Sermão do Metropolita Amfilohije (Radovich) de Montenegro e Litoral, de bem-aventurada memória, no Monastério de Cetinje aos 10 de dezembro de 2006
Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
A Sagrada Revelação de Deus, escrita por homens santos de Deus, inspirados pelo Espírito de Deus – os santos profetas, os santos apóstolos e todos aqueles que, ao longo dos séculos, viram a Deus, contemplaram a Deus e agradaram a Deus – contém as verdades mais profundas sobre este mundo em que vivemos, sobre nós, seres humanos, sobre a nossa história, seja a história de toda a humanidade ou a história de cada indivíduo. Na Sagrada Revelação, tudo está escrito, tudo é revelado, tudo é tornado conhecido e tudo está presente, tudo o que aconteceu, tudo o que ocorreu ao longo da história. Ela contém o que fomos e o que somos, bem como o mundo em que vivemos, o que somos e o que seremos – as verdades mais profundas da vida.
Então, na passagem que lemos hoje, do apóstolo e evangelista Lucas, nos é revelada a grande verdade da vida. O Senhor, em linguagem simples, discreta, em forma de histórias, nos aponta o que é mais essencial, o que é mais importante. E ele dirá: “Esta noite, pedirei a tua alma; o que tens preparado, de quem será?” Assim diz o Senhor ao homem cujo campo produziu trigo, que se perguntava o que fazer com tanto trigo e tanto fruto, e pensou: “Derrubarei os celeiros velhos e construirei novos”. E assim fez. “Então direi a mim mesmo: ‘Minha alma, levanta-te, come, bebe e alegra-te'”. E então a Palavra de Deus lhe apareceu, o Senhor lhe apareceu, e disse: “Tudo o que tens guardado nos teus celeiros, toda a tua riqueza, o que acontecerá se Eu vier esta noite e levar a tua alma?” E o Senhor acrescenta: “Assim acontece com os que se sustentam com o próprio dinheiro, mas não são ricos para com Deus”.
Uma história curta, simples, para não dizer infantil, mas tão significativa e tão verdadeira! Ela contém o nosso comportamento humano. Existe em nós, humanos, um profundo anseio de fazer como este homem, este chefe de família, fez: acumular tesouros para nós mesmos aqui na terra, criar nossos próprios celeiros e pensar que nesses tesouros, nesses celeiros, no que adquirimos aqui na terra, está o objetivo final de nossa vida, ganhar riqueza aqui e depois sentar e desfrutar. Quantas pessoas hoje definem o único objetivo de suas vidas precisamente como adquirir riqueza, não porque a riqueza seja desnecessária para o homem, mas porque Deus providenciou que seja necessário para o homem adquirir, trabalhar, prover para sua vida aqui na terra, sua vida física. Tudo isso é necessário para o homem, Deus sabe que o homem precisa disso. Deus sabe porque Deus criou o homem e lhe deu dons para ser capaz de trabalhar, fazer, criar, para que ele pudesse adquirir e então ser capaz de prover para sua vida, construir uma casa para si e para seus filhos. Tudo isso é claro para todos.
Mas, quando um homem pensa em seu coração que este é o único objetivo de sua existência aqui na Terra, então começam a desgraça e a loucura do homem. E muitos hoje roubam a si mesmos e aos outros para adquirir riqueza. Quantos existem, aqui e em outros lugares, que se tornaram bilionários da noite para o dia, investindo toda a sua força e inteligência para adquirir e ganhar, seja de forma honesta ou desonesta? Cada um deles, como aquele chefe de família da parábola do Evangelho, pensa lá no fundo: “Vou construir grandes celeiros, vou construir bancos, vou construir grandes edifícios, vou adquirir uma grande propriedade e então vou me sentar, viver e ser feliz”. Mas, mais cedo ou mais tarde, todos, não importa quem sejam, cada um deles e cada um de nós, se verá diante desta pergunta: “E se eu levar sua alma esta noite? E se o anjo da morte vier esta noite, o que acontecerá com tudo o que você adquiriu e ganhou?”
