Mas todos nós, tendo o rosto descoberto, contemplando a glória do Senhor como num espelho, somos transformados, de glória em glória, na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor. (2Co 3:18)
Voltando para casa outro dia, observei com grande alegria que algumas árvores na minha rua começaram a florescer. Imediatamente pensei: o inverno acabou, a primavera chegou! Todo o frio, toda a neve e o gelo se foram. Mas, continuou o pensamento, se não passarmos pelo inverno, não poderemos apreciar a primavera em sua plenitude.
Uma das celebrações mais belas do Japão é o festival das cerejeiras em flor. Pessoas se reúnem de longe para participar. Uma das coisas mais interessantes sobre ele é que não há uma data fixa de celebração ditada pelo calendário secular ou pela astronomia. O festival acontece sempre que as cerejeiras estão em plena floração. Parte de todo esse espetáculo reside na grande expectativa durante o inverno, quando, mesmo sofrendo com o frio e a terra árida, os japoneses sonham com a visão deslumbrante das cerejeiras em flor na primavera. Essa esperança, alimentada durante o inverno, torna as festividades muito mais significativas. Se as cerejeiras florescessem todos os dias, as pessoas se cansariam delas e esqueceriam como é não tê-las.
A vida que vivemos hoje é plena de tudo; nada falta à nossa mesa. Não sabemos o que é fome, nem mesmo o que é ficar sem carne por um dia sequer. Isso não acontecia com muitas gerações antes de nós, durante a guerra, a Grande Repressão e outros períodos difíceis. Vivemos em abundância, e não há nada de errado nisso, mas, ao mesmo tempo, se não prestarmos atenção, isso pode nos tornar preguiçosos e ingratos.
Uma solução simples é a disciplina do jejum prescrita pela Igreja Ortodoxa. Com dois dias de jejum por semana e quatro períodos principais de jejum, a Igreja nos convida a meditar sobre tudo o que temos, abrindo mão de algumas coisas, ainda que temporariamente.
Mas o jejum não se resume apenas à comida. Do ponto de vista espiritual, o mesmo se aplica. Nascemos sob a graça; fazemos parte da Santa Igreja de Cristo desde a infância. Recebemos o dom do Batismo quando crianças e participamos do Corpo de Cristo desde então. A Ressurreição de Cristo é, para muitos de nós, algo do passado, algo que foi feito por nós e cujos frutos desfrutamos hoje. Já não sabemos o que é esperar pelo momento em que o tempo “está maduro”, ansiar pela vinda do Messias. Para nós, o Ungido já está aqui. Mas Ele nunca deve ser percebido como alguém do passado, e sim como uma presença muito atual. O ciclo de Festas e Jejum nos ajuda nesse sentido, lembrando-nos a cada ano da proximidade de todos os eventos que aconteceram para a nossa salvação. A grande disciplina que escolhemos, a Quaresma, nos força, a nós, filhos mimados que somos, a perceber as grandes coisas que já foram feitas por nós e quantas coisas consideramos garantidas.
A expectativa proposta pela Grande Quaresma tem um enorme poder transformador. Se nos permitíssemos embarcar nessa jornada, seríamos moldados à imagem de Deus, ascenderíamos à Sua semelhança por meio dos recursos que a Igreja nos oferece: arrependimento, oração, jejum e caridade.
Mas você pode muito bem dizer: “Eu não preciso de transformação, já sou tão bom quanto posso ser”. Uma proposta fadada ao fracasso. Foi exatamente isso que o fariseu hipócrita disse, e ainda assim, Deus amou mais o publicano pecador, porém arrependido.
O conforto de nossas vidas é um grande freio ao nosso desenvolvimento como cristãos. Ele nos dá uma falsa impressão de realização. O sonho americano é a liberdade e a busca da felicidade, certo? Somos livres hoje, até certo ponto, somos felizes, a maioria de nós, então muitas vezes não vemos necessidade de mais nada e paramos no meio do caminho. A opressão e a fome, material ou espiritual, por outro lado, são um estímulo. Pense na Igreja Grega durante o domínio turco, como ela sobreviveu milagrosamente e não deixou de dar santos a Deus. Pense na Igreja sob o regime comunista e nos mártires que nunca perderam a esperança. Observe também hoje quantas pessoas da maioria ortodoxa nesses países frequentam a Divina Liturgia aos domingos. As estatísticas são absolutamente deprimentes. Tudo isso acontece porque a liberdade é mal compreendida e a abundância se torna a expressão da felicidade e o próprio objetivo da vida.
Mas São Serafim de Sarov diz que o objetivo da vida é alcançar o Espírito Santo. Viva uma vida plena do verdadeiro Espírito e seus sonhos de liberdade e felicidade serão alcançados por toda a eternidade. Se quisermos que isso se torne realidade, precisamos romper com a falsa sensação de realização que nossa prosperidade nos proporciona e perceber que estamos longe de nosso objetivo em um verdadeiro sentido espiritual.
Precisamos reconhecer nossas falhas, livrar-nos da máscara do orgulho e revelar a humildade que reside na imagem de Cristo dentro de nós. Deus se esvaziou de Sua glória e nos mostrou que, sob Sua glória inefável — que pode ser muito intimidante —, reside um grande amor pela humanidade; amor que O permitiu ir tão longe a ponto de se sacrificar para que pudéssemos ter vida.
Nosso objetivo deve ser o mesmo: esvaziar-nos da vã glória de conquistas ilusórias que sussurram em nossos corações: você é bom, você é inteligente, você é espiritual, e perceber que o pobre homem por trás da nossa máscara precisa de ajuda para crescer em Cristo.
Este é o dom da Quaresma: uma imagem verdadeira de nós mesmos que recebemos através da contrição, um reflexo sincero que mostra claramente quão pobres de espírito somos e quão faminta nossa alma está de Deus. Com uma compreensão clara de nossas falhas, as orações parecerão mais naturais, não mais longas, não mais entediantes, não mais palavras de outros, mas sim água que dá vida a uma alma sedenta. Amar o próximo também se tornará natural quando despirmos nossa armadura de arrogância, porque em humildade reconheceremos que não somos superiores aos nossos irmãos e irmãs, mas somos todos iguais perante Deus, iguais em fraquezas, iguais em pecado, iguais em precisar da misericórdia de Deus.
O jejum pode nos transformar, pode nos fazer florescer como cerejeiras na primavera, crescendo em apreciação pelo que está diante de nós, mas estamos ocupados demais para perceber. “A primavera do jejum amanheceu, a flor do arrependimento começou a desabrochar…” (Aposticha, Vésperas da quarta-feira da Semana do Queijo). Abrace o dom da Quaresma com sua disciplina espiritual, confesse seus pecados, ore mais, ame mais, perdoe mais e um novo mundo de significado se abrirá, chamando você cada vez mais alto, mais perto de Deus. Amém.
Sacerdote Vasile Tudora
tradução de monja Rebeca (Pereira)








