1) Como foi sua “descoberta” da Ortodoxia? Conte-nos com detalhes, por favor.
Não foi exatamente uma descoberta, pois eu fui batizado ainda bebê na minha paróquia. Isso se deu no contexto da expansão da Igreja Ortodoxa Antioquina no Rio de Janeiro nos anos 1980, através do trabalho missionário de S. Emcia, o Bispo Dom Georges El-Hajj (de eterna memória). Um dos padres que foram recebidos, Arquimandrita Basílio Nilson (Santana), fundou a Paróquia de Santa Maria Mãe de Deus, em Jardim Anhangá, Duque de Caxias, na periferia da capital fluminense. Inicialmente a paróquia seria dedicada a São Sebastião, mas por um pedido de D. Georges, ela foi dedicada à Santíssima Virgem. Mesmo assim, o santo é bastante popular na paróquia e possui muitos devotos.
O seu trabalho missionário levou a minha família a aderir à paróquia, sendo eu então batizado na Fé Ortodoxa no ano de 1983. Com o passar do tempo, eu fui cada vez mais me interessando pela Doutrina Ortodoxa e me engajando cada vez mais no serviço e nas atividades paroquiais. Então, fazer parte da Igreja Ortodoxa é algo natural para mim, eu não precisei me desfazer de toda a bagagem da Igreja Romana, em um processo de conversão, ao contrário de tantos outros.
2) E o chamado ao sacerdócio ? Sua família em geral aceita a nova realidade?
Com a chegada de S. Emcia. o Bispo D. Theodore (El-Ghandour), era natural que ele se esforçasse por organizar o Vicariato. Dentro deste esforço, estava a renovação do clero. A princípio eu fiquei relutante, inclusive chegando a pedir o meu desligamento do clero (eu já era subdiácono). No entanto, eu fui percebendo que a manutenção da paróquia e a sua perpetuação dependiam de mim, pois eu reunia os requisitos mínimos para ordenação: ser casado já há algum tempo; conhecer as celebrações litúrgicas e ter um emprego fixo e estável (sou professor da rede pública de ensino), já que a Igreja não provê o sustento dos padres e suas famílias. A partir daí, foi o caminho natural: a minha formação e preparação para ser ordenado foi diretamente com o bispo, na Catedral de São Nicolau. Quando ele avaliou que eu já estava pronto, me ordenou diácono e padre, e finalmente em abril de 2019 eu fui empossado como pároco. A princípio, minha família não se adaptou bem à nova realidade, pois a administração da paróquia se somou à minha rotina de trabalho, cuidado com o lar e atenção à esposa. Posteriormente, fomos organizando melhor o nosso cotidiano, mas ainda é um grande desafio conciliar todos esses aspectos.
3) Fale-nos de sua paróquia: um breve resumo histórico, como e com que frequência são celebrados os Serviços Divinos, quem frequenta, atividades além dos Serviços Divinos…
A paróquia surge no início dos anos 1980, dentro do processo de expansão da Ortodoxia no Rio de Janeiro, promovido por S. Emcia, o Bispo D. Georges Ell-Hajj (de eterna memória). Ele abriu as fileiras do clero para os brasileiros, fato já bem conhecido. O fundador da nossa paróquia, Arquimandrita Basílio (de eterna memória), era oriunda da Igreja Católica Brasileira, um cisma da Igreja Católica Romana. Não sei em quais circunstâncias e por quais motivos, Padre Basílio sai da Igreja Brasileira e é recebido por D. Georges na Igreja Antioquina, e a partir daí, se dedica a realizar um trabalho missionário em Jardim Anhangá, bairro da periferia de Duque de Caxias. Já em 1983 ocorrem os primeiros batizados e em 1984 o então Patriarca de Antioquia, S. Beatitude Ignatios IV (de eterna memória) visita a paróquia.
A partir daí, a comunidade foi se desenvolvendo de forma orgânica, com novas adesões, abandono por parte de alguns fiéis, mas sempre mantendo um núcleo de pessoas que auxiliavam o padre nos serviços e na administração da paróquia.
