1) Fale-nos de sua jornada à Ortodoxia e de como sua família reagiu à sua conversão.
Fui criado na igreja Batista e, somente aos sete anos, entrei numa igreja Católica para a missa de sétimo dia de uma patroa da minha mãe. Era uma igreja enorme e antiga em São Paulo com anjos pintados no teto na igreja que simbolizava o céu. Era a primeira vez que eu via aquilo. Fiquei imaginando como conseguiam pintar naquela altura, como aqueles anjos me inspiravam e me davam uma sensação de confiança na vida no porvir. Quando nós estávamos saindo da igreja, eu perguntei a meu pai porque não tínhamos aqueles anjos na nossa igreja. Ele me respondeu: “meu filho, isso é tudo do diabo!” Foi a primeira vez que me lembro ter discordado de meu pai mas não ousei dizer nada. Desde aquela época nasceu em mim uma curiosidade e respeito pela arte sacra o que iria me ajudar muito quando eu me tornasse ortodoxo.
Em 2009, voltando de uma viagem à Grécia onde eu tinha recebido uma bolsa de estudos de língua grega na Universidade Kapodistriana de Atenas, no voo de Roma a São Paulo, se sentou na nossa fileira um senhor grego que começou a conversar com minha futura madrinha Anna Georges Koutroútsos. Ela ficava me contando partes da conversa. Ele estava indo para o Brasil, sem falar português ou inglês, para procurar a família dele. Minha madrinha, que é uma santa, resolveu ajudá-lo. Eu só pensava no trabalho que ia dar. Eu nem imaginava o quanto aquilo iria mudar minha vida.
Esse senhor, o Nikos Tsadoúlas, me ligava todos os dias. Ele conseguiu achar a família e num domingo ele me disse que precisava ir a uma igreja ortodoxa para acender uma vela para seu pai que tinha adormecido recentemente. Eu não sabia onde era a igreja grega de São Paulo. Eu tinha ouvido dizer que no bairro do Bom Retiro havia uma. Pegamos um taxi, achamos a igreja. Estavam celebrando a Divina Liturgia. Eu fiquei tão emocionado ouvindo o canto bizantino na minha cidade, o padre, o diácono, os acólitos, todos devidamente paramentados. O Nikos acendeu sua velinha e me chamou para irmos embora. Eu queria ficar. Para sempre. Naquele dia decidi que ia ser ortodoxo.
Conversei sobre isso com meu professor de grego o senhor Dimítris Anagnostópoulos, da cidade grega de Kalamata, onde ficava a antiga Esparta, sobre me tornar ortodoxo. Ele ficou muito entusiasmado, disse que ia ser meu padrinho e mas me mandou procurar outra paróquia. Depois eu descobri que decidi me fazer ortodoxo numa igreja veterocalendarista.
Aos 12 anos deixei de frequentar a igreja dos meus pais porque ela tinha se tornado pentecostal. Desde então, me tornei a ovelha negra da família. Sempre tive sérios problema com meus pais, infelizmente. Eles não queriam que eu estudasse, queriam que eu abandonasse a escola para trabalhar. Minha mãe brigava comigo porque eu estudava inglês. Ela sempre diz que um bom brasileiro fala somente português. Coitada dela, a cada língua nova que eu aprendo tenho certeza de que ela acha que eu só pioro.
Aos 19 anos de idade conheci, através de uma tia, a igreja dos Mormons. Fiz dela parte por muitos anos, chegando até fazer missão de tempo integral no Paraná e Santa Catarina, por dois anos. Mas lá também não era o meu lugar. Quando me tornei ortodoxo, aos trinta e tantos anos, meus pobres pais nem se deram conta.
2) O senhor concebe a vida monástica como um chamado divino? Como soube reconhecer que este era o seu caminho no serviço a Cristo e Sua Igreja?
Numa aula de história, quando eu tinha uns nove ou dez anos, na minha humilde escolinha na cidade de Cotia, a professora nos ensinava sobre a espiritualidade na Idade Média. Ela nos falava da vida monástica e que os monges eram homens que dedicavam a vida a Deus. Uma vida de oração, participação nos Ofícios da igreja, estudo e serviço ao próximo. Eu levantei minha mão e disse: “professora, então eu quero ser monge.” Ela respondeu: “Mário, essas coisas não existem mais…” Ela não sabia o quanto estava enganada.
Eu já frequentava a igreja há alguns anos e, um dia, no comecinho da Liturgia, o Padre Basílio dos Santos Lima me disse: você viu quem está aí? O Patrick Dumont. Eu não podia acreditar! O ele era um cantor de músicas francesas que eu gostava muito. Eu fui falar com ele e uma amizade começou. Ele começou a contar no coral com a gente e eu um dia o Patrick me perguntou: “Mário, você quer ser monge? Deixe sua barba crescer. Não acredito que foi somente por causa da barba mas, depois disso, as coisas foram acontecendo. Em 2014 nosso irmão Fabrício Miguel nos apresentou ao Bispo Ambrósio (Cubas) da Igreja Ortodoxa da Polônia no Brasil e depois fomos ao Rio de Janeiro conhecer o Arcebispo Chrisóstomo (Muniz Freire).
Acredito que a vida monástica seja um chamado divino e que Deus vai preparando as pessoas para que estejam prontas no momento certo. Sempre tive o desejo de servir na igreja, de trabalhar no Reino de Deus e a oportunidade surgiu ….
3) Fale-nos de sua experiência na Grécia, onde estudou teologia. Como é a vida para um brasileiro sem muitas referências que deseja estudar teologia em outra língua? Quais foram as principais dificuldades? Alguns conselhos aos jovens que talvez venham a se aventurar neste caminho também…
Estudar na teologia na Grécia é uma grande oportunidade. Na minha opinião, a pessoa tem que se preparar e saber pelo menos inglês para poder se comunicar enquanto está aprendendo grego. Aulas de grego são ministradas por dois semestres para preparar os candidatos para uma prova de proficiência em língua grega. Grego é uma língua desafiadora, com um outro alfabeto, gramática complexa com declinações e conjugações e requer uma boa dose de dedicação. Infelizmente com esse cisma do Patriarcado Ecumênico e das Igrejas Eslavas, a Igreja da Polônia não tem enviado pessoas para estudar na Grécia. Os alunos recebem uma bolsa do Ministério das Relações Exteriores da Grécia e têm direito a estudo, alimentação nos restaurantes universitários e acomodação nos apartamentos estudantis. Há alguns mosteiros e outra instituições religiosas que recebem alunos estrangeiros. O aluno também pode candidatar-se a uma bolsa em dinheiro concedida pela Igreja da Grécia. Toda esse estrutura é muito boa e funciona muito bem.
Eu estudei na cidade de Tessalônica, na Universidade Aristotélica, construída sobre o maior cemitério judaico da Europa, que foi desapropriado nos anos 70 pelo prefeito. Há um monumento no campus para rememorar esse fato com inscrições em grego, hebraico e ladino, língua falada pelos judeus de Tessalônica. Essa língua se parece muito com o português. Quanto ao curso de teologia, nele há três departamentos: departamento de teologia, departamento pastoral e departamento de estudos islâmicos. O meu era o departamento de teologia. Minha experiência de estudo na Grécia foi mais proveitosa no tocante a viver num país ortodoxo onde a Igreja tem séculos de tradição e as Ofícios são celebrados com perfeição. Na maioria das vezes, as igrejas contam com cantores profissionais (psáltis) que cantam primorosamente, há inúmeros padres, diáconos e acólitos. Em Tessalônica as igrejas sempre estão lotadas e algumas tem várias Liturgias no domingo.
O curso de teologia, em si, não foi muito bom. Os professores sempre chegam atrasados, ensinam o que eles querem e quando querem, os alunos colam sem pudor e se você quer aprender alguma coisa, tem que estudar sozinho. Eu estava acostumado com a faculdade no Brasil, onde os professores jamais se atrasavam e davam aulas profundas sobre os temas discutidos.
Algumas aulas eram boas, mas a maior parte era problemática. Eu aproveitava muito as aulas de línguas. Fiz hebraico, árabe, persa, francês e alemão. Minha aula preferida era a de alemão, a alegria das minhas sextas-feiras. No começo a professora não ia com a minha cara. Mas eu ia bem na matéria dela e ela começou a me tratar melhor. Ela dava aula sentada, o livro todo no datashow, ela não explicava nada, só fazia inúmeras perguntas de gramática e tradução. Quem quisesse aprender, que estudasse sozinho (o meu caso). O curso começou com cinquenta alunos. Cinco terminaram e eu entre eles.
Eu morava no alojamento do Santo e Estavropégico Mosteiro dos Irmãos Vláttes, ou Moní Vlattádon. Esse mosteiro é o único que funcionou ininterruptamente durante o domínio turco e, segundo a tradição, fica no local onde o apóstolo São Paulo se hospedou quando visitou a cidade. O mosteiro pertence ao Patriarcado Ecumênico e é administrado pelo arcebispo Nikiphóros de Amório. Os estudantes, moram num prédio com vinte quartos grandes e espaçosos que tem uma vista privilegiada da baia de Tessalônica e do famoso Monte Olimpo. Por se tratar de um mosteiro, os alunos têm que cumprir regras rígidas de conduta, têm que ajudar na Liturgia, participar de todos os ofícios que não atrapalhem as aulas. Não podem chegar muito tarde e, após a Liturgia de sábado, todos os rapazes têm que tomar um café com o arcebispo. Quantas vezes não vi meus condiscípulos em apuros por faltarem a esse compromisso que eu chamava de pagar o aluguel. Moní Vlatádon é um dos melhores alojamentos da cidade, mas fica a quatro quilômetros da faculdade e no alto de um morro. Para descer é fácil, o difícil é subir no calor do verão grego. Há outros alojamentos como Agia Theodora, no centro, somente para padres e monges e Agios Adônios (Santo Antônio), mas lá os quartos são para até cinco estudantes.
No restaurante universitário, no começo eu não sabia quais eram os acompanhamentos para cada prato principal, mas isso se aprende rápido. Há cardápio disponível para os dias de abstinência e quaresma.
Eu já estava acostumado a estudar na Grécia. Já tinha ido três vezes com bolsas de estudos em 2008, 2009 e 2011. Os professores, às vezes, são grossos e grego é a única língua que falam. Quem quiser estudar na Grécia que tenha muita paciência. Eles são gente boa, mas nossa boa educação brasileira é incompreendida por eles. Com os problemas com a pandemia resolvi deixar a Grécia e vir para o mosteiro (de Saki) no Polônia. Infelizmente, não terminei o curso. Mas vir para o mosteiro foi muito melhor para mim.
Padre Mário (Bonfim) é Sub-Diácono Rasofor no Monastério Ortodoxo de Saki, na Polônia.








