Da boca do apóstolo e evangelista Mateus, ouvimos a “Genealogia de Jesus Cristo”. Esta leitura aparentemente árida do Evangelho expressa a ideia da afinidade entre Deus e o homem. Segundo o ensinamento das Sagradas Escrituras, a afinidade com Deus é uma característica indispensável do homem, que é inseparavelmente “espírito” e “carne”. Essa posição é primordial para o ser humano e deixou de existir por culpa do próprio homem, o primeiro Adão. O homem foi incapaz de retornar a essa norma primordial da vida, e Cristo vem para restaurar o que foi quebrado. O Evangelho de hoje diz que Deus Criador, por meio de Seu Filho, nos aproximou de Si. O Evangelho de hoje diz que Deus restitui ao homem a dignidade que ele perdeu.
Não é por isso que a Igreja nos chama agora a acolher a festa da Epifania e do Nascimento de Cristo com alegria penitencial? Pensem, queridos, não é esta alegria? O próprio Criador, ao assumir a nossa carne, não Se envergonhou de chamar pessoas como nós de Seus parentes, Seus irmãos! Ele não sS envergonha de nos chamar de irmãos, diz São Paulo. Digam-me, queridos: muitas pessoas falam hoje da dignidade do homem, mas em toda a história da humanidade, quando e por quem o homem foi tão exaltado como o Cristianismo o exalta?
A festa do Nascimento de Cristo se aproxima. Lembrem-se, queridos, do Criador desta festa. Pensem no fato de que Ele veio até nós para adotar-nos como filhos de Deus Pai, para que se tornem filhos de Deus, irmãos de Cristo. Preparemos nossos corações para a celebração com arrependimento, pureza, dons de amor e misericórdia, para que o coração de cada um de nós se torne um berço onde nosso Salvador Cristo possa repousar.
Somos todos filhos de Deus? Podemos todos nos chamar irmãos de Cristo? A leitura apostólica que ouvimos hoje, que lista os justos do Antigo Testamento, os ancestrais encarnados de Jesus Cristo, mostra-nos, por meio de seus exemplos, como devemos crer e viver para sermos dignos de sermos chamados filhos de Deus. Aqui está Adão, que nos dá um exemplo de contrição e arrependimento. Pecamos a vida toda, mas será que lamentamos nossos pecados com frequência? Enoch nos dá um exemplo de pensamento piedoso. Ele se esqueceu de todas as coisas mundanas, estando constantemente com Deus. Os destinos do mundo lhe foram revelados até a segunda vinda de Jesus Cristo. Vivendo em meio a um mundo corrupto, Noé foi alvo de ridículo e zombaria, mas jamais vacilou em sua devoção a Deus. Éber é o único de todos os povos que não participou do desafio orgulhoso a Deus, lançado pelo povo enlouquecido em seu orgulho: vamos construir uma torre até o céu (dizem eles, assim alcançaremos a Deus), e sem a Sua participação, criaremos glória para nós mesmos. Por causa de sua fidelidade a Deus e sua humilde devoção a Ele, Éber, juntamente com seus descendentes, foi agraciado com as misericórdias de Deus. E há Abraão, para quem a vontade de Deus era tudo, e Isaac, para quem a obediência aos pais era o alicerce de sua vida. Em Jacob, temos um exemplo de paciência e mansidão; em José, um exemplo de gentileza e castidade; em Job, o paciente, um exemplo de paciência na tristeza e no sofrimento: Bendito seja o Nome do Senhor… Deus deu e Deus tirou, exclamou Job, tendo perdido tanto seus bens quanto seus filhos.
Os mesmos caminhos trilhados pelos homens do Antigo Testamento mencionados acima, o Provedor também está nos guiando, a mim e a você — o Novo Israel. E aqui está Moisés, profeta e líder, legislador e realizador de milagres. Vivendo em luxo e honra no palácio do Faraó, por amor ao seu povo, Moisés abandona tudo, preferindo sofrer com eles: Senhor, é melhor que me destruas do que ao meu povo… Em fé, teologia, fidelidade a Cristo, em meio ao ridículo e à perseguição, em humildade, em devoção à Sua vontade e castidade, em amor sacrificial pelos sofrimentos do seu povo portador de Deus, em outras palavras. Em imitação dos justos parentes do Antigo Testamento na carne do Messias de Cristo, que o Salvador do mundo nos ajude a todos a sermos firmados, para a glorificação d´Aquele Que jaz em uma manjedoura, para Quem estamos nos preparando. Amém.
Bispo Mitrofano (Znosko-Borovsky)
tradução de monja Rebeca (Pereira)








