4) Com certeza, o senhor recebe jovens buscadores interessados. Como o senhor sente esta busca: algo mais intelectual e imaturo ou algo sincero e profundo? Aprofunde a resposta.
A bem da verdade, a minha paróquia não costuma receber muitos jovens interessados na Fé Ortodoxa. Os poucos que apareceram começaram atraídos pelo lado intelectual, mas aos poucos estão amadurecendo e aprofundando a vivência na fé. De maneira geral, eu observo uma sede espiritual muito intensa, e não apenas entre a população jovem. Pessoas de diversas idades se dirigem às celebrações, para acompanhar as orações e leituras; algumas se interessam em aprender alguns aspectos da Ortodoxia, outras não. Mas sempre estão lá, em busca de Deus.
Neste contexto, a Internet funciona como um excelente meio de divulgação da fé, pois muitos tem o primeiro contato com a Igreja Ortodoxa de forma virtual, depois migrando para o real; ao mesmo tempo, causa alguma confusão, pois também não faltam aqueles que são apenas fieis virtuais, sem vivência real e sem responder a um pároco ou confessor. Com o tempo e a graça de Deus, vamos atingir o equilíbrio.
5) Pelo fato do povo brasileiro não ser tão compromissado e do próprio país oferecer tantas facilidades naturais, o que o senhor acha a respeito das ditas “economias” em relação ao jejum e oração, encurtar os Serviços Divinos, não se confessar, liberar vários casamentos e assim por diante? Como o senhor costuma guiar seus fiéis e catecúmenos?
O alívio no jejum já era praticado pelos Pais do Deserto, que discerniam qual o jugo que seus filhos espirituais tinham condição de carregar; o encurtamento de Ofícios Divinos também é prática da Igreja, com adaptações do Typikon para uso nas paróquias; a prática antioquina não exige Confissão antes de cada participação na Sagrada Eucaristia; Segundo e terceiro casamento também não são novidades na Igreja. Ou seja, tudo isso não surgiu no Brasil e não ocorre apenas aqui. Porém, o que eu percebo é a exceção ser tratada como regra e com o tempo, passar a substituir a regra, o que deve ser combatido. Os exemplos que eu dei são as exceções, mas passaram a ser a regra no Brasil. Então a diferença entre o que a Igreja prevê e o que é praticado aqui no Brasil é a motivação: a Igreja exercendo a misericórdia; aqui no Brasil, podemos apontar alguns possíveis motivos: leniência e má formação do clero (?); intromissão de leigos na vida litúrgica e sacramental (?)… Pode ser isso, e mais algumas coisas.
A minha prática é pregar e explicar a regra estrita, e relaxar conforme a força de cada um, sempre deixando claro que a ideia é se fortalecer, e esse relaxamento vai sendo removido aos poucos. Sempre tomando como parâmetro os ensinamentos que os nossos Santos Padres nos deixaram, e as orientações do meu Bispo.
6) Fale-nos de sua experiência em sobre como o brasileiro que busca ou se depara e simpatiza com a Ortodoxia concebe a relação ortodoxa com Nossa Senhora?
Primeiramente, é necessário mencionar que todo brasileiro de tradição católica tem uma profunda devoção a Nossa Senhora, em seus mais diversos títulos. Não à toa, o Brasil é consagrado à Nossa Senhora Aparecida, padroeira do país. Dito isso, a primeira “estranheza” com a qual o convertida da Igreja Católica se depara é a ausência desses diversos títulos, especialmente o Sagrado Coração de Maria. Eles se deparam com novos nomes como Theotokos, Mãe de Deus, Platytera, e outras comemorações, como a Dormição, a Proteção, a Anunciação… Então é necessário enfatizar a figura e o papel da Santíssima Virgem independentemente desses títulos, sempre recordando que eles se referem à mesma pessoa. Particularmente, eu procuro enfatizar o papel da Virgem na Encarnação do Verbo e o seu exemplo de vida para nós. Outro ponto de tensão é em relação ao dogma católico da Imaculada Conceição, onde se observa uma certa resistência para aceitarem a Doutrina Ortodoxa do pecado original e sua relação com o nascimento da Virgem.
Em relação aos convertidos de origem evangélica, o desafio é outro: enfatizar a importância e o papel de Nossa Senhora no plano de nossa salvação. Esse grupo de fieis demora a compreender que uma pessoa pode ser deificada através da ascese e da graça de Deus, por isso custam a aceitar a Doutrina Ortodoxa relativa à Virgem e aos Santos.
Para não aumentar as tensões, eu evito comparações com doutrinas que não pertencem à Igreja, ensinando a Ortodoxia em sua essência, de acordo com a herança apostólica e patrística. Somente em orientações particulares eu lanço mão desse tipo de comparação.
7) Ousamos pedir alguns conselhos e sugestões àqueles que estão se aproximando da Ortodoxia no Brasil.
É necessário ter em mente que a Ortodoxia ainda engatinha no Brasil, e são enormes os desafios que ainda enfrentamos. A pulverização em diversas jurisdições, a falta de uma Assembleia de Bispos Canônicos e a grande extensão territorial do país são apenas alguns deles. Sendo assim, o buscador da Ortodoxia cria uma imagem em sua mente, na grande maioria das vezes a partir da Internet, e a realidade tende a decepcioná-lo. Então o primeiro conselho é não criar grandes expectativas, e ter em mente que a Igreja Ortodoxa está longe de se consolidar no Brasil, o que só será possível com o trabalho e a dedicação de todos, catecúmenos, fieis e clero.
Isso nos leva ao próximo ponto: estejam dispostos a trabalhar e a contribuir, inclusive financeiramente. A Igreja Ortodoxa não promete milagres, não prega a prosperidade como objetivo do Evangelho: ela é a Barca da Salvação, continuadora da pregação apostólica, e seu objetivo é nos levar à comunhão perdida com Deus, nada além disso. Mas para isso, ela precisa de templos, materiais de uso diário, pessoas que organizem as atividades… Então há uma demanda enorme por ajuda, especialmente em áreas da periferia. Aos que se aproximam da Ortodoxia, estejam certos: toda ajuda é necessária e bem-vinda.
Para não me alongar muito, segue o último e principal conselho: cultivar a virtude da paciência. O processo de conversão individual e a vida comunitária da Igreja decorrem em períodos longos de tempo, a deificação, palavra tão cultivada pelos novos buscadores, não ocorre de um dia para outro. O caminho do Evangelho é cheio de quedas, obstáculos, distrações, inimigos… Cabe-nos trilhar o caminho e não desanimar nos reveses, e confiar sempre na graça de Deus, que nos aperfeiçoa sempre.
Protopresbítero Nicolau Cristo é Pároco da Paróquia Ortodoxa Antioquina da Dormição da Mãe de Deus em Duque de Caxias (RJ).








