O SIGNIFICADO MAIS PROFUNDO DO NATAL

Toda vez que nos colocamos diante do Senhor, seja em oração, seja em celebração na Igreja de um evento da vida de Cristo, ou de qualquer outra forma experimentamos a presença do Senhor, duas coisas fundamentais acontecem, atestadas pela Igreja e pela experiência dos Santos: Primeiro, sentimos alegria porque experimentamos o amor abundante do Senhor pela humanidade. Ele move nosso coração a uma profunda gratidão, pois experimentamos – na medida de nossa condição espiritual – o grande dom de Deus para nós.

Em segundo lugar, ao sermos apresentados diante do Senhor, também nos encontramos sob uma espécie de julgamento crítico de nossas ações, o que conduz à nossa salvação, especialmente se isso ocorrer durante as grandes festas que comemoram eventos da vida de Cristo. De fato, qualquer evento em Sua vida nos leva a adotar uma atitude crítica em relação a nós mesmos, o que não conduz à condenação, mas à nossa libertação.

Assim, comemoramos a Encarnação de nosso Senhor para experimentar, por um lado, Seu grande amor por nós e, por outro, sentir grande gratidão por todas as coisas maravilhosas que Ele nos concedeu. Além disso, isso nos beneficia de forma prática, pois nos é oferecida a oportunidade de julgar nossa própria vida. Como diz São Paulo: “O Senhor não nos julgará se nos julgarmos a nós mesmos”. Se criticarmos nossos caminhos nesta vida, não seremos julgados na vida após a morte, porque o julgamento já foi realizado neste mundo.

Em outras palavras, agora que a festa de nosso Senhor está próxima, temos a oportunidade de comparar criticamente nossas vidas em termos de tudo o que Ele realizou para nossa libertação, especialmente porque sabemos que Ele não deixou nada ao acaso, mas guiou todas as coisas como o Mestre da história que Ele é. Ele é Aquele Que desejou que todos os eventos acontecessem da maneira como aconteceram, até nos mínimos detalhes. Ele foi Aquele Que desejou nascer naquele ano específico, naquele lugar específico, assim como todos os outros elementos que constituem o grande evento de Sua Encarnação.

Todos os santos costumavam comparar criticamente os eventos particulares que aconteciam em suas vidas com a vida de Cristo e faziam um julgamento de si mesmos. Gostamos de acreditar que um cristão é aquele que imita a vida de Cristo tanto quanto humanamente possível. Ele então supre quaisquer deficiências por meio do arrependimento e da humildade. E isso constitui sua obra espiritual interior.

Em dias festivos como esses, nossa Igreja glorifica constantemente o Senhor por Sua grande condescendência para com a humanidade através de hinos maravilhosos, enquanto aprofunda o significado teológico de Sua Encarnação. Santos Anciãos, assim como leigos piedosos, têm uma experiência particular do significado mais profundo deste evento. Quando o Ancião Efraim de Katounakia retornou de uma viagem a Jerusalém, esperávamos que ele ficasse impressionado com a experiência do Gólgota e da Crucificação. No entanto, ele ficou impressionado com a Gruta da Natividade em Belém. Diante desse local, ele disse: “Eu me achava alguém quando vivia em minha cabana ascética em Katounakia, entre meus parcos bens. Mas quando vi onde Cristo nasceu, fiquei verdadeiramente abatido em espírito”.

Nascido em uma gruta, perseguido e desprezado por todos, Cristo realizou o maior evento da história da humanidade: Sua Encarnação. Deus Se fez homem em total quietude, humildade e anonimato. Ninguém sabia o que estava acontecendo naquela noite, exceto alguns pastores e os sábios da Pérsia. Esse evento ocorreu em absoluta pobreza e humildade. Portanto, sempre que formos perturbados por diversas exigências e desejos, devemos nos colocar diante da Gruta da Natividade, ficar diante da Encarnação do Verbo e comparar nossas ações com o que o Senhor fez naquela noite. Dessa forma, julgamos nossas ações. Da mesma maneira, devemos examinar criticamente toda a nossa vida.

