Todas as repreensões e todos os mandamentos do Evangelho têm como objetivo o amor, a superação dinâmica do individualismo egocêntrico, por meio da qual a imagem de Deus na Trindade se realiza no ser humano. O mandamento do amor é “a plenitude da lei” (Romanos 13:10), não como uma lei mais perfeita e eficaz, nem como um complemento da Lei, mas como seu cumprimento e “fim”: é o evento no qual o objetivo da Lei se torna realidade e encontra sua plenitude.
Consequentemente, é um equívoco, senão uma negação da mensagem do Evangelho, interpretar o amor como alguma virtude individual, mesmo a mais importante, de acordo com os padrões da ética convencional, baseada em “boas relações” e reduzida a “altruísmo” e “amor ao próximo”. O amor do Evangelho incorpora apenas o esvaziamento (= kenosis) do segundo Adão; ele estabelece a vida e a existência dentro da realidade da natureza criada e mortal do homem. O objetivo do amor não é simplesmente melhorar nosso comportamento social. Seu objetivo é “a unidade que a Santíssima Trindade tem como mestra”, nas palavras de Santo Isaac, o Sírio.
Uma expressão direta dessa conexão entre o amor mencionado no Evangelho e o protótipo trinitário de nossa existência pode ser encontrada na “oração sacerdotal” de Cristo, no capítulo dezessete do Evangelho de João. A oração de Cristo ao Pai, por Seus discípulos e por todos os que crerem n´Ele por meio de Sua pregação, é uma oração por todos os membros da Igreja: “para que todos sejam um, assim como Tu, ó Pai, estás em Mim e Eu em Ti, que eles também sejam um em Nós” (João 17:21); “Para que sejam um, assim como Nós somos um” (João 17:22).
Esta referência ao modo de existência divina, à unidade trinitária e à comunhão das pessoas, mostra que o amor é “o primeiro e maior mandamento” (Mateus 22:38). Desta forma, o amor é identificado com a restauração da imagem de Deus no homem e o retorno do homem à verdadeira existência e vida: “porque o amor vem de Deus, e todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus… porque, assim como Ele é, também nós somos neste mundo” (1 João 4:7; 4:17). A separação e a “dispersão” dos filhos de Deus são obra da queda e da morte. A obra da vida e da imortalidade – a obra da Igreja – é “reunir em um só corpo os filhos de Deus que estão dispersos” (João 11:52), a fim de criar um corpo: “Porque nós, embora muitos, somos um só corpo em Cristo” (Romanos 12:5). A unidade da Igreja não é simplesmente um fato sociológico ou uma conquista moral. É a revelação da verdade e a manifestação da vida. Somente no evento existencial que a unidade da Igreja representa é que conhecemos o homem como ele realmente é, com suas particularidades pessoais e a liberdade do seu amor. Conhecemos a Deus e alcançamos comunhão e relacionamento com Ele somente na medida em que estamos em harmonia com o modo de ser pelo qual a Igreja se une. A unidade da Igreja manifesta a verdade da existência e da vida “agora em um espelho e em um lugar escuro” (1 Coríntios 13:12), visto que a unidade ainda é uma progressão dinâmica do arrependimento à perfeição: “Porque conhecemos em parte… mas, quando vier o que é perfeito, o que é em parte será aniquilado” (1 Coríntios 13:9-10) – “agora conheço em parte; então conhecerei face a face” (1 Coríntios 13:12). Mas qualquer revelação da verdade que uma pessoa possua, mesmo em um espelho e em um enigma, ela se reúne na unidade e no amor da Igreja.
Christos Yannaras
tradução de monja Rebeca (Pereira)







