PARTICIPANDO DA VISÃO DE DEUS

Durante a Quaresma, como vocês sabem, estive escrevendo semanalmente sobre a rica profundidade da nossa espiritualidade ortodoxa. Há algumas semanas, falei sobre como o jejum nos abre para os outros e, também, sobre como a Confissão nos permite experimentar a amorosa misericórdia de Deus.

Mas o mistério por excelência é a Comunhão!

Se, como cristãos ortodoxos, entendemos a salvação como união com Deus (teose ou deificação), então a Comunhão é o ápice da nossa espiritualidade!

A palavra diz tudo: “comunhão” é uma palavra latina que significa “comunhão, participação mútua ou partilha”.

Quando comungamos, acolhemos Cristo em nós e somos transformados no Corpo de Cristo. Ou, dito de outra forma, encontramos a união com Cristo e começamos a participar da Sua vida.

Às vezes, as pessoas me perguntam: “O que é o Evangelho… a Boa Nova?”

Não é apenas um sistema ético. É muito mais do que isso.

A Boa Nova é, na verdade, a proclamação do triunfo de Cristo sobre a morte, que leva à transformação do mundo: a nova criação. Irmãos e irmãs, é isso que chamamos de Reino de Deus.

Se Deus tivesse uma “missão declarada”, provavelmente seria algo como: Destruir a morte pela morte, para que todos possam experimentar a nova criação na forma da ressurreição!

A Ceia do Senhor, portanto, é uma oportunidade de avançar e abraçar a visão de Deus da nova criação, de experimentar um vislumbre do novo mundo de Deus.

Se nos afastarmos, não apenas nos excomungamos de Deus (que horror!), mas também dizemos “não” ao Reino. Em outras palavras, nos excluímos da grande visão que Deus planejou para nós.

(Para sua informação, se um sacerdote celebra a Divina Liturgia e não comunga, ele é destituído do sacerdócio! E não é o sacerdote um exemplo — embora imperfeito por sua própria indignidade — para todos nós?)

Sim, a vida espiritual começa com uma mudança de coração (μετάνοια ou arrependimento, que encontra seu ápice na Confissão), mas é sustentada por meio de um encontro regular com Cristo quando comungamos no Banquete Celestial (outro nome para a Divina Liturgia).

Isso é confirmado no que rezamos em cada Divina Liturgia:

“Concedei-nos participar dos Teus Mistérios celestiais e maravilhosos desta mesa sagrada e espiritual com a consciência limpa para a remissão dos pecados, o perdão das transgressões, a comunhão do Espírito Santo, a herança do Reino dos Céus e ousadia diante de Ti, não para julgamento ou condenação.”

Às vezes, as pessoas me dizem: “Padre, eu não jejuei nem fiz minhas orações esta semana. Acho que não sou digno de receber a comunhão esta semana.”

Quando ouço essas palavras, meu coração se parte.

Sim, a Comunhão é importante e devemos levar a sério nossa caminhada espiritual (incluindo o jejum, a oração e a esmola), mas não devemos transformar nossa compreensão da Comunhão em uma forma de legalismo: se eu fizer isso, então me tornarei digno de comungar.

A realidade é que nunca somos dignos de participar da Comunhão. Não há nada que possamos fazer. Podemos jejuar e orar até ficarmos exaustos — não fará diferença alguma.

Somos capazes de comungar, no entanto, por causa da graça e da misericórdia de Deus. Através do Seu amor, Ele nos permite aproximar-nos. É Deus quem nos torna dignos. Eis o que diz a Liturgia:

“Que os nossos lábios, Senhor, se encham do Teu louvor, para cantarmos a Tua glória, porque nos fizestes dignos de participar dos Teus Santos Mistérios.”

“Damos-Te graças, Mestre que amas a humanidade, benfeitor de nossas almas, que neste mesmo dia nos tornaste dignos de Teus Mistérios celestiais e imortais.”

“[Deus,] guia-os a toda boa obra e torna-os dignos de participar, sem condenação, destes Teus puríssimos e vivificantes Mistérios, para a remissão dos pecados e para a comunhão do Espírito Santo.”

O jejum que praticamos e as orações que fazemos NÃO NOS TORNAM DIGNOS de comungar. Somente Deus o faz.

Portanto, se temos enfrentado dificuldades em nossa caminhada espiritual, tudo bem. Afinal, o que o sacerdote diz quando comungamos? É: “O servo de Deus [nome] recebe o Corpo e o Sangue de Cristo para a remissão dos pecados e a vida eterna.”

Além disso, Cristo não deixou a comunhão por nossa conta. Se assim fosse, ou nunca comungaríamos por reconhecermos nossa indignidade e pecadores, ou nos aproximaríamos apenas por arrogância e orgulho.

Quando Cristo instituiu a Eucaristia, suas palavras foram: “Tomai, comei…” e “Bebei dela todos vós…”.

Note que estas são ordens, não afirmações. E, definitivamente, não são sugestões — “se quiserem, então…”.

O mesmo acontece na Divina Liturgia. O sacerdote sai do altar e diz: “Aproximem-se com temor a Deus, fé e amor” — uma ordem para o povo reunido.

Imagine que você foi convidado para um grande banquete oferecido por uma pessoa muito poderosa e famosa. Você chegaria atrasado à casa dela? E, depois de chegar e o anfitrião ter preparado a mesa com um banquete suntuoso, você ficaria num canto se recusando a comer? Claro que não! Isso seria uma ofensa.

Então, se Deus preparou não apenas um grande banquete, mas um Banquete Celestial, e nos convidou a nos aproximarmos e participarmos, por que recusamos nossa Divina Comunhão? (Sem trocadilho?)

Irmãos e irmãs, Cristo Se fez carne e morreu na cruz para nossa salvação e cura. No terceiro dia, ressuscitou dos mortos e, com isso, começou uma nova criação. Esta é a grande visão de Deus: um novo céu e uma nova terra.

Mas Cristo não apenas Se fez carne e morreu na cruz. Ele também Se fez carne e nos ofereceu o Seu próprio Corpo e Sangue! E, ao recebê-lo na comunhão, participamos da Sua vida e do grandioso plano de Deus.

Isso pode ser assustador. Afinal, nunca estamos totalmente preparados. Só existe um: “Santo é um, e só é o Senhor, Jesus Cristo, para a glória de Deus Pai”.

No entanto, Deus nos convida — Ele quer que participemos — da Sua vida. Ele quer que o abracemos através da comunhão.

E, ao fazê-lo, que “… a comunhão do santo Corpo e Sangue de Cristo… se torne para nós fé sem vergonha, amor sem fingimento, plenitude de sabedoria, cura da alma e do corpo, repelente de todo adversário hostil, observância dos Seus mandamentos e defesa aceitável no temível tribunal de Cristo”.

Que a força seja abençoada para todos vocês enquanto continuamos nossa jornada espiritua!


Sacerdote Dustin Lyon
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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