Em Nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo.
Amados irmãos,
A Santa Igreja Ortodoxa celebra hoje em todo o mundo o tempo litúrgico do Triódio. O Triódio é o tempo para a metanóia, ou seja, uma mudança da mentalidade. A proposta temática dominical deste tempo específico vem exercitar nossa mente para uma mudança de comportamento, de pensamento, de rendição ao amor misericordioso de Deus. O tempo da Grande Quaresma será para exercitar nosso corpo, para domá-lo ao cumprimento da vontade de Deus, e a Semana Santa é o tempo em que exercitamos a alma para as coisas do Alto.
Segundo o Santo e Divino Evangelho de São Lucas, temos à nossa vista dois personagens: o popular fariseu e o odiado publicano, o cobrador de impostos.
O Senhor reprovou o fariseu, não por ser fariseu, mas por conta desse fariseu ter coração cheio de orgulho e inflado de vaidade. O Senhor aprovou o publicano, não por ele ser publicano, mas porque o publicano se apresentou com um coração humilde, contrito e tomado de arrependimento.
A respeito do fariseu, São Teofilácto de Ohrid comenta sobre o destrutivo orgulho: “…o orgulho é o desprezo de Deus. Quando um homem atribui suas realizações a si mesmo, e não a Deus, isso não é nada menos do que a negação de Deus e oposição a Ele”. Em nossos dias, o orgulho e a vaidade são vistos como “virtudes”, mas tais paixões continuam a consumir a alma humana e levam o homem à escuridão, que é o lugar do afastamento da presença de Deus.
Do fariseu tiramos a seguinte lição, conforme as palavras de São Teófano, o Recluso: “Não confieis em vossa própria ‘justiça’, mas, ao contrário, e apesar do grande número de vossas boas obras, colocai vossa esperança de salvação na bondade de Deus”.
A respeito do Publicano, se aceitarmos que o Evangelho de hoje é a continuação do Evangelho de domingo passado, ou seja, do Zaqueu, o publicano de hoje, batendo sobre o peito, é realmente Zaqueu, ao menos psicologicamente. Com isto, nos vem uma grande revelação: uma lição de vida de alguém que se arrepende. Veja que todos nós devemos nos arrepender de todo nosso coração e de toda a nossa alma, não querendo mais dar justificativas sobre nossas manias, nossos vícios, nosso orgulho, nossa “razão”, nosso pecado.
O Publicano é o oposto do Fariseu. São Teofilácto diz que ele não se sentia puro, sentia que seus olhos eram indignos da visão celestial. Por isso, batendo no peito, na altura do coração, ele se acusava diante de Deus e dizia: “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!”
São Teófano, o Recluso, ainda nos ilumina com suas palavras a respeito do publicano: “O Senhor elogia o Publicano, não por ter-se colocado, por seus pecados, no estado do que não é digno de levantar os olhos ao céu, mas por, havendo-se ele mesmo conduzido a esta situação por sua má conduta, se lamenta por isso, se entristece e espera encontrar sua libertação na misericórdia divina. O Senhor o elogia por este regresso, por sua humildade e sua aflição, que o fazem exclamar: ‘Ó Deus, tem piedade de mim, pecador’… Tomando, assim, exemplo dos dois personagens tiramos esta lição: trabalha, age pelo Senhor com zelo, seguindo toda a gama de Seus preceitos, e põe a esperança de tua salvação inteira e unicamente na misericórdia divina”.
Ouvindo hoje a proclamação do Evangelho, percebemos que foi isso o que aconteceu com Zaqueu, o publicano redimido por Cristo: ele reconheceu seu pecado e se arrependeu. Cristo Deus-Homem o absolveu de seu pecado. Sua consciência tornou-se livre. Mas agora ele tinha que agir, e quando ele começou a agir os pensamentos se levantaram; e de pensamentos vieram sentimentos.
O que precisamos fazer? Clamar de todo nosso coração e alma imitando o Publicano: “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador”, “Senhor Jesus Cristo, Filho do Deus Vivo, tem piedade de mim, grande pecador”.
Deus quer nos salvar. O Senhor quer salvar o pecador arrependido. E o que mais fazer? Para receber esta Graça faz-se necessário de nossa parte um esforço ativo da vontade.
Encerro esta reflexão com os dizeres de São Paísios, o Athonita: “Peçam humildade e arrependimento em vossas orações e por nada mais”.
Que o Deus da paz que supera toda a nossa compreensão guarde os vossos corações e mentes em Cristo Jesus, nosso Senhor (cf. Fl. 4:7).
Sacerdote Nicolau Machado
01.02.2026