Pode-se dizer que o desenvolvimento da vida paroquial ocorreu, grosso modo, em quatro fases:
- anos 1980: pouca diferenciação em relação à Igreja Romana. Apesar de levar o nome de Ortodoxa, os ritos, o ensinamento, o calendário, e outras coisas, eram bem influenciados pelos costumes latinos.
- anos 1990: fortalecimento da Ortodoxia. Através das aulas de canto, da catequese infantil, da formação da Juventude Ortodoxa e do coral da paróquia, promovidas e incentivadas por D. Georges, a comunidade vai conhecendo e praticando cada vez mais a Ortodoxia, inclusive com uma presença constante na Catedral de São Nicolau.
- anos 2000: início da decadência. Com o falecimento de D. Georges, não somente a paróquia, mas todo o Vicariato, ficam sem um direcionamento. Isso só foi resolvido, em parte, com a chegada de S. Emcia. o Bispo D. Dimitrios Hosni (de eterna memória). Porém, D. Dimitrios, devido a seus problemas de saúde, não conseguiu desenvolver um bom trabalho, retirou-se do Vicariato e veio a falecer em 2010.
- anos 2010: decadência completa. Sem um bispo a governar o Vicariato, cada padre era o seu próprio bispo, e agia a seu bel-prazer. Apenas a forma de celebrar a Liturgia foi mantida, e cada vez mais os costumes latinos faziam parte do cotidiano da paróquia. Nesse período, ocorre o falecimento do Arquimandrita Basílio, em 2012, e a situação da paróquia fica ainda mais delicada, com diversos padres se revezando para dar conta das celebrações e a comunidade se organizando para manter a administração financeira.
- anos 2020: período de renascimento e reorganização. Com a chegada de D. Theodore, e a ordenação deste indigno servo como sacerdote, a comunidade começa a se reorganizar em torno da Ortodoxia, gradativamente eliminado os costumes latinos do cotidiano paroquial.
Importante mencionar que o Arquimandrita Basílio ainda fundou duas outras comunidades, com templos próprios, em bairros vizinhos: São Cosme e São Damião, em 1997, no Parque Paulista, e São Pedro e São Paulo, em 2003, no Barro Branco, ambas desativadas por falta de clero e também por não terem atraídos fieis; além da Igreja de São Jorge, em um espaço anexo à paróquia de Santa Maria Mãe de Deus, em Jardim Anhangá, no ano de 2009. Desde a sua fundação, os serviços da paróquia sempre tiveram um apelo bastante popular, no sentido orientar as atividades religiosas com base em concessões de bênçãos para cura de doenças, proteção contra adversidades, etc. Por um tempo funcionou, mas conforme a comunidade absorvia mais da Ortodoxia, muitos se afastaram, pois estavam interessados apenas nas bênçãos mencionadas, não em se converter verdadeiramente.
Atualmente, contamos com as Divinas Liturgias dominicais (manhã na Igreja de Santa Maria, tarde na Igreja de São Jorge), e ofício de Akathistós durante a semana (quarta na igreja de Santa Maria, sexta na Igreja de São Jorge). Além disso, temos as aulas de catequese e as comemorações anuais, que sempre reúnem muitos fieis: Páscoa, Dia da Padroeira (15 de agosto, Dormição da Mãe de Deus), dia de São Jorge e de São Sebastião (comemorado a 20 de janeiro, por influência da Igreja Romana).
Devido ao longo período sem a atuação de um bispo, muitas pessoas aderiram à comunidade mas sem passar pelo processo de iniciação na fé de maneira correta. Então muitos ainda confundem nossa paróquia com a Igreja Romana ou Brasileira, sendo este um dos principais desafios a serem superados. Outro desafio reside no sincretismo típico da religiosidade popular, especialmente em relação aos santos Jorge e Sebastião. Neste caso, é preciso um trabalho minucioso e delicado de orientação, para não confundir o culto a eles com outras expressões religiosas. Como estou a pouco tempo à frente da comunidade, sei que estes desafios ainda estão longe de serem superados.
Protopresbítero Nicolau Cristo é Pároco da Paróquia Ortodoxa Antioquina da Dormição da Mãe de Deus em Duque de Caxias (RJ).








