No dia 22 de novembro, a Santa Igreja honra a memória de São Nectário de Egina (nome secular: Anastácio Kephalas). O kondákion dedicado a este maravilhoso santo diz o seguinte: “Trovão divino, trombeta espiritual, tu que plantas a fé e poda as heresias, agradável à Trindade, ó grande e santo hierarca Nectário, tu que sempre permaneces com os anjos, roga incessantemente por todos nós”. Vejamos mais de perto por que a Igreja lhe conferiu nomes tão expressivos.
O futuro santo nasce em 1º de outubro de 1846 na vila de Silíbria, na Trácia. Seus pais, Dimas e Maria Kephalas, eram cristãos pobres e piedosos. Batizaram o filho com o nome de Anastasios. Desde jovem, ele demonstrou especial piedade e amor pelo aprendizado. Após concluir o ensino fundamental, se dirige à Constantinopla, onde teve que viver na pobreza e trabalhar arduamente. Vivendo no mundo, o jovem fortalecia seu ser interior lendo diariamente o Evangelho e os Padres da Igreja. Aos vinte anos, vai para a ilha de Chios, onde começa a trabalhar como professor, dando exemplo aos outros com sua vida ascética e de oração. Desejando uma vida angelical desde a adolescência, em 1876 é tonsurado monge no Monastério de Nea Moni, onde os irmãos passaram a amá-lo por suas virtudes.
O Ancião do monastério e um rico benfeitor local convenceram o jovem monge a terminar o ensino médio em Atenas. De lá, o hierodiácono Nektarios viaja para Alexandria, onde é acolhido pelo Patriarca Sofrônio IV de Alexandria (1870-1899), que insistiu para que o Padre Nectário completasse sua formação teológica. Em 1885, ele se forma na Escola Teológica de Atenas. O Patriarca o ordena hieromonge e, em seguida, o consagra Metropolita de Pentápolis. Mais tarde, é nomeado pregador, representante e secretário do Patriarca. As pessoas o amavam por suas virtudes e pureza de vida. Mas havia aqueles que o invejavam e obstruíam seu ministério, e o Patriarca acabou por destituí-lo de seus cargos. Nectário aceitou sua situação com humildade, conforme as palavras de Cristo: “Bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por Minha causa” (Mt 5,11). Ele retornou à Grécia, onde continuou a pregar a Palavra de Deus e a escrever livros.
Em Atenas, encontrou-se sozinho, ignorado, desprezado e quase sem meios de subsistência. Mas não guardou nada para si, dando o pouco que tinha aos pobres.
Inicialmente, São Nectário planejou retirar-se no Monte Athos, mas desistiu da ideia. Passou vários anos como pregador e, em seguida, foi nomeado reitor da Escola Teológica de Atenas. Sob sua liderança, a escola desenvolveu-se rapidamente, tanto espiritual quanto intelectualmente. Os alunos encontraram nele um professor com profundo conhecimento das Sagradas Escrituras e dos Padres da Igreja, e ao mesmo tempo um reitor que desempenhava suas funções com grande bondade e atenção a todos. Lecionou teologia pastoral naquela escola. Enquanto isso, as responsabilidades administrativas e de ensino não o impediram de levar uma vida ascética e de oração.
Em 1904, São Nectário funda um monastério em honra da Santíssima Trindade na ilha de Egina, para onde se muda em 1908. O santo dedica todas as suas energias físicas e espirituais à construção do monastério e à orientação espiritual. Frequentemente trabalhava no jardim, participava das obras e buscava viver segundo o espírito dos primeiros monges. A fama de suas virtudes e dons divinos espalhou-se por toda a região, e muitos fiéis acorreram a ele. O santo possuía o dom da cura. Por meio de suas orações, tanto leigos quanto monges eram curados de doenças, e a tão necessária chuva chegava durante períodos de seca. Ele confortava, encorajava, confessava e orava. Era tudo para todos, graças à graça do Espírito Santo que nele habitava. Seguindo o apóstolo Paulo, viveu de acordo com as palavras: “Não mais eu, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2:20). Durante os serviços religiosos e em suas orações particulares, santos e a Mãe de Deus frequentemente lhe apareciam. Nos anos difíceis que se seguiram à Primeira Guerra Mundial, ensina suas monjas a confiar na misericórdia de Deus dia após dia, obedecendo ao mandamento do Salvador:
Portanto, não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o amanhã se preocupará consigo mesmo. Basta a cada dia o seu próprio mal (Mt 6,34). Ele os proíbe de guardar qualquer alimento, exortando-os a dar aos pobres o que sobrasse.
