Ora, o nascimento de Jesus Cristo aconteceu desta maneira… Mateus 1:18
Uma das mais belas tradições da Igreja Ortodoxa é a iconografia. Os ícones contam histórias. Até séculos recentes, as pessoas comuns não sabiam ler, e assim os ícones se tornaram um dos meios pelos quais as pessoas aprendiam sobre o Senhor e os Santos. E mesmo agora, que a maioria de nós sabe ler, os ícones nos falam com uma profundidade que vai além das palavras. O ditado é certamente verdadeiro: uma imagem (ou, neste caso, um ícone) vale mais do que mil palavras.
Vamos observar atentamente os detalhes deste ícone. No centro do ícone está o interior de uma gruta, pintado de preto. A gruta representa duas coisas. Primeiro, a gruta representa o céu, um espaço infinito, sem começo nem fim, assim como o Senhor Que repousa na gruta. Segundo, a gruta representa o túmulo onde Cristo será depositado após a crucificação e antes da Ressurreição. Isso proporciona uma bela representação de um início e um fim. Jesus Se encarnou em uma caverna e será sepultado em uma caverna.
É também significativo que o nascimento de Cristo ocorra em uma caverna, e não em um celeiro ou estábulo, como é frequentemente retratado nas cenas da Natividade. Na época de Cristo, as pessoas que possuíam animais os colocavam em cavernas, pois eram lugares quentes e protegidos de predadores. Isso estabelece o ensinamento posterior de Cristo de que Ele era o Bom Pastor Que daria a vida por Suas ovelhas. A caverna teria uma entrada estreita que poderia ser protegida por um pastor. Além disso, a caverna era algo que ocorria na natureza. Era parte da natureza, não algo criado pelo homem. Quão apropriado que o Criador das mãos humanas tenha Se encarnado em um lugar não criado por nossas mãos, mas pelas Suas. Quanto à expressão “não há lugar na hospedaria”, não poderia haver lugar em nenhuma hospedaria criada por mãos humanas para abrigar o Criador dessas mãos.
Nosso foco agora se volta para o próprio Jesus. Sabemos que é Jesus porque perto de Sua cabeça estão as letras “IC XC”, abreviação de Isous Christos ou Jesus Cristo. Ele é retratado não com um cobertor como os usados para envolver bebês, mas com faixas funerárias. Ele também está deitado no que parece ser um caixão/túmulo, em vez de uma manjedoura. Ambas as representações não são historicamente precisas — Jesus provavelmente teria sido envolto em uma manta e sabemos que foi deitado em uma manjedoura, que era um cocho de madeira cheio de palha. O ícone mostra simbolicamente as faixas funerárias e o túmulo porque foi para isso que Jesus veio à Terra: para morrer pelos nossos pecados.
Passando para a Virgem Maria. Ela é retratada com uma túnica azul e uma túnica vermelha por cima. Na iconografia ortodoxa, o azul representa a terra e o vermelho representa o céu. A Virgem Maria é sempre representada com essas cores, embora seja improvável que, no nascimento de Jesus, Ela estivesse vestindo qualquer uma delas. A Virgem Maria começou Sua vida na Terra (azul) e, após Sua morte, adormeceu até o céu (vermelho). Ao redor de Sua auréola estão as letras MP QU, abreviação de Mitir Theou ou Mãe de Deus. Essas letras estão sempre presentes em Sua auréola.
Anjos estão acima da gruta, cantando louvores a Deus e anunciando as boas novas de grande alegria. Alguns ícones ainda retratam o céu em tons escuros (isso é mais uma preferência do iconógrafo, já que alguns pintam um fundo escuro em todos os seus ícones), enquanto muitos outros o representam em tons dourados, iluminado pela presença das hostes celestiais.
Os pastores estão espalhados pela encosta com seus rebanhos, ouvindo as notícias dos anjos e refletindo sobre o significado de tudo aquilo. Os Magos também são mostrados viajando. Eles não chegaram à gruta para ver o Menino. Chegariam dois anos depois e veriam uma criança em uma casa. O ícone retrata os Magos com um homem mais jovem, um de meia-idade e um mais velho. Alguns ícones representam os Magos de três etnias diferentes: negra, oriental e branca. O simbolismo dos Magos reside na diversidade de idade (e etnia), mas na união por meio de seus dons: ouro para um rei, incenso para Deus e mirra para ungir o corpo de Jesus após a crucificação. A mensagem transmitida pelos pastores e magos é que Cristo veio para todos os povos, ou todas as nações, raças, idades, classes econômicas, etc.
Uma estrela repousa sobre Cristo. É ela que guia os Reis Magos. Também destaca que o Natal foi um evento cósmico. Toda a criação veio adorar o Criador em seu meio. Os ricos e os pobres, os anjos, a terra (a caverna), os animais e até mesmo as estrelas. O Senhor criou todos eles. Agora, todos vêm adorar o Criador, tornando-se parte de Sua criação.
A última figura a ser comentada é José. Ele está sentado no canto inferior direito do ícone. Ele está absorvendo tudo, tentando compreender o que está acontecendo. Um menino (e, em alguns ícones, um homem mais velho) conversa com ele. Essa pessoa representa o diabo, que tenta semear a dúvida na mente de José. O diabo não nos aparece com chifres e um tridente. Se aparecesse, seria óbvio que não deveríamos segui-lo. Em vez disso, o diabo vem a nós em uma “forma aceitável”, como um menino inocente ou um senhor idoso com ar de avô. Quem suspeitaria que um homem venerável ou um menino inocente estivessem tentando levar as pessoas à tentação? E é assim que o diabo age: ele vem em uma forma aceitável para tentar nos levar à tentação.
A história da Natividade é muito mais do que o nascimento do menino Jesus, visitado por pastores e Reis Magos. É o relato do Criador tornando-Se parte da criação, e de toda a criação vindo adorar o seu Criador.
O que Te ofereceremos, ó Cristo, por teres aparecido na Terra como homem por nossa causa? Pois cada uma das criaturas criadas por Ti oferece-Te gratidão: os Anjos, seu hino; os céus, a Estrela; os Pastores, seu maravilhamento; os Reis Magos, suas dádivas; a Terra, a gruta; o deserto, a Manjedoura; e nós, uma Virgem Mãe. Deus antes dos séculos, tem piedade de nós. (Idiomelon das Vésperas da Natividade)
Uma imagem vale mais que mil palavras. O ícone da Natividade dá um significado mais profundo às palavras compartilhadas nos Evangelhos de Mateus e Lucas sobre o Natal.
Sacerdote Stavros Akrotirianakis
tradução de monja Rebeca (Pereira)







