É abster-se de alimentos que não são permitidos durante o jejum, de navegar na internet por horas, ou é uma oração mais concentrada? Há as seguintes palavras no Salmo 51: “Um sacrifício a Deus é um espírito quebrantado; um coração quebrantado e contrito Deus não desprezará” (Sl 51:19). Nosso jejum deve se tornar um sacrifício a Deus. Mas o que está por trás dessas palavras? Neste início de Jejum da Natividade, pedimos a alguns sacerdotes russos que refletissem sobre este assunto.
Padre Maxim Brazhnikov, reitor da Igreja do Ícone de Kazan da Mãe de Deus
na cidade de Orsk (região de Orenburg):
Quando dizemos que o jejum pode ser considerado um sacrifício a Deus, muitas pessoas que leram o Evangelho podem questionar: Por que falamos de jejum como sacrifício, se o Senhor disse: “Misericórdia quero, e não sacrifício” (Mt 9,13)? Ele realmente precisa desse sacrifício? Como isso se harmoniza com as Sagradas Escrituras? Mas o Senhor também disse, por meio do salmista David, no Salmo 51: “O sacrifício a Deus é o espírito quebrantado; um coração quebrantado e contrito Deus não desprezará”. Conclui-se que, já no Antigo Testamento e, confirmando isso, no Novo Testamento, o Senhor diz que um verdadeiro sacrifício a Deus não é oferecer-Lhe um bezerro, ou o sangue de um bode, ou um sacrifício dos frutos da terra que o Senhor dá aos homens. O sacrifício mais importante é um coração contrito e humilde. E durante o Jejum devemos nos esforçar ainda mais para adquirir humildade.
No Jardim do Éden, o Senhor estabeleceu para Adão o mandamento de não comer de uma só árvore, embora muitas outras árvores paradisíacas e a árvore da vida lhe fossem dadas para comer. Era importante para Adão não se tornar orgulhoso e cair num estado em que decidisse não apenas ser igual a Deus, mas superior a Ele.
Foi então que este mandamento, uma espécie de primeiro jejum, foi ordenado para o homem que ainda era sem pecado. Ele controlava a humildade do seu coração. Não o espírito contrito que os cristãos modernos que jejuam deveriam ter, mas o espírito paradisíaco de Adão, que assim obedeceria a Deus com alegria. Consequentemente, agora, quando nos abstemos dos frutos da terra — carne, laticínios e outras coisas — por um lado, limitamos os nossos prazeres. Mas, por outro lado, precisamos do jejum para que possamos nos aproximar gradualmente do nosso espírito, que deve ser contrito e humilde.
O jejum não é apenas corporal, mas também espiritual, no qual nos abstemos de fontes de informação perturbadoras que afligem nosso espírito, evitando assistir ao fluxo constante de notícias para não entregar nossa vontade à mídia. Dessa forma, convocamos nosso espírito a lembrar que ele é consagrado a Deus. Durante o Jejum, devemos nos voltar para o Senhor o tempo todo, e dedicamos esse tempo a Deus, deixando de lado nossos prazeres. É necessário tempo para a leitura atenta das Sagradas Escrituras, prescrita durante o Jejum, para a participação em Serviços Divinos e para a abstinência de fontes de informação. Por fim, um espírito contrito e humilde também se distingue pela humildade em relação ao nosso orgulho.
De certa forma, tudo isso pode ser comparado a um processo de treinamento. Um atleta treina bastante em sua rotina habitual, mas chegam momentos em que precisa se preparar para competições, e então treina com mais intensidade e controla sua alimentação.
Da mesma forma, em nossas vidas devemos sempre ser obedientes a Deus e estar enraizados em Deus, na vida espiritual, na oração, na leitura das Sagradas Escrituras e na obediência de nossa mente a Deus. Mas há um tempo de Jejum, que oferecemos como sacrifício ao Senhor de tudo o que fazemos. E nosso espírito, criado por Deus, deve ser curado das paixões para que possamos celebrar espiritualmente a festa da Natividade de Cristo. Para que, na festa, possamos pensar no porquê do nascimento do Salvador no mundo e não nos pratos deliciosos que iremos saborear. Assim, durante o Jejum da Natividade, especialmente quando o inverno chega à parte europeia do nosso país, escurece mais cedo e a vida se torna mais difícil, ainda assim mantemos nosso espírito alegremente enraizado em Deus. O Jejum se torna alegria para nós, como o treino para um atleta.
Se vivêssemos segundo o espírito mundano, sucumbiríamos a essa melancolia de outono-inverno e apenas esperaríamos pelo Ano Novo (uma festa muito popular na Rússia), mas não ganharíamos nada de especial com isso. No entanto, caminhamos com alegria rumo à festa da Natividade. E a pessoa que jejuou mais de uma vez e conhece esse sentimento de alegria recebe uma recompensa do Senhor. Oferecemos nosso espírito como sacrifício ao Senhor e, por isso, somos recompensados com a alegria da vinda do Salvador ao mundo.
Arcipreste Vladimir Sergeyev,
reitor da Igreja de São João Batista na cidade de Orel:
Acredito que na Ortodoxia não deveria existir algo como “dever fazer algo”. É claro que Deus não precisa dos nossos jejuns — nós é que precisamos deles. Mas penso que o sistema atual de jejum, que se desenvolveu na Igreja ao longo dos séculos, ajuda-nos a identificarmo-nos com a nossa fé. Mostra que pertencemos a uma determinada tradição religiosa.
Houve um tempo em que a Igreja de Cristo tinha um sistema diferente de jejuns; os cristãos jejuavam de uma maneira diferente, e não eram menos ascéticos do que nós hoje, observando todos esses jejuns. O jejum é um tempo em que podemos realmente entender que o espírito é maior que a carne, que não somos apenas um conjunto de características biológicas e que vivemos não apenas de acordo com as leis da biologia, mas que o homem é um ser espiritual. E a autodisciplina, que é treinada pelo jejum, quando podemos realmente demonstrar nossa vontade e nos abster de algo, não é necessária para Deus, mas para nós mesmos. Devemos realizar um pequeno feito pela causa de Deus. O jejum não deve ser um fim em si mesmo. Uma antiga regra diz que durante o Jejum devemos gastar menos com comida e dar o que economizamos aos necessitados — isso sim é um verdadeiro jejum. E se pedirmos lagostas… Dizem que são um tipo de comida de jejum, mas esse jejum definitivamente não agrada a Deus. Se fizermos obras de caridade e ajudarmos as pessoas, é outra história — esse jejum agrada a Deus.
E devemos também ter em mente que o jejum sem oração é apenas uma dieta — é inútil no sentido espiritual. Satanás não come nem bebe, mas isso não o aproxima de Deus. O mais importante é a combinação, para que se possa ter harmonia e integridade na vida espiritual. E do que consiste essa combinação? Em oração, jejum e boas obras. Em geral, creio que deve haver um equilíbrio na vida espiritual; não devem existir saltos, como: “Hoje jejuamos até a auto-tortura e amanhã comemos em excesso”. Não é à toa que o caminho real, o caminho do meio, conduz ao Reino dos Céus. Portanto, o jejum aliado à oração e às boas obras é o que realmente beneficia a alma do cristão (e não apenas o seu corpo). Embora o corpo também precise do jejum. Afinal, o Senhor nos deu este jejum e, por meio dele, às vezes nos dá algum alívio na doença. E o jejum é contraindicado para aqueles que estão gravemente enfermos, por exemplo, para os diabéticos. Essas pessoas não precisam se sacrificar dessa forma, já carregam um fardo através de sua doença. Portanto, tudo deve ser feito com sabedoria e discernimento espiritual.
Certamente, o Jejum pressupõe esforço, e nem sempre o aguardamos com a alegria que deveríamos, mas o Reino dos Céus sofre violência (Mt 11,12). O mais importante é sintonizar-se com essa frequência espiritual. Em geral, não é tão difícil abster-se de certos tipos de alimentos quanto, às vezes, é de usar o smartphone para passar o tempo à noite. Aliás, você poderia adicionar essa regra ao seu regime de Jejum com a bênção do seu padre confessor. Será um sacrifício a Deus se não ficarmos navegando pelas notícias, mas usarmos esse tempo para ajudar o próximo: levando comida para os idosos, por exemplo.
Padre Roman Bamburov,
reitor da Igreja em honra da Renovação do Templo
da Ressurreição de Cristo em Jerusalém, Smolensk:
É importante compreender que o Jejum é obediência à nossa Mãe Igreja, da qual Cristo é a Cabeça. Não existe Jejum fora da Igreja. O Jejum está inserido na vida da Igreja. O apóstolo Paulo disse que carregava em seu corpo as chagas do Senhor Jesus Cristo e se gloriava dessas chagas e de Sua cruz. Assim também nós carregamos o fardo do jejum por amor a Cristo, por amor à Sua Paixão. Não vivemos por nós mesmos, mas pela Sua Cruz, tendo-nos revestido de Cristo, e o jejum nos auxilia nisso. Sem o jejum, a pessoa se reveste de vários extremos de prazeres sensuais, entretenimento e uma vida frouxa. O caminho é largo demais sem o santo jejum.
Não tenhamos pena de nós mesmos. A graça de Deus cobre uma multidão de enfermidades e transforma o velho homem em novo. Que aquele que for capaz, passe pelo período de Jejum com apenas uma xícara de chá em vez do jantar ou sem tomar café da manhã. Jejuar não se trata apenas de mudar a qualidade da comida, mas também de reduzir o número de refeições. Mas, acima de tudo, tudo deve ser feito com humildade, com arrependimento pelos pecados, com um olhar gentil para o próximo e com compaixão.
Aqueles que são briguentos, ressentidos, excessivamente críticos, facilmente irritáveis e “tóxicos”, como se diz hoje em dia, não devem jejuar, mesmo que fiquem sem comer por dias. Não tenhamos pena de nós mesmos — tenhamos compaixão dos outros para que o jejum não seja motivo de condenação para nós.
Padre Ivan Privalov,
reitor da Igreja de São Nicolau, o Taumaturgo, no vilarejo de Vorga
(Diocese de Roslavl, região de Smolensk):
Existe uma palavra maravilhosa: humildade. É fácil de entender, mas muito difícil de colocar em prática. Humildade significa aceitar todas as provações da nossa fé com paz no coração; reagir com serenidade às dificuldades que os nossos entes queridos enfrentam; abster-se com paz no coração daquilo que nos faz mal e, inversamente, acrescentar algo que beneficie a nossa alma. Este é o verdadeiro jejum: “complicar” a nossa vida com humildade, voluntariamente e conscientes da necessidade dessas restrições.
Por que “complicar”? Porque é assim que o Jejum parece à primeira vista. Mas não é bem assim. Não alimentamos um bebê ou uma criança pequena apenas com o que é mais fácil de cozinhar ou apenas com o que ela quer comer. Tentamos dar-lhe o que é necessário e o melhor. Mas nem sempre é tão fácil quanto parece. No Jardim do Éden, tudo era perfeito para Adão e Eva: abundância completa, nenhum trabalho árduo para obter comida e apenas uma regra que os separava. eles da queda.
Portanto, conclui-se que o Jejum é um pequeno investimento no futuro da nossa alma, um sacrifício em nome da nossa salvação. Um sacrifício a Deus reside apenas na nossa humildade, paciência e na prova de que somos pessoas sensatas que sabem se controlar. Um sacrifício a Deus é um espírito quebrantado; um coração quebrantado e contrito, Deus não desprezará (Salmo 51:19).
fonte: site Pravoslavie.ru
tradução de monja Rebeca (Pereira)









Respostas de 2
Cristo Ressuscitou!
AMADEUS IRMÃOS EM CRISTO com muito alegria sabendo que a quem fale como passr este período de jejum Natividade do Senhor que começou semana passada e lendo os comentários dos Sacerdote russos acima mencionados nada apontar. Mais quando a casa pega fogo como aconteceu este fim de semana na Turquia com Patrícia Ecuménico ( eretici) Bartolomeu é papa de Roma não sei como ficar indiferente de que aconteceu ( muito grave)
Os grandes Santos Padres da Igreja a longo dos anos sim falaram de jejum mais o principal e o Testemunho da Verdadeira Fé Ortodoxă ( Pravoslavia)
Uma aparte nós sabemos que os latim uzo o salmo 51 mais nós aqui na Europa Oriental é salmo 50 “O meu sacrifício,ó Deus é um espírito despidasado ; un Curaçao contrito e humilhado Tu não despesazas.
Meu bem-haja a todos
Perdão
Em verdade ressuscitou!
Usamos, para todas as passagens bíblicas, a versão bíblica de João Ferreira de Almeida de 1948, que é a tradução do texto masorético para a língua portuguesa. Não temos ainda a tradução da Bíblia Ortodoxa que segue a tradução grega dos “Setenta”. Temos a BENÇÃO do Metropolita Amfilohije (Radovich), de bem-aventurada memória, para utilizar tal versão da Bíblia.
Este trabalho de tradução de textos bíblicos não é algo a ser feito de forma simples… precisa-se de um Comitê inteiro com pessoas capacitadas não somente a nível filológico como espiritual também… sem falar na benção de uma Igreja-Mãe. Por isso a contagem difere em um salmo.
No entanto, isso é um detalhe absurdamente sem significância para a nossa salvação e a nível de Missionarismo também… existem tantas coisas a serem resolvidas a nível da Diáspora antes de corrigir o número do Salmo… cujo texto não foge tanto do significado assim.
Pelo que vejo existe uma grande resistência em aceitar que o Ocidente pode apresentar material que os ortodoxos podem utilizar sem estarem conectados com uma vertente do tão “perigoso” ecumenismo. A Europa é cristã muito antes da Rússia, pense nisso…