O Ofício do Hino Acatiste é cantado nas Matinas do sábado da quinta semana da Quaresma ou na noite da sexta-feira dessa semana, anexado ao ofício das Pequenas Completas. É cantado na íntegra nesses dias, mas em partes nas quatro sextas-feiras da Quaresma anteriores, “como um elemento pré e pós-festivo”. Isso ocorre porque há elementos da Festa da Anunciação que não são celebrados devido ao luto e à compunção da Grande Quaresma.
Se examinarmos o Serviço do Hino Acatiste em seu conteúdo, veremos que as partes individuais que o compõem (o Cânone da Mãe de Deus e os 24 versos das Saudações à Mãe de Deus) são de natureza alegre e jovial, projetando um sentimento de júbilo com a repetição da palavra “rejubila(-te)” [relacionada em grego com a palavra para alegria, assim como “alegra-te, rejubila-te” em português] e as frases “Alegra-te, cheia de graça”, “Alegra-te, Noiva Não Desposada”, que remetem à saudação do Arcanjo registrada no Evangelho segundo São Lucas: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo” (1, 28). Elas também destacam o papel único da Mãe de Deus na Dispensação Divina e na salvação da humanidade.
O Cânone do Hino do Ofício do Acatiste, “Abrirei a minha boca”, que inclui muitos dos tropários também encontrados no cânone das Matinas da festa da Anunciação, é um poema de José, o Hinógrafo [festa em 3 de abril]; enquanto os Irmi (os primeiros tropários de cada ode) foram escritos por São João Damasceno.
Ambos os hinógrafos se concentram em quatro pontos principais:
a) as prefigurações de Cristo e da Mãe de Deus no Antigo Testamento,
b) a divindade e a humanidade de Jesus Cristo,
c) a personalidade e o papel de Nossa Senhora, a Mãe de Deus, na consumação do plano da dispensação de Deus, e
d) a salvação do mundo em Cristo.
Os vinte e quatro versos do Hino Acatiste formam um acróstico, ou seja, são escritos com a primeira letra de cada verso na mesma ordem do alfabeto grego. Esse acróstico evidencia a integridade geral do hino, mas, infelizmente, nada revela sobre o poeta, cuja identidade permanece um mistério até hoje.
Os versos estão divididos em duas grandes unidades, cada uma com duas subunidades. Na primeira, o autor do hino tenta apresentar a revelação histórica de Deus, enquanto na segunda ele busca descrever a cristologia e a soteriologia.
A primeira unidade compreende os versos 1 a 12, nos quais são narrados os maravilhosos eventos da vida de Cristo, desde o momento da Anunciação à Mãe de Deus até a Sua Recepção no Templo. É um texto histórico, com a primeira unidade (versículos 1-6 em grego) relacionada à Anunciação, começando imediatamente com “Um anjo da guarda foi enviado do céu para saudar [‘para dizer alegria’ à’] Mãe de Deus”, enquanto a segunda subunidade (versículos 7-12) refere-se ao Nascimento de Cristo, conforme descrito nos Evangelhos de Lucas e Mateus. Começa com a frase “Os pastores ouviram os anjos cantando a presença de Cristo encarnado” e tem como fundamento a narrativa do Evangelho segundo São Lucas, segundo a qual: “o anjo disse aos pastores: ‘Não tenham medo. Pois eis que lhes trago novas de grande alegria, que será para todo o povo.’” Hoje, na cidade de David, vos nasceu um Salvador, que é Cristo, o Senhor” (2, 10-11).
A segunda unidade contém os versículos 13-24 e apresenta o ensinamento dogmático da Igreja Ortodoxa, em particular no nível cristológico e soteriológico. A primeira subunidade (versículos 13-18) examina os pontos principais da encarnação divina, com referência à divindade de Jesus Cristo, ao propósito da Encarnação e à nossa salvação nEle. Cristo é chamado de “Rei”, “Senhor”, “Verbo indescritível”, “Deus inacessível”, “Luz imaterial” e “Deus sublime”, com o hinógrafo visando demonstrar Sua capacidade divina, a transcendência de Deus e a hipóstase divina, inconcebível, consubstancial e igualmente entronizada do Filho e Verbo de Deus como a segunda Pessoa da Santíssima Trindade.
Naturalmente, a encarnação do Filho e Verbo de Deus não deve ser entendida como um movimento local, mas como extrema condescendência. Os Padres da Igreja frequentemente usam, de forma inadequada, a expressão “um movimento do Verbo” para descrever o evento do esvaziamento deSsi mesmo do Verbo e Sua assunção da natureza humana.
A divindade do Verbo e Filho de Deus não pode ser dividida nem fragmentada. O Verbo estava “inteiramente nas coisas de baixo”, sem abandonar “de modo algum as coisas de cima”. Outra passagem hinológica que poderia esclarecer o fato de que a divindade não é fragmentada nem limitada por dimensões locais ou cronológicas é um dos tropários da 7ª ode do cânone das Matinas para o Santo e Grande Sábado, que explica muito claramente: “A divindade de Cristo, com o Pai e o Espírito, era uma só – no Hades, na sepultura e no Éden”.
Finalmente, a segunda subunidade da segunda parte dos 24 versos do Hino Acatiste (versos 19-24) refere-se claramente ao importante papel desempenhado pela Mãe de Deus no plano de Deus para a nossa salvação na Sua dispensação, como afirma o 24º e último verso das Saudações: “Mãe de todos os hinos, que gerou a Palavra mais santa do que tudo o que é santo”.
Theodore Rokas
tradução de monja Rebeca (Pereira)







