Iniciamos o Triodio, este período abençoado do ano litúrgico, com arrependimento, porque sentimos profundamente, existencialmente, dentro de nós a necessidade de retornar do nosso exílio. Como o Filho Pródigo na parábola, sentimos a necessidade de retornar a Deus, a fonte da vida (Domingo do Filho Pródigo).
Continuamos nossa jornada rumo a Cristo ressuscitado através do nosso encontro com outras pessoas, com os “menores” dos nossos irmãos e irmãs (Domingo da Tirofagia).
Em seguida, somos chamados, em essência, a negar a nós mesmos, por meio do jejum de quarenta dias, abstendo-nos de comida e das paixões. Ao aprendermos a dizer “Não” ao nosso desejo por comida, aprendemos a dizer “Não” à nossa própria vontade, que muitas vezes é autodestrutiva, e a dizer “Sim” à vontade de Deus, que sempre nos salva.
Ao longo dos séculos, a Igreja tem se mostrado um verdadeiro tesouro da sabedoria de Deus e da experiência de geração após geração dos Padres da Igreja. Quando enfatiza o jejum, não o faz por desprezo pelo corpo, como às vezes se afirma levianamente, mas porque considera o corpo um dom e uma possessão de Deus; um “membro de Cristo” e “templo do Espírito Santo”, como diz São Paulo. Os cristãos não odeiam a sua carne, não se abstêm de comida por desprezo, mas não permitem que nada tenha poder sobre eles. O uso equilibrado dos alimentos ou a abstinência deles por um período de tempo mantém o equilíbrio psicossomático do corpo e é uma forma de glorificar a Deus em nosso ‘corpo e espírito’, como diz São Paulo.
Dessa perspectiva, a Quaresma é uma jornada empírica às profundezas do nosso ser. É uma jornada em busca de sentido, da descoberta do significado de Deus em nossa vida, de suas profundezas ocultas. E, para dar um exemplo, ao nos abstermos de alimentos, ou seja, ao jejuarmos, redescobrimos a doçura da vida e reaprendemos a lição de que devemos recebê-la de Deus com alegria e gratidão. Ao restringirmos o lazer, o entretenimento, a música, as conversas intermináveis e as interações sociais triviais, finalmente descobrimos o valor das relações interpessoais genuínas. E redescobrimos tudo isso precisamente porque redescobrimos o próprio Deus, porque retornamos a Ele e, por meio d´Ele, a tudo o que Ele nos deu por Seu perfeito amor e misericórdia.
Que tenhamos todos uma santa Quaresma!
Ancião Patapios Kavsokalivitis
tradução de monja Rebeca (Pereira)







