DEFININDO A ESPIRITUALIDADE ORTODOXA

É necessário, primeiro, definir os termos: “ortodoxo” e “espiritualidade”. Não podemos falar sobre “espiritualidade ortodoxa” sem saber exatamente o que queremos dizer com essas duas palavras. Foi isso que os Santos Padres da Igreja fizeram. Em seu excepcional livro “A Fonte do Conhecimento”, e mais especificamente nas seções intituladas “Capítulos Filosóficos”, São João Damasceno analisa os significados de palavras como substância, natureza, hipóstase, pessoa, etc. Como esses termos podem ser definidos de maneira diferente em outros contextos, ele explica por que são definidos assim aqui.

O adjetivo “ortodoxo” vem do substantivo “Ortodoxia” e mostra a diferença entre a Igreja Ortodoxa e todas as outras denominações cristãs. A palavra “Ortodoxia” manifesta o verdadeiro conhecimento sobre Deus e a criação. Esta é a definição que Santo Anastásio do Sinai oferece 1.

O termo “Ortodoxia” é formado por duas palavras: “orthi” (ορθή = verdadeiro, correto) e “doxa”. “Doxa” (δόξα) significa, por um lado, crença, fé, ensinamento, e por outro, louvor ou doxologia. Esses dois significados estão intimamente conectados. O verdadeiro ensinamento sobre Deus incorpora o verdadeiro louvor a Deus; pois, se Deus é abstrato, a oração a esse Deus também é abstrata. Se Deus é pessoal, então a oração assume um caráter pessoal. Deus revelou a verdadeira fé, o verdadeiro ensinamento. Assim, dizemos que o ensinamento sobre Deus e todos os assuntos associados à salvação de uma pessoa são a Revelação de Deus e não uma descoberta do homem.

Deus revelou esta verdade a pessoas preparadas para recebê-la. Judas expressa isso ao dizer: “lutai pela fé uma vez por todas entregue aos santos” (Judas 3). Nesta citação, como em muitas outras passagens relacionadas, fica claro que Deus se revela aos santos, ou seja, àqueles que alcançaram um certo nível de crescimento espiritual para receber esta Revelação. Os santos apóstolos foram primeiro “curados” e depois receberam a Revelação. Eles transmitiram essa Revelação a seus filhos espirituais, não apenas ensinando-os, mas, principalmente, efetivando misticamente seu renascimento espiritual. Para que essa fé fosse preservada, os Santos Padres formularam os dogmas e doutrinas. Nós aceitamos os dogmas e doutrinas; em outras palavras, aceitamos essa fé revelada e permanecemos dentro da Igreja para sermos curados. Pois a fé é, por um lado, a Revelação para os que foram purificados e curados e, por outro, o caminho correto para alcançar a theosis (deificação) para aqueles que escolhem seguir o “caminho”.

A palavra “espiritualidade” (pnevmaticotis – πνευματικότης) vem de “espiritual” (pnevmatikos – πνευματικός). Assim, espiritualidade é o estado da pessoa espiritual. O homem espiritual tem uma certa maneira de agir, uma certa mentalidade. Ele age de forma diferente do modo como as pessoas não espirituais se comportam.

A espiritualidade da Igreja Ortodoxa, no entanto, não leva a uma vida religiosa abstrata, nem é fruto da força interior do homem. A espiritualidade não é uma vida religiosa abstrata porque a Igreja é o Corpo de Cristo. Não é simplesmente uma religião que acredita teoricamente em um Deus. A Segunda Pessoa da Santíssima Trindade — o Verbo de Deus — assumiu a natureza humana por nós. Ele a uniu à sua hipóstase e se tornou a Cabeça da Igreja.

Assim, a Igreja é o Corpo do Homem-Deus, Cristo. Além disso, a espiritualidade não é uma manifestação das energias da alma, como é o caso da razão ou dos sentimentos, entre outros. É importante afirmar isso porque muitas pessoas tendem a rotular como espiritual alguém que cultiva suas capacidades racionais: um cientista, um artista, um ator, um poeta, etc. Essa interpretação não é aceita pela Igreja Ortodoxa. Certamente não somos contra cientistas, poetas, etc., mas não podemos chamá-los de pessoas espirituais no sentido estrito e ortodoxo do termo.

No ensinamento do Apóstolo Paulo, o homem espiritual é claramente distinguido do homem da alma. Espiritual é aquele que tem a energia do Espírito Santo dentro de si. Já o homem da alma é aquele que possui corpo e alma, mas não adquiriu o Espírito Santo, que dá vida à alma. “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Porém o homem espiritual julga todas as coisas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém” (1 Coríntios 2, 14-15).

Na mesma Epístola, o Apóstolo Paulo faz a distinção entre o homem espiritual e o homem da carne. O homem da carne é aquele que não tem o Espírito Santo em seu coração, mas conserva todas as outras funções psicossomáticas de um ser humano. Portanto, é evidente que o termo “homem da carne” não se refere ao corpo, mas designa o homem da alma que carece do Santíssimo Espírito e que age a partir de seu chamado “eu psicobiológico”. “E eu, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo. Dei-lhes leite, e não alimento sólido, porque ainda não podíeis recebê-lo, nem tampouco ainda agora podeis; porque ainda sois carnais. Pois, havendo entre vós inveja, contendas e dissensões, não sois porventura carnais e não andais segundo os homens?” (1 Coríntios 3, 1-3).