Ao longo de sua vida, São Nectário escreveu grande número de obras sobre teologia, ética e história da Igreja. Em particular, escreveu sobre a paciência nas dores: “Devemos suportá-las com paciência, porque, em primeiro lugar, se formos impacientes, não ouviremos nada e, pior ainda, aumentaremos nossos sofrimentos; e, em segundo lugar, aquele que pacientemente suporta as dores aqui na terra receberá uma recompensa na vida futura, demonstrando em prática, por sua paciência, a fé na vida futura, que é a fé naquele que a prometeu”. Ele cumpriu em prática o que ensinou, sendo caluniado por seus oponentes no final de sua vida. Mas também aqui, ele suportou as provações com paciência, instruindo seu rebanho a fazer o mesmo: “Tenhamos coragem e perseveremos um pouco, para que sejamos considerados dignos da alegria celestial e da glória divina. Sejamos filosóficos em relação às coisas do mundo, para que possamos viver nossas vidas de forma mais positiva. Confiemos em Deus, e Ele, que curou o paralítico, nos ajudará em nossos sofrimentos.” “Perseveremos um pouco mais pelo bem do Reino dos Céus.”¹
Ele ensinou às monjas que lutavam sob seu omóforion um componente importante da vida monástica cenobítica, como segue: “Peçam a Deus amor todos os dias; e isso lhes trará uma infinidade de virtudes. Amem e sejam amadas. Deem amor para receberem amor em troca. Entreguem seus corações a Deus para que permaneçam no amor, pois quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele (1 Jo 4,16). Cultivem o sentimento de amor. Amem-se umas às outras como santas irmãs, e que um amor comum pelo Senhor as una.”
Ele também deixou estas importantes instruções em suas cartas às monjas: “Eu creio, desejo e insisto: sigam um caminho sábio em tudo, vivendo de acordo com as necessidades de vossas vidas e a necessidade de sustentar vossos corpos e saúde, e busquem a perfeição moral. Desejo ardentemente que vocês se fortaleçam nesta virtude, para que possam dizer e sentir: ‘Não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim’ (Gálatas 2:20). Quando alcançarem uma virtude, busquem adquirir também outras virtudes, mas acima de tudo, esta, porque sem ela vocês não farão nada. E que nenhuma de vocês se iluda pensando que orações e súplicas as levarão à perfeição: vocês estarão enganadas; pois o Senhor que habita em nós, cuja vontade fazemos, e que diz que habitará e caminhará em nós quando cumprirmos os Seus mandamentos, nos conduz à perfeição. O único e primeiro mandamento é o seguinte: Que a vontade de Deus — e não a nossa — seja feita em nós, com tal perfeição como no Céu com os santos anjos, que possamos dizer: ‘Ó Senhor, que não seja como eu’”. “Que seja feita a Tua vontade, assim na terra como no céu.” Sem Cristo em nós, as orações e súplicas nos levam à ilusão.”²
Estas cartas contêm instruções importantes sobre a oração: “Quanto aos pensamentos durante a oração, eu lhes digo:
Quando eles vierem, leia em voz alta e não lhes dê atenção, pois quanto mais alguém os ouve, mais eles penetram. “Mude seus pensamentos lendo em voz alta.”³
Sendo um anjo em forma humana, ele viveu com a alma totalmente voltada para Deus, colocando o amor pelo Criador em primeiro lugar em sua vida terrena. Em seu livro, O Cântico do Amor Divino, o santo asceta expressou suas orações e suspiros a Deus nos seguintes versos:
Ó, amor, plenitude do meu coração!
Ó, amor, imagem dulcíssima do dulcíssimo Jesus.
Ó, amor, selo sagrado dos discípulos do Senhor.
Ó, amor, símbolo do dulcíssimo Jesus,
Toque meu coração com o seu desejo.
Encha-o de bondade, benevolência e alegria.
Faça dele a morada do Santíssimo Espírito.
Acenda nele uma chama divina, para que suas paixões miseráveis sejam consumidas e ele seja iluminado, cantando louvores incessantes a você.⁴
Até o fim de sua vida, o santo foi um verdadeiro monge, asceta e pai espiritual de suas monjas, servindo em lugares remotos da Grécia. Sua vida santa e piedosa brilhou como uma luz guia para todos os seus semelhantes, segundo as palavras do Senhor: “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,14). Antes de seu bem-aventurado repouso, sofreu uma longa e dolorosa enfermidade, que suportou com genuína paciência e esperança cristãs. Ele havia previsto seu repouso. São Nectário passou as últimas semanas de sua vida em um hospital em Atenas, onde partiu para o Senhor em 8 de novembro de 1920. Milagres começaram a ocorrer imediatamente após sua morte. Assim, mesmo no hospital, um paciente paralítico foi curado pelas vestes do santo. E há inúmeros milagres e curas acontecendo por meio das orações e intercessões de São Nectário em nossos dias. Roga a Deus por nós, ó santo padre Nectário, para que nos seja concedida a cura e a salvação!
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1 São Nectário (Kephalas), Metropolita de Pentápolis. Obras Completas, Vol. 1. Dez Homilias da Igreja durante a Santa Quaresma. Homilia 2: sobre a Paciência na Tribulação. Atenas: Metrópole de Hidra, Spetses e Egina, Mosteiro da Santíssima Trindade.
2 Arquimandrita Nectário (Ziombolas). A Vida e a Obra de São Nectário.
3 Ibid.
4 O Caminho para a Felicidade / São Nectário de Egina. / Canção do Amor Divino.
Alexandra Kalinovskaya
tradução de monja Rebeca (Pereira)








