A UNIDADE DO AMOR
Um dos mais nobres nomes dados a Deus pertence ao apóstolo João o Teólogo: “Deus é amor” (1 Jo, 4, 8; 4, 16). No entanto, não existe amor sem o ser amado. O amor pressupõe a existência do outro. Uma mônade só e isolada só pode amar a si própria: o amor de si/por si não é amor. A unicidade de um ser egocêntrico não manifesta ainda a pessoa. Assim como o ser humano não pode se reconhecer como pessoa fora de uma relação com outras pessoas, assim também não pode existir em Deus um ser pessoal fora de uma relação de amor com outro ser pessoal. O Deus Trindade é a plenitude do amor, cada Pessoa-Hipostase estando direcionada com amor as duas outras Pessoas-Hipostases. No seio da Trindade as Pessoas Se reconhecessem como “Eu e Tu”: “Tu, Pai, Tu estás em Mim e Eu em Ti”, diz Cristo ao Pai (Jo. 17, 21). “Tudo quanto o Pai tem é Meu; por isso, vos disse que há de receber do que é Meu e vo-lo há de anunciar” (Jo 16, 15). “No princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo. 1,1). No texto grego existe “direcionado ao Deus” (pros ton theon), sublinhando assim o caráter pessoal das relações recíprocas de Deus Palavra e de Deus Pai: o Filho não somente é engendrado do Pai, não somente existe com o Pai, mas está direcionado ao Pai. Cada hipostase na Trindade está assim direcionada as outras hipostases. São Máximo o Confessor fala do “movimento eterno (da Trindade) no amor”.
No ícone da Trindade Santa de Santo André Rublyov, bem como sobre os outros ícones deste tipo iconográficos, vemos três anjos sentados à mesa sobre a qual se encontra um cáilce, símbolo do sacrifício expiatório de Cristo. O sujeito do ícone é também utilizado no episódio já citado da vida de Abraão (tal motivo iconográfico leva o nome de “a hospitalidade de Abraão”), as três personagens estão representadas direcionadas umas as outras e ao cálice. Sobre este ícone está como que impresso o amor divino que reina no seio da Trindade, e cuja mais alta manifestação se traduz no ato expiatório do Filho. Como diz São Filareto (Drozdov), é “o amor do Pai crucificante, o amor do Filho crucificado, o amor do Espírito Santo que triunfa pelo poder da cruz”. A imolação do Deus Filho sobre a cruz é igualmente um ato do Pai e do Espírito Santo.
DEUS CRIADOR
Se o Demiurgo platociano faz figura de artesão que ordena todas as coisas a partir de uma matéria primordial, o Deus bíblico, Ele é o Criador que constrói todo o Universo a partir do nada. O Antigo Testamento o afirma com nitidez: “Eu te suplico, filho, contempla o céu e a terra e o que neles existe. Reconhece que Deus os fez do que não existia, e que assim também se originou a humanidade.”(II Mac. 7, 28). Todo ser recebeu o dom da vida a partir da vontade livre do Criador, tal como lemos no Salmo 33. Necessidade alguma contradiz Deus a criar o mundo; mesmo até Seu amor, que não pode passar – bem como todo amor, de um objeto a se amar, não podia contradizê-lo ao ato criador, pois que encontra já sua realização na comunhão das hipostases da Trindade Divina, no seio da qual cada hipostase é por vezes sujeito e objeto, amante e ser amado. Deus criou o universo para esta única razão. Ele queria que a “vida superabundante” da qual Ele dispunha em Si-Próprio se dispersasse para além dos limites de Sua natureza, e que os seres vivos tornassem-se participantes da beatitude e santidade Divinas.
Ao ato criador toma parte as três Pessoas da Trindade Santa. O Antigo Testamento já o anuncia profeticamente: “Os céus foram feitos pela Palavra do Senhor e toda seu exército pelo Sopro de Sua boca” (Sl.33, 6). Acerca do papel criador desenvolvido pelo Verbo divino, o Apóstolo João se exprime no início de seu Evangelho: “Todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nada do que foi feito se fez.”(Jo. 1,3). Sobre o Espírito encontramos na Bíblia: “E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.” (Gn.1,2). O Verbo e o Espírito, retomando a imagem de Santo Irineu de Lyon são “as duas mãos” do Pai. Isto significa que ao ato comum da criação, os Três colaboraram, Sua vontade é una, mas cada um age de Sua maneira. “O Pai é o princípio primário de tudo que existe, diz São Basílio o Grande. O Filho, o princípio da criação, o Espírito Santo o princípio da realização, de tal sorte que pela vontade do Pai tudo existe, pela ação do Filho tudo vem ao ser, pela presença do Espirito tudo é realizado”. Em outros termos, no ato criador, ao Pai é confiado o papel de ser o princípio de tudo, ao Filho-Logos (Verbo) o papel de Demirugo-Criador e o Espírito Santo cumpre, quer dizer, conduz tudo criado ao seu ponto de perfeição.
Não por azar que os Santos Padres, ao falarem do papel criador do Filho, preferem nomeá-Lo Verbo: Ele manifesta o Pai, Ele revela o Pai, e como toda palavra, Ele se direciona a alguém, no caso presente a todo ser criado. “Deus nunca foi visto por alguém. O Filho Unigênito, que está no seio do Pai, este o fez conhecer.”(Jo. 1, 18). O Filho revelou o Pai ao ser criado, graças ao Filho o amor do Pai se dispersa sobre a criatura e ela recebe assim a vida.
Por que razão criou tudo? A tal questão a teologia patrística responde: “por super abundância de amor e de bondade”. “O Deus bom e mais que bom, não Se contenta com Sua própria contemplação, mas na super abundância de Sua bondade, Ele gostou que outro participasse à Sua ação benfeitora e à Sua bondade, e Ele conduz do não-ser ao ser e cria todas as coisas”, escreve São João Damasceno. Em outros termos, Deus quis que algo de outro participasse à Sua beatitude, comungando ao Seu amor
OS ANJOS
“No princípio Deus criou o céu e a terra”(Gn. 1, 1). Este versículo nos indica que a criação de Deus se divide em mundo invisível, espiritual, inteligível e num mundo visível, material. Vemos que na linguagem bíblica não existem conceitos abstratos e que a realidade espiritual é geralmente expressa pela palavra “céu”: “Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o Teu Nome. Venha o Teu Reino. Seja feita a Tua vontade, tanto na terra como no céu” (Mt. 6, 9-10). Aqui não se faz alusão ao céu material, visível. O Reino de Deus é o Reino espiritual e não material, e Deus sendo da natureza do Espírito, nele habita. Ao dizer “Ele cria o céu”, faz-se necessário compreender o mundo espiritual, com todos aqueles que nele habitam, quer dizer os anjos.
Deus cria o mundo angélico antes do universo visível. Os anjos são espíritos auxiliares, incorporais, dotados de inteligência e de vontade livre. João Damasceno evoca “o leve, o ardente, o penetrante, o agudo” que descrevem bem o impulso a Deus e o divino ofício, sua mobilidade, sua tensão constante ao alto e que lhe faz afastar todo pensamento material. Ele chama de igual modo os anjos de “luzes secundárias que recebem sua iluminação da luz primária e sem princípio”. Vivendo à proximidade imediata de Deus, alimentam-se de Sua luz e no-la transmitem.
A atividade principal dos anjos é a de elevar um louvor perpétuo a Deus. O profeta Isaías descreve a visão do Senhor em torno do qual se poem os Serafins, clamando: “Santo, Santo, Santo, o Senhor Sabaoth! O céu e a terra estão cheios da Sua glória!”(Is. 6, 1-3). Os anjos são também os mensageiros de Deus junto dos homens (em grego aggelos significa “mensageiro”): ele ocupam uma parte viva e ativa na vida dos homens. Assim, por exemplo, o Arcanjo anuncia a Maria que Ela irá conceber Jesus: “pois, na cidade de David, vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor” (Lc. 2, 11), os anjos servem Jesus no deserto: “Então, o diabo o deixou; e, eis que chegaram os anjos e o serviram” (Mt. 4, 11), um anjo fortalece Jesus no Jardim do Gethsemani: “E apareceu-Lhe um anjo do céu, que O confortava” (Lc. 22, 43), um anjo anuncia as mulheres miróforas a ressurreição de Jesus: “E eis que houvera um grande terremoto, porque um anjo do Senhor, descendo do céu, chegou, removendo a pedra, e sentou-se sobre ela. E o seu aspecto era como um relâmpago, e a sua veste branca como a neve” (Mt. 28, 2-7). Cada ser humano tem seu anjo guardião que o acompanha, lhe socorre e protege.
Todos os anjos não são iguais por aquilo que lhes cabe sua dignidade ou sua proximidade a Deus; existe dentre eles diversas hierarquias que estão submissas umas às outras. No tratado “Sobre a Hierarquia Celeste”, atribuído a São Dionísio o Areopagita, o autor denomina três hierarquias angélicas, divididas cada uma em três ordens. A primeira hierarquia, a mais alta, correspondem os Serafins, os Querubins e os Tronos, à segunda as Senhorias, os Poderes e as Potestades, a Terceira os Principados, os Arcanjos e Anjos.
Na Hierarquia Celeste, as ordens superiores recebem sua iluminação da luz Divina e sua capacidade de comungar aos mistérios Divinos diretamente do Próprio Criador, as inferiores as recebem por intermediário das superiores. A hierarquia angélica segundo Dionísio, passa na hierarquia da Igreja terrestre (bispos, sacerdotes, diáconos), que comungam ao mistério divino por intermediário da hierarquia celeste. Em relação ao número de anjos, evocamos em termos gerais: “mil milhares” e “dez mil milhões” (Dan. 7, 1). Como for, eles são mais numerosos que os homens. São Gregório de Nissa vê na ovelha perdida toda humanidade, e nas 99 que se não perdem, o mundo angélico.
Metropolita Hilarion Alfeyev
tradução de monja Rebeca (Pereira)