Nestes dias, um pequeno livro maravilhoso foi publicado por um monge, Arsênio, de um de nossos monastérios, intitulado: “Deus e o Rock and Roll”. Um jovem, e ele não é o único, quantos outros houve e quantos há agora, que se aventuraram por esse caminho, em busca de tais prazeres, acreditando que na brincadeira e na alegria, na satisfação de suas paixões e desejos corporais, encontrariam a plenitude da vida e a alegria terrena e celestial. Este monge descreve com grande tristeza seus companheiros, com quem partiu, como um jovem moderno, para alcançar a plenitude do amor, a plenitude da vida através da música contemporânea, das drogas, da satisfação de suas paixões corporais. E descreve um a um seus camaradas, cujo fim foi a decadência e a desintegração e, finalmente, a morte, nomeando-os com profunda tristeza, agradecendo a Deus por, depois de vagar por Paris, Nova York e Londres, tê-lo chamado, agradecendo, certamente, às orações de seus pais. Por trazê-lo de volta, por fazê-lo recuperar a consciência e retornar ao caminho do Senhor, compreendendo o significado mais profundo de sua vida, lamentando por seus camaradas, entre os quais ele também menciona, em um passado recente, figuras proeminentes que, enquanto governavam este país, acabaram em decadência, fornicação, drogas e que foram mortas prematuramente, todos eles.
É isso que acontece com aqueles que são egocêntricos, que pensam que toda riqueza está na riqueza material e que toda saúde está na saúde física, e que pensam que a única vida é esta vida que vivemos, esta vida transitória, que pensam que não há Deus, que não há consciência, que não há vida eterna! Uma das doenças mais terríveis do homem moderno de hoje é precisamente esta doença da perda do sentido mais profundo da vida e da fé perdida na vida eterna, imperecível e imortal do homem! Uma doença terrível que aflige a humanidade moderna, um veneno terrível que cegou e cega os corações humanos, especialmente os corações dos jovens, ainda imaturos, que não são ricos em Deus, que não reconhecem Deus, mas que pensam que a riqueza é terrena e que esta vida é a única vida. Comam, bebam e sejam felizes – como disse o homem da história do Evangelho.
Certamente, tudo o que temos dentro de nós e ao nosso redor são dádivas maravilhosas e milagrosas de Deus para nós, seres humanos, para que, em comunhão uns com os outros, em comunhão e alimentando-nos dos dons de Deus na natureza, possamos viver aqui na Terra, para que possamos nos alegrar, não para deificá-la e nem para nos deificarmos! Mas para que, através de nós mesmos e desses dons divinos, através da natureza em que nascemos e dos dons que Deus nos concede, possamos conhecer, entender, compreender o mistério mais profundo de nossa vida, nosso nascimento, nosso significado, o mistério mais profundo deste mundo em que vivemos. Tudo o que temos e somos é uma dádiva divina milagrosa; é verdade, é bom, é abençoado, é a beleza de Deus, é riqueza, mas não é a riqueza suprema para a qual o homem foi criado, mas apenas aquilo através do qual e pelo qual o homem é chamado a alcançar a riqueza eterna e imperecível.
Por que nós, eslavos, nós, sérvios, temos um nome para o Perfeito e o Inefável, temos o nome de Deus? Precisamente porque n´Ele está a riqueza. E toda riqueza cresce a partir do Seu Nome, do Nome de Deus, e somente é rico aquele que está em Deus, aquele que é rico em Deus! Ele ilumina a riqueza terrena, os bens terrenos, a si mesmo como bens terrenos, ilumina, ilumina e os preenche com o Deus vivo e eterno. Ele santifica tudo o que somos e temos, e tudo o que queremos ser, com o Nome de Deus, para que tudo o que acontece na terra ganhe um significado eterno. Embora nosso nascimento na terra seja temporário, ele ganha um significado eterno e imperecível, e cada evento em nossa vida ganha um significado eterno e imperecível! O que é bom, o que é de Deus, é enriquecido com o Deus vivo e eterno. O que é mau, o que é desonroso, o que é impuro, o que é o abuso dos bens divinos e dos dons divinos, isso perece, isso se desintegra, isso desaparece, isso se transforma em nada mais cedo ou mais tarde.
Uma história tão pequena do Evangelho, mas uma verdade tão grande contida nela. Nesta noite, tomarei a tua alma e tudo o que adquiriste; para quem o adquiriste? Assim acontece com os egoístas e os que não são ricos em Deus.
Que o Senhor, por meio das orações de Seus santos, nos ilumine, para que tudo o que temos, o que somos e o que fazemos aqui seja iluminado e esclarecido por essa luz divina, essa verdade divina, e que tudo o que somos e temos, e nossa vida terrena, receba o verdadeiro e próprio significado, e que nossa reunião seja uma reunião com Deus, uma reunião nos celeiros eternos de Deus, nos celeiros do Reino dos Céus, e não nestes celeiros transitórios, que são apenas uma preparação para o Reino dos Céus. Ao nosso Senhor, maravilhoso em Seus santos, maravilhoso em Suas santas palavras, em sua Revelação, seja dada glória e louvor para todo o sempre. Amém.
Metropolita Amfilohije (Radovich)
tradução de monja Rebeca (Pereira)






