SOBRE A VIDA ESPIRITUAL NO MUNDO MODERNO

Arcebispo Alexei (Trader) nasceu nos Estados Unidos em uma família protestante e se converteu à fé ortodoxa na idade adulta. Residiu por muitos anos no Monte Athos, mas foi forçado a retornar aos Estados Unidos devido a problemas de saúde. Ele encabeça a Diocese de Sitka e Alasca da Igreja Ortodoxa na América desde 2022. Na conversa a seguir, reflete sobre como os cristãos ortodoxos devem abordar as discussões sobre o fim dos tempos, em que consiste a vida ortodoxa e como estar aberto ao que existe no mundo com raciocínio cristão.

COMO UM CRISTÃO ORTODOXO PODE SE PREPARAR PARA O FIM DOS TEMPOS

As pessoas falam sobre o fim dos tempos e gostam disso porque essas conversas são cativantes. Esse tipo de conversa é uma espécie de distopia; algumas pessoas admiram distopias. Na minha opinião, a primeira impressão que se tem de conversas sobre o fim dos tempos é que a pessoa é um cristão ortodoxo verdadeiro e comprometido, que fala como tal e que não precisa se preocupar com as aparências. Esses pensamentos surgem:

Enquanto um cristão ortodoxo olha para dentro de si, perscruta a sua alma, observa os seus pensamentos, reações, analisa como desapontou a Cristo, como falhou em ir mais uma milha (ver: Mateus 5:41). Um cristão sente remorso, este se intensifica, ele chora, vai à Confissão, pede ajuda a Cristo, pede ao seu Pai Espiritual que leia a oração de absolvição sobre ele, deseja muito receber a Sagrada Comunhão, reza para que a Comunhão seja para a vida eterna, para que, após receber a Comunhão, ele se tornasse um pouco mais forte — retornasse ao mundo e não repetisse os pecados que havia cometido antes, ou pelo menos pecasse menos. Um cristão ora para que, dessa forma, gradualmente, se torne mais semelhante a Cristo.

Assim é a vida cristã. Simplesmente perder tempo falando sobre o fim dos tempos, ou sobre bispos que caíram em desgraça, ou qualquer coisa do gênero — isso é essencialmente conversa fiada espiritual. Tal conversa é ainda pior do que conversa fiada espiritual. Na minha opinião, é melhor falar sobre um novo iPhone ou um aplicativo favorito do que, digamos, julgar bispos. Julgar pessoas que você não conhece de verdade, mas que carregam um fardo muito pesado: Eles precisam tentar levar honestamente a palavra de Deus, lidar com problemas que não têm uma solução clara, tentar entender qual será a melhor solução, de acordo com o Evangelho, e como levar o maior número possível de pessoas à salvação.

Às vezes, a resolução desses problemas exige rigor, outras vezes, grande flexibilidade. Essencialmente, tudo isso pode ser resumido pela palavra “oikonomia” (economia) — a administração da casa, a organização da casa. Essa é a principal preocupação do bispo, pela qual ele prestará contas perante o Trono de Deus. Os motivos expostos explicam por que o ofício episcopal é tão exaltado nos serviços divinos: o bispo certamente precisa das orações dos fiéis para desempenhar adequadamente seu ministério.

O bispo e todos aqueles que detêm autoridade são humanos. Não apenas se esforçam para ser a imagem de Cristo, mas também têm suas próprias paixões, fraquezas e falhas. Eles também precisam da Confissão; eles também precisam desesperadamente de Cristo, de Sua misericórdia e graça, para cumprir seu ministério. Sendo humanos, os bispos também pecam, caem e podem cometer erros. Um homem tão grande quanto São Serafim de Sarov disse que, quando respondia sem ser guiado pela graça do Espírito Santo, cometia erros. Esses erros podem ser graves. Até mesmo a Mãe de Deus, repleta de toda graça, toda virtude divina, completamente santa, completamente pura, mais honrada que os querubins e mais gloriosa que os serafins, não sabia onde o Senhor estava quando foi com Ele ao templo.

É bom ser generoso, é bom ser bondoso. Um cristão ortodoxo precisa, no mínimo, ser bondoso e amoroso. Temos muitos ensinamentos sobre a importância da humildade; todo o período da Grande Quaresma é um exercício de humildade. Não há justificativa para julgar os outros, especialmente por escrito. Ao julgar, demonstramos simplesmente que não ouvimos o que é dito na igreja.

O QUE SIGNIFICA TER A MENTE ABERTA?

Ter a mente aberta significa, essencialmente, estar aberto ao bem e à bondade (seja lá o que isso signifique), considerando tudo o que podemos perceber que não contradiz o Evangelho de Cristo. São Gregório Palamas é um exemplo disso. Ele falou da sabedoria dos gregos, da filosofia grega, e de como ela poderia ser útil. Certamente, há a lógica de Aristóteles, que é perfeita; há muito que pode ser útil em Platão; o método de Sócrates… São Gregório analisou a filosofia de forma evidente e compreendeu que todos esses pensadores não conheciam Cristo e o Seu Evangelho, mas que pérolas podiam ser encontradas em suas obras. Ao mesmo tempo, segundo as palavras de São Gregório, antes de tudo, é claro, é necessário eliminar tudo o que é pagão (visão de mundo pagã), que pode conter veneno e ser fatal.

Nós também podemos nos beneficiar disso, estar abertos à cultura, mas com discrição. Se pudermos usar algo de forma construtiva — para construir uma igreja ou para cultivar nossa própria vida espiritual — então isso tem valor. Não podemos simplesmente absorver tudo sem pensar, sem considerar se é benéfico ou prejudicial.

COMO COMEÇAR A VIVER UMA VIDA ESPIRITUAL

Se você deseja entrar no Reino dos Céus, provavelmente o melhor é se tornar como uma criança pequena. Não importa a idade que a pessoa tenha ao descobrir a fé ortodoxa, ela deve ser como uma criança, pronta para aprender e aceitando o que seus pais dizem sobre a vida. O que é seguro e o que não é, o que é bom e o que é mau. A mãe, claro, é a Igreja, o pai é o sacerdote que introduzirá a pessoa à vida cristã.

Sempre aprendemos algo pela primeira vez. Talvez alguém se converta à Ortodoxia vindo de outra denominação cristã e já possua algum conhecimento prévio. Nesse caso, é bom entrar na Igreja de uma forma que torne tudo novo, tudo maravilhoso. Você deve aceitar tudo com fé infantil, alegrar-se pelo fato de de repente ter uma mãe – a Mãe de Deus, a mais perfeita de todas as mães – e rezar de manhã e à noite.

COMO ENCONTRAR UM PAI ESPIRITUAL

Em relação a um Pai Espiritual: antes de procurar um Pai Espiritual em um mosteiro, as pessoas muitas vezes se sentem tão especiais, tão importantes e tão excepcionais que o pároco de sua paróquia provavelmente não é bom o suficiente para elas; elas precisam de alguém muito melhor. Essa mentalidade está errada. Podem surgir questões e problemas espirituais que o “médico local” não consegue resolver. Na maioria dos casos, basta seguir o conselho do sacerdote e trabalhar no cultivo de virtudes — humildade, obediência…

A obediência é a virtude mais importante na Ortodoxia. Portanto, se uma pessoa vem à igreja, deve estar repleta do desejo de se tornar um filho obediente a Cristo. São João Crisóstomo afirma que um cristão tem apenas uma tragédia: a desobediência à lei de Deus. Por causa de sua desobediência, nossos primeiros pais foram expulsos do Paraíso, mas pela obediência à Mãe de Deus, Cristo Se encarnou. Cristo foi obediente ao Pai, e os apóstolos foram obedientes a Cristo. Em meio a essa nuvem de santas testemunhas, encontramos exemplos de obediência. Devemos desejar aprender o que a Igreja ensina, estar dispostos a renunciar à nossa própria vontade para fazer a vontade de Deus e nos esforçar para cultivar a humildade, a fé, o amor e a humildade de pensamento. A Igreja possui riquezas inesgotáveis.

É preciso preparação; não se consegue assimilar tudo de uma vez. É necessário começar devagar, gradualmente, e desfrutar da vida cristã ortodoxa. Nada poderia ser melhor.

Arcebispo Alexei (Trader)
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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