo e proclamando que esse Homem também era divino.
Fazemos bem em lembrar disso, porque muitas vezes tendemos a abraçar secretamente uma espécie de criptodocetismo. (“Docetismo” é o nome dado à visão de que Jesus não era verdadeiramente humano, mas que apenas parecia — do grego dokeō — sê-lo.) Nós, cristãos ortodoxos de hoje, lembramos com facilidade que Jesus é divino. Lembramos com menos facilidade que Ele também é completamente humano. É como se Cristo tivesse assumido nossa humanidade em Belém e a deixado para trás como uma roupa usada em Sua Ascensão. Não é assim: a humanidade que Ele assumiu por nossa causa em Seu nascimento, Ele mantém para sempre.
É especialmente importante lembrar disso na Festa da Ascensão, pois a Ascensão não é apenas o triunfo de Deus, mas ainda mais o triunfo do Homem. Não glorificamos a Deus menosprezando o homem e negando à humanidade a sua devida glória. O humanismo, com sua ênfase no esplendor da pessoa humana, ao menos acerta nesse ponto. O homem é glorioso, esplêndido e digno de louvor. Ele se degradou pelo pecado e pelo egoísmo, mas a glória permanece, como o ouro coberto por uma camada de sujeira. Este é o ponto do salmista no Salmo 8: “Que é o homem, para que te lembres dele? E o filho do homem, para que o visites? Tu o fizeste um pouco menor do que Deus e o coroaste de glória e majestade”. A glória do homem permanece, quer se traduza o termo hebraico elohim nesta passagem como “Deus” ou “os anjos”. O homem mantém sua posição real na criação terrena de qualquer maneira, e está apenas ligeiramente abaixo daqueles que estão no céu, porque Deus “colocou todas as coisas debaixo dos seus pés”.
A Igreja sempre proclamou que a glória e o destino supremos do homem encontram sua plenitude em Jesus. Ele é o Filho do Homem a quem Deus submete todas as coisas, colocando-as debaixo dos Seus pés. Ele é Aquele a quem Deus coroou com glória e honra (ver Hb 2:6-9), o verdadeiro e representativo Homem que reina sobre toda a criação. E o momento dessa coroação, dessa exaltação final e suprema, foi a Ascensão.
Esse é o verdadeiro significado da Ascensão, e por isso ela representa o triunfo do homem. Em Jesus, o homem assume o trono que Deus preparou para ele, reinando finalmente e verdadeiramente como rei sobre o resto da criação. No Cristo ascendido, sentado à direita de Deus para governar o cosmos com Ele, a humanidade encontra seu verdadeiro destino, glória e propósito.
A Ascensão, contudo, também revela que essa verdadeira glória provém da submissão à vontade de Deus. O humanismo reconhece corretamente que o homem é um ser glorioso, mas erra ao supor que o homem possa ser glorioso enquanto se rebela contra Deus. O humanismo secular (houve muitas vertentes do humanismo ao longo dos anos) chega a declarar que a glória do homem consiste em rebelar-se contra Deus. Tudo isso é inútil. O homem encontra sua verdadeira dignidade ao se ajoelhar diante de Deus; sua verdadeira vocação em adorá-Lo com gratidão.
O Salmo 8 revela isso, assim como o exemplo de Jesus. No Salmo 8, vemos que foi Deus quem “fez o homem um pouco menor do que Deus” (v. 5); Foi Deus quem o fez dominar sobre as obras de Suas mãos e sujeitou todas as coisas debaixo dos seus pés” (v. 6). O homem não alcançou tais alturas por seu próprio esforço, por uma espécie de “triunfo da vontade” (para citar um antigo e assustador documentário). O homem não se glorifica erguendo-se por seus próprios méritos (foi Pelágio quem pareceu minimizar nossa necessidade de Deus). É Deus quem o glorifica, como Seu dom, à medida que o homem se submete em amor à Sua vontade.
A vida de Jesus também revela isso. Cristo, o Homem, sempre fez a vontade de Seu Pai, mesmo que isso Lhe custasse suor e sangue no Jardim do Getsêmani e na Cruz. Em obediência, “Ele ofereceu orações e súplicas àquele que o podia livrar da morte, e foi ouvido por causa da sua piedade” (Hebreus 5:7). Foi por causa dessa obediência e humildade perante a vontade divina, desse esvaziamento salvador de si mesmo, que “Deus o exaltou soberanamente e lhe deu o Nome que está acima de todo nome” (Filipenses 2:8-9). Primeiro veio a Cruz, e só depois, a Coroa; primeiro as lágrimas de joelhos no Jardim, e só depois disso, o assentar-se à direita. A glória de Cristo foi fruto de Sua humildade e de Sua obediência à vontade do Pai. Ele provou ser verdadeiramente Homem quando Se ajoelhou e orou; Ele provou ser verdadeiramente Homem quando se converteu da Sua própria vontade para a do Pai. E por causa dessa obediência humana, Deus O exaltou, ressuscitando-O dos mortos e trazendo-O à Sua direita em glória.
A glória ascendida de Cristo, portanto, aponta o caminho de volta para nós também. A glória que Cristo recebeu do trono de Seu Pai é a mesma glória que Ele compartilhará conosco (ver Apocalipse 3:21). Mas devemos seguir os passos de Sua humildade se quisermos finalmente alcançar seu glorioso objetivo. A Ascensão nos chama a sermos autenticamente humanos, a cumprirmos nosso destino servindo e amando a Deus. O Homem Cristo Jesus não apenas revelou a glória do Pai, mas também a verdadeira glória da humanidade.
Sacerdote Lawrence Farley
tradução de monja Rebeca (Pereira)






