A leitura do Evangelho de hoje revela-nos a profundidade do sofrimento humano e a profundidade ainda maior da misericórdia e do poder de Deus. Vemos um pai que, movido pela dor do filho, se dirige ao Senhor em sua última esperança: “Mestre, trouxe-Te o meu filho, que tem um espírito mudo”. Este homem estava tomado pelo desespero e provavelmente já não acreditava que alguém pudesse ajudar o seu filho. Tentou pedir ajuda aos discípulos de Cristo, mas estes também se mostraram impotentes. E agora ele próprio se volta para o Médico Celestial, dizendo: “Se puderes, tem compaixão de nós e ajuda-nos”.
Nossa atenção, porém, é atraída para as palavras do Salvador: “Se podes crer, tudo é possível ao que crê”. Abra seu coração para Deus, confie n´Ele, apoie-se n´Ele com todo o seu ser — e então o poder de Deus se manifestará em sua vida. E, em resposta, ouve-se a voz lacrimosa do pai: “Eu creio, Senhor! Ajuda a minha incredulidade!” Este breve clamor contém todas as nossas contradições internas. Queremos crer, mas a vida parece nos esmagar com dúvidas; temos esperança, mas, ao mesmo tempo, o medo nos corrói por dentro. E quando Deus nos chama a dar um passo de fé, nós, como aquele pai desafortunado, clamamos: “Ajuda-me na minha incredulidade!”
Esse clamor da alma, transformado em oração, foi ouvido — e o Senhor curou o menino. Mas observemos o que Jesus disse mais tarde aos discípulos: “Esta espécie só pode ser expulsa pela oração e pelo jejum”. Essas palavras revelam mais um segredo da vida espiritual. Descobrimos que, para vencer o mal, as forças das trevas, não basta simplesmente desejar o bem ou proferir as palavras certas. É preciso ter uma conexão viva e profunda com Deus, que se fortalece pela oração e pelo jejum. Pelo jejum, humilhamos o corpo e as paixões, e pela oração incessante, elevamos nossa mente ao Senhor. E onde o homem sozinho é impotente, o poder gracioso de Deus se revela.
Hoje, a Igreja honra especialmente a memória de São João Clímaco. Este grande santo nos deixou um legado inestimável: “A Escada”, que revela, degrau por degrau, a ascensão da alma a Deus. São João sabia precisamente que, sem humildade, sem abnegação, sem constante serenidade interior e oração, uma pessoa não pode vencer as forças do mal, sejam elas internas ou externas. Recordemos como ele nos ensinou a vigiar o coração, a vencer as paixões uma a uma, como se subíssemos do degrau mais baixo ao mais alto: o amor a Deus. E como a nossa fé se fortalece com isso, como as nossas hesitações e dúvidas se transformam em firme confiança na misericórdia de Cristo!
Metropolita Ambrósio (Ermakov)
tradução de monja Rebeca (Pereira)