Desde que Deus Se fez homem e os anjos cantaram “paz na terra”, a Palavra de Deus nos diz: “Eu não vim trazer paz, mas a espada”. Por que o Senhor trouxe uma espada enquanto os anjos cantavam sobre a paz? Cristo era a Paz que veio ao mundo e Se fez homem para que pudéssemos amá-Lo. Ele nos mostrou que nosso relacionamento com o Senhor não é um relacionamento com uma ideologia, porque ninguém pode amar uma ideia. Alguém pode ser devotado a alguma ideologia filosófica, mas ninguém pode amá-la, porque ela não retribuirá o amor.

Na vida da Igreja, acontece justamente o contrário. Não temos nada a ver com uma ideologia filosófica, e a Palavra de Deus não se tornou uma ideia filosófica. A Palavra Se fez carne. A Palavra de Deus Se encarnou para que pudéssemos amá-Lo. E assim que começarmos a amá-Lo, seremos capazes de compreender que Ele foi Quem nos amou primeiro, de uma maneira incompreensível. O Apóstolo diz: “Nós O amamos porque Ele nos amou primeiro”. Este é o tipo de mistério que acontece na Igreja. É por isso que Cristo, como a paz do mundo, Se tornou objeto de amor e não de fé. É preciso transcender a fé e a esperança para permanecer no amor. Como diz o Apóstolo, “no fim, a esperança e a fé serão abandonadas e somente o amor permanecerá”, pois o amor é uma experiência concreta, um evento existencial que faz o homem perceber que está verdadeiramente unido a Deus. Este é o caminho trilhado por todos aqueles que O amaram até o fim.

Estêvão, o primeiro mártir, selou seu amor pelo Senhor imitando-O. Está escrito nos Atos dos Apóstolos que, quando foi preso por pregar sobre Cristo, seu rosto se iluminou como o de um anjo enquanto era julgado. Condenaram-no à morte por apedrejamento como se fosse um grande pecador, pois era isso que estipulava a Lei de Moisés. Contudo, cheio do Espírito Santo, Estêvão orava não por si mesmo, mas por todo o mundo, apesar de sua terrível situação. Assim, ele imitou Cristo, que intercedeu por aqueles que O crucificaram enquanto morria na cruz.

Portanto, desde que Cristo veio ao mundo e trouxe a paz, milhões de mártires entregaram suas vidas por causa de sua fé n´Ele, por amá-Lo verdadeiramente e por terem provado o Seu amor. O amor de Cristo falou aos seus corações.

Quando celebramos as festas dos santos e mártires, não estamos apenas comemorando certos eventos de suas vidas. Estamos comemorando os dias em que eles se autoanalisaram. Eles se examinaram criticamente à luz da vida do Senhor. Não encararam esses dias com leviandade. Os santos mergulharam profundamente no verdadeiro significado de suas vidas, examinando criticamente e julgando seus próprios atos. Por um lado, refletiam sobre Cristo em Sua manjedoura, Sua humildade e obscuridade, Seu silêncio e pobreza, Sua rejeição e miséria; por outro, comparavam seus próprios atos e os examinavam criticamente.

O Senhor revelou, por meio da vida dos Apóstolos e de todos os Santos, que não é possível o Espírito Santo habitar em nós sem que produzamos os Seus frutos. Ele enfatizou expressamente que os frutos do Espírito Santo são “amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio”. Portanto, devemos buscar esses frutos dentro de nós, que indicam a presença do Espírito Santo. Assim, poderemos avaliar nossa condição espiritual. Essa avaliação crítica é necessária e salvadora. Se iniciarmos esse exercício durante este período festivo, ele será verdadeiramente salvador para nós, pois suscitará a luta espiritual do arrependimento e da humildade e transformará nossos caminhos.

Ao mesmo tempo, isso nos levará a buscar a misericórdia do Senhor com amor. Assim que reconhecermos que somos, de fato, pessoas que vivem nas trevas, também declararemos: “Onde brilharia a Tua luz, Senhor, senão sobre aqueles que vivem nas trevas?” Assim que reconhecermos que vivemos nas trevas, buscaremos imediatamente a luz. Contudo, se pensarmos que vivemos na luz, jamais veremos a verdadeira luz, pois possuímos apenas a luz que podemos ver.


Metropolita Atanasios de Limassol
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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