POR QUE A VENERAÇÃO DE ÍCONES É TÃO CENTRAL PARA A ‘ORTODOXIA’?

Neste ‘Domingo da Ortodoxia’, que celebra nada mais e nada menos que a restauração da veneração de ícones em Constantinopla, no ano de 843, após um período de iconoclastia, podemos estar nos fazendo esta pergunta. O que eu gostaria de explicar aqui é que a iconoclastia era profundamente anticristã, não porque fosse uma rejeição a Deus, mas porque era uma rejeição da humanidade, em um sentido vital. A iconoclastia negava a capacidade do ser humano de ‘ver’ e receber a revelação de Deus, e de *transmitir* ou *tradicionalizar* essa revelação, essa visão, pela criatividade humana necessária para criar imagens sagradas (ícones).

A iconoclastia engloba a tendência não cristã e anti-humana que subjaz à rejeição de outros “ícones” da Tradição, feitos por mãos humanas, como as Sagradas Escrituras, escritas por mãos humanas; hinos litúrgicos e calendários da igreja, sistematizados por seres humanos; tratados teológicos, concílios da igreja, organizados por humanos, etc. A iconoclastia é essencialmente uma rejeição da Igreja, que é uma empreitada divinamente inspirada, confiada não a anjos, mas a seres humanos falíveis ao longo e dentro da história. Embora a Igreja seja um mistério (imutável), ela é revelada e vivida dentro da história (mutável), que é um processo complexo que envolve erros humanos, excessos, distorções, divisões e a necessidade ocasional de reformas. Mas é sempre a criatividade humana, em sinergia com Deus, que é desafiada a discernir, em cada geração, como transmitir a Tradição “vista” e recebida em seu próprio contexto histórico.

Nossa própria visão pode se distorcer ou se desorientar repetidamente, e é por isso que somos desafiados a viver a “Ortodoxia” (de “orto”, que significa “reto” ou “endireitado”, e “doxa”, que significa tanto “opinião/perspectiva” quanto “glorificação”), um processo contínuo e vitalício de endireitamento. Através de todas as nossas festas, jejuns e outras tradições, somos constantemente lembrados e capacitados a endireitar e clarificar nossa perspectiva, ou o “olho” do nosso corpo, para que possamos “ver” com mais clareza tanto a Ele, Jesus Cristo, em nosso meio, quanto tudo o que Ele nos transmitiu por meio de Suas testemunhas oculares, os Apóstolos, e aqueles que vieram depois deles. Em nossa época, quando muitos na cultura popular acreditam que a “humanidade” está em seu ponto mais baixo, nós acreditamos, de forma contracultural, que nossa “humanidade” continua sendo chamada ao desafio dignificante de endireitar e “ver” a Luz de Cristo. E nós cremos, como Deus crê, que somos capazes de ver isso e de transmitir essa mensagem. Glória a Ele por tudo isso. Feliz Domingo da Ortodoxia, queridos amigos!


Sister Vassa (Larin)
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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