Sermão para a Grande Terça-feira Santa
Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo!
Queridos irmãos e irmãs, o Senhor, quando Se aproximava dos dias de Seu sofrimento, foi especialmente próximo e sincero com Seus discípulos. O Salvador disse aos Apóstolos: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de Meu Pai vos dei a conhecer” (João 15:15). Ele lhes disse, não mais de maneira oculta, mas com especial clareza, que Ele devia sofrer, para que assim os preparasse para o Seu sofrimento: “Sabeis que daqui a dois dias é a festa da Páscoa, e o Filho do Homem será entregue para ser crucificado” (Mateus 26:2). Vendo a tristeza que se apoderava dos Apóstolos, Ele consolou Seus discípulos com a promessa de que não os abandonaria.
Contudo, o Senhor não lhes escondeu que eles também, e todos os cristãos em geral, aguardam o mesmo destino que Ele, seu Divino Mestre: “Lembrai-vos das palavras que Eu vos disse: O servo não é maior do que o seu senhor. Se Me perseguiram a Mim, também vos perseguirão a vós; se guardaram a Minha palavra, também guardarão a vossa. Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós, Me odiou a Mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; mas, porque não sois do mundo, antes Eu vos escolhi, dele vos escolhi, por isso é que o mundo vos odeia” (Mt 15:20, 18, 19).
Mais uma vez, vendo que estavam tristes, o Senhor os consolou: “No mundo tereis aflições; mas tende bom ânimo, Eu venci o mundo. E rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre.” A paz vos deixo, a Minha paz vos dou… Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize (João 16:33; 14:16; 14:27).
O Senhor pede aos Seus discípulos que permaneçam n´Ele e cumpram os Seus mandamentos, pois sem Ele nada podem fazer: Permanecei em Mim, e Eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós não podeis dar fruto, se não permanecerdes em Mim. Se permanecerdes em Mim, e as Minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes, e vos será concedido. Vou preparar-vos lugar; voltarei (João 15:4, 7; 14:3).
O Senhor os conforta, revelando-lhes que a alegria virá depois das tristezas, e que recompensas foram preparadas para eles no Reino Vindouro. Visto que Seus discípulos estavam interessados em saber como o Senhor viria à Terra, o Salvador anuncia-lhes a verdade divina de que, no fim do mundo, Ele virá em grande glória para julgar os vivos e os mortos, e que todos os que creem n´Ele sinceramente e que viveram em arrependimento até o fim de suas vidas serão considerados dignos de Seu Reino, e que os incrédulos ou apóstatas, que não se arrependeram até o fim de suas vidas, serão condenados ao tormento eterno.
“Quando acontecerão essas coisas?” (Mt 24:3), perguntaram os discípulos. O Senhor respondeu-lhes que daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, mas unicamente o Pai (Mt 24:36). Dessa forma, as Sagradas Escrituras preservam em profundo mistério a Segunda Vinda e não nos revelam o momento determinado para ela, a fim de que nos mantenhamos puros e castos, preparando-nos sempre para o encontro com o Senhor.
Portanto, o Senhor adverte Seus discípulos: Vigiai, pois, porque não sabeis a que hora há de vir o vosso Senhor. E assim como foi nos dias de Noé, assim será também nos dias do Filho do Homem. Comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca, e veio o dilúvio e os destruiu a todos. Assim será também no dia em que o Filho do Homem Se manifestar. Vigiai, pois (Mt 24:42; Lc 17:26, 27, 30; Mt 25:13).
Em nossos dias, mais do que nunca, é preciso lembrar-se desta advertência, pois hoje há muitos que dormem e se acomodam. O sono espiritual não é como o sono físico, que fortalece o organismo; Pelo contrário, trata-se de um sono insalubre, uma letargia doentia, na qual as pessoas perseguem a vaidade enquanto pensam estar vivendo uma vida real, esquecendo-se da alma, de Deus, da futura Vida Eterna. Para incutir em nós, de forma mais profunda, a sensação de perigo, a necessidade de estarmos vigilantes e para despertar nossa consciência da sonolência espiritual, o Senhor conta a parábola das dez virgens, que ouvimos na leitura do Evangelho de hoje:
Então o Reino dos Céus será semelhante a dez virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram ao encontro do noivo. Cinco delas eram prudentes, e cinco, insensatas. As insensatas, ao tomarem as suas lâmpadas, não levaram azeite consigo; mas as prudentes levaram azeite em suas vasilhas, juntamente com as lâmpadas. E, demorando-se o noivo, todas cochilaram e adormeceram. À meia-noite, ouviu-se um grito: Eis que vem o noivo! Saiam ao seu encontro! Então, todas aquelas virgens se levantaram e prepararam as suas lâmpadas. As insensatas disseram às prudentes: Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas estão se apagando.
Mas as prudentes responderam: Não, para que não falte para nós e para vós; ide, antes, aos que o vendem e comprai-o para vós mesmas. E, enquanto elas foram comprar, chegou o noivo; e as que estavam preparadas entraram com ele para as bodas, e fechou-se a porta. Depois chegaram também as outras virgens, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos a porta! Mas Ele, respondendo, disse: Em verdade vos digo que não vos conheço. Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora em que o Filho do Homem há de vir (Mt 25:1-13).
Esta parábola ensina-nos que, ao aceitarmos a fé, devemos acompanhá-la com boas obras, que podem e devem sustentar a nossa vida espiritual. As virgens insensatas, ao saírem ao encontro do Noivo, não prepararam o azeite das boas obras para as suas lâmpadas. As virgens prudentes acumularam boas ações junto com suas lâmpadas para encontrar o Noivo dignamente. Assim também nossa vida deve ser uma preparação para o encontro com o Senhor, e pelo resto de nossas vidas devemos trabalhar constantemente para a aquisição e preservação de uma fé viva e um amor ardente por Deus, a Fonte da vida, e pelo amor ao próximo.
As preocupações desta época obscurecem a preocupação e o objetivo essenciais de nossa vida: a iluminação da alma com a luz de Cristo, sua salvação e preparação para o Reino Eterno. Sejamos sóbrios para entrarmos na câmara nupcial celestial com as virgens prudentes e sermos considerados dignos pelo Senhor dos bens eternos. Amém.
Arquimandrita Kirill (Pavlov)
tradução de monja Rebeca (Pereira)