Se combinarmos as passagens mencionadas acima com aquelas que se referem à adoção dos cristãos pela graça, constatamos que, segundo o Apóstolo Paulo, o homem espiritual é aquele que, pela graça, tornou-se filho de Deus. “Portanto, irmãos, somos devedores, não à carne, para viver segundo a carne. Porque, se viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras do corpo, vivereis. Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus. Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes em temor, mas recebestes o Espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai. O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Romanos 8, 12-16).

O homem espiritual é aquele que é testemunha do Espírito Santo em seu coração e, assim, está plenamente consciente da presença do Santo Deus Trino em si. Dessa maneira, ele percebe que é filho de Deus pela graça e, portanto, em seu coração clama: “Aba, Pai”. Segundo o testemunho dos Santos, esse clamor do coração é essencialmente a oração noética, isto é, a oração do coração.

São Basílio, o Grande, ao examinar o que significa que “o homem se torna templo do Santíssimo Espírito”, ensina — inspirado por Deus — que o homem que é templo do Espírito Santo não é perturbado por tentações e preocupações constantes; ele busca a Deus e tem comunhão com Ele. Claramente, o homem espiritual é aquele que tem o Espírito Santo dentro de si, e isso é confirmado pela sua ininterrupta lembrança de Deus 2.

Segundo São Gregório Palamas, assim como o homem dotado de razão é chamado de racional, do mesmo modo o homem enriquecido pelo Espírito Santo é chamado de espiritual. Assim, o homem espiritual é o “homem novo”, regenerado pela graça do Santíssimo Espírito.

Essa mesma visão é compartilhada por todos os Santos Padres. São Simeão, o Novo Teólogo, por exemplo, diz que o homem que é prudente, paciente e manso, e que ora e contempla a Deus, “anda no Espírito”. Ele é, por excelência, o homem espiritual.

Ainda segundo São Simeão, o Novo Teólogo, quando as partes da alma do homem — seu nous 3 e intelecto — não estão “revestidas” pela imagem de Cristo, ele é considerado um homem carnal, pois não possui o senso da glória espiritual. O homem carnal é como o cego que não consegue ver a luz dos raios do sol. De fato, ele é considerado tanto cego quanto sem vida. Em contraste, o homem espiritual, que participa das energias do Espírito Santo, está vivo em Deus 4.

Como enfatizamos anteriormente, a comunhão no Santíssimo Espírito torna o homem carnal espiritual. Por essa razão, de acordo com o ensino ortodoxo, o homem espiritual, por excelência, é o Santo. Certamente, isso é dito do ponto de vista de que um Santo é aquele que participa, em graus variados, da graça incriada de Deus, e especialmente da energia deificante de Deus.

Os Santos são portadores e manifestações da espiritualidade ortodoxa. Eles vivem em Deus e, consequentemente, falam sobre Ele. Nesse sentido, a espiritualidade ortodoxa não é abstrata, mas está encarnada na pessoa dos Santos. Portanto, os Santos não são as pessoas boas, os moralistas no sentido estrito do termo, ou simplesmente aqueles que são bem intencionados. Pelo contrário, santo é a pessoa que se submete e age segundo a orientação do Santíssimo Espírito dentro de si.

Estamos seguros da existência dos Santos, primeiramente, pelo seu ensino ortodoxo. Os Santos receberam e continuam a receber a Revelação de Deus; eles a experimentam e a formulam. Eles são os critérios infalíveis dos Sínodos Ecumênicos. A segunda garantia é a existência das relíquias sagradas dos Santos. As relíquias sagradas são o sinal de que, através do nous, a graça de Deus transfigura também o corpo. Consequentemente, os corpos participam das energias do Santíssimo Espírito.

O trabalho primordial da Igreja é conduzir o homem à theosis, à comunhão e união com Deus. Por isso, de certa forma, podemos dizer que o trabalho da Igreja é “produzir relíquias”.

Assim, a espiritualidade ortodoxa é a experiência da vida em Cristo, a atmosfera do novo homem, regenerado pela graça de Deus. Não é um estado abstrato, emocional e psicológico. É a união do homem com Deus. Dentro desse quadro, podemos detectar algumas características da espiritualidade ortodoxa. Em primeiro lugar, ela é centrada em Cristo, pois Cristo é o único “remédio” para as pessoas, em virtude da unidade hipostática [pessoal] da natureza divina e humana em Sua pessoa. Em segundo lugar, a espiritualidade ortodoxa é centrada na Santíssima Trindade, pois Cristo está sempre unido ao Pai e ao Espírito Santo. Todos os sacramentos são realizados em nome do Deus Triúno. Sendo a Cabeça da Igreja, Cristo não pode ser pensado como estando fora dela. Consequentemente, a espiritualidade ortodoxa também é centrada na Igreja, pois somente dentro da Igreja podemos entrar em comunhão com Cristo. Finalmente, como explicaremos mais adiante, a espiritualidade ortodoxa é mística e ascética.

_________________

1 Cf.PG89,76D.

2 Cf. São Basílio, o Grande, Padres Gregos da Igreja (em grego, E.P.E.), Tessalônica, 1972, Vol. 1, p. 68.

3 A palavra “nous” tem vários usos no ensinamento patrístico. Ela indica ora a alma, ou o coração, ou até uma energia da alma. No entanto, o nous é principalmente o “olho da alma”; a parte mais pura da alma; a mais alta atenção. Também é chamado de “energia noética”, e não se identifica com a faculdade da razão.

4 Cf. SC 51, 54.


Metropolita Hierotheos (Vlachos) de Nafpaktos
tradução do Sub-Diácono Gregório Siqueira

Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram
Picture of Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

Picture of Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

9 visualizações

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recentes